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Exorta????o Apost??lica ???Sacramentum caritatis??

A Eucaristia, eixo da vida cristã

 Pontifício
A Eucaristia, eixo da vida cristã

A Exorta????o Apost??lica Sacramentum caritatis, datada de 22 de Fevereiro de 2007, ?? o segundo documento de envergadura publicado pelo Papa, ap??s a enc??clica Deus caritas est, com a qual est?? intimamente relacionada, como se pode deduzir do próprio título (tirado de uma express??o de S. Tom??s de Aquino). O seu fio condutor ?? ??a Eucaristia, fonte e ??pice da vida da Igreja??, que justifica a multiplicidade dos temas abordados nas suas cento e trinta p??ginas (28.000 palavras).

 

Est?? dividida em tr??s grandes partes: Eucaristia, mistério acreditado; Eucaristia, mistério celebrado; Eucaristia, mistério vivido.

 

A intr??nseca unidade destes tr??s aspectos ?? um dos pontos-chave do texto. O objectivo do Papa ?? "suscitar na Igreja um novo impulso e fervor pela Eucaristia", em continuidade com o recente magist??rio da Igreja e concretamente com a enc??clica Ecclesia de Eucharistia (2003) de João Paulo II.

 

Eucaristia, mistério acreditado

 

Um tema t??o central para a vida da Igreja e dos cristãos não podia deixar de ser tratado com profundidade atrav??s dos s??culos. Não eram de esperar, portanto, novidades doutrinais neste documento. A sua riqueza consiste em apresentar o patrim??nio doutrinal com novo vigor e como eixo em torno do qual tudo gira. "Quanto mais viva for a f?? eucar??stica no povo de Deus, mais profunda ser?? a sua participa????o na vida eclesial por meio duma ades??o convicta ?? missão que Cristo confiou aos seus disc??pulos. Testemunha-o a própria história da Igreja: toda a grande reforma est??, de algum modo, ligada ?? redescoberta da f?? na presen??a eucar??stica do Senhor no meio do seu povo".

 

A Igreja, "universal sacramento de salva????o", exprime-se nos sete sacramentos, "pelos quais a gra??a de Deus influencia concretamente a exist??ncia dos fi??is para que toda a sua vida, redimida por Cristo, se torne culto agrad??vel a Deus".

 

O Papa mostra a relação que tem cada um dos sete sacramentos com o mistério eucar??stico e indica que o caminho de inicia????o cristã tem como ponto de refer??ncia a possibilidade de aceder a este sacramento. Daqui deriva a necessidade de sublinhar o v??nculo estreito que h?? entre Baptismo, Confirma????o e Eucaristia. Do ponto de vista pastoral, observa o Papa, ?? necessário verificar se a sequência na administra????o destes sacramentos ?? a adequada (efectivamente, nalguns lugares a Confirma????o recebe-se em último lugar, o que poder?? obscurecer a realidade de que "somos baptizados e crismados em ordem ?? Eucaristia").


Confiss??o e indulg??ncias

 

No que diz respeito ?? confiss??o ?? muito ??til para os fi??is "recordar-lhes os elementos que, no rito da Santa Missa, explicitam a consciência do próprio pecado e, simultaneamente, da miseric??rdia de Deus. Al??m disso, a relação entre a Eucaristia e a Reconcilia????o recorda-nos que o pecado nunca ?? uma realidade exclusivamente individual, mas inclui sempre uma ferida no seio da comunh??o eclesial, na qual nos encontramos inseridos pelo Baptismo".

 

"O S??nodo lembrou que ?? dever pastoral do Bispo promover na sua diocese uma decisiva recupera????o da pedagogia da convers??o que nasce da Eucaristia e favorecer, entre os fi??is, a confiss??o frequente", a cuja administra????o se devem dedicar todos os sacerdotes com generosidade, empenho e competência. "A propósito, procure-se que, nas nossas igrejas, os confession??rios sejam bem vis??veis e expressivos do significado deste sacramento. Pe??o aos pastores que vigiem atentamente sobre a celebra????o do sacramento da Reconcilia????o, limitando a pr??tica da absolvi????o geral exclusivamente aos casos previstos".

 

O Papa constata a influência de "uma cultura que tende a apagar o sentido do pecado, favorecendo uma atitude superficial que leva a esquecer a necessidade de estar na gra??a de Deus para se aproximar dignamente da comunh??o sacramental".

 

Tamb??m ?? de grande efic??cia pastoral o recurso ??s indulg??ncias, com as quais se ganha "a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados, cuja culpa j?? foi apagada". Ajuda-nos a compreender que "n??o somos capazes, s?? com as nossas for??as, de reparar o mal cometido e que os pecados de cada um causam dano a toda a comunidade". A pr??tica das indulg??ncias ajuda a descobrir o carácter central da Eucaristia na vida cristã, "dado que a forma própria da indulg??ncia prev??, entre as condições requeridas, abeirar-se da Confiss??o e da Comunh??o sacramental".


Sacerd??cio e celibato

 

Depois de recomendar o costume do Vi??tico, a comunh??o levada aos doentes, o Papa exp??e a relação da Eucaristia com a Ordem sacerdotal, condi????o indispens??vel para a celebra????o v??lida da Eucaristia. Os sacerdotes actuam na celebra????o lit??rgica em nome de toda a Igreja; portanto, "nunca devem colocar em primeiro plano a sua pessoa nem as suas opini??es, mas Jesus Cristo".

 

O sentido do celibato sacerdotal ocupa um amplo espa??o no documento. "Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerd??cio ministerial requer, atrav??s da ordena????o, a plena configura????o a Cristo. Embora respeitando a pr??tica e tradi????o oriental diferente, ?? necessário reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestim??vel e confirmado também pela pr??tica oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem em celibato, indício da grande honra em que ela tem a op????o do celibato, feita por numerosos presb??teros".

 

O Papa diz que o ponto de refer??ncia para entender o sentido do celibato ?? "o facto de que o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrif??cio da cruz, no estado de virgindade". Assim, pois, "n??o ?? suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo".

 

"Em sintonia com a grande tradi????o eclesial, com o Conc??lio Vaticano II e com os Sumos Pont??fices meus predecessores, corroboro a beleza e a import??ncia duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedica????o total e exclusiva a Cristo, ?? Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradi????o latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedica????o, ?? uma b??n????o enorme para a Igreja e para a própria sociedade".

 

Os problemas de escassez de clero não podem levar a aceitar candidatos sem os requisitos necessários para a ordena????o sacerdotal. "Um clero não suficientemente formado e admitido ?? ordena????o sem o necessário discernimento dificilmente poder?? oferecer um testemunho capaz de suscitar noutros o desejo de generosa correspond??ncia ?? voca????o de Cristo". Sobretudo, é preciso "ter a coragem de propor aos jovens o seguimento radical de Cristo, mostrando-lhes o seu encanto". E ter maior confian??a na iniciativa divina, em que "Cristo continua a suscitar homens que não hesitam em abandonar qualquer outra ocupa????o para se dedicarem totalmente ?? celebra????o dos mistérios sagrados, ?? prega????o do Evangelho e ao minist??rio pastoral".

 

Matrim??nio e situações irregulares

 

Outro grande espa??o est?? dedicado ao Matrim??nio, ?? raiz antropológica e teológica da sua indissolubilidade e ??s situações irregulares. O Papa refere como na teologia de S. Paulo "o amor esponsal ?? sinal sacramental do amor de Cristo pela sua Igreja, um amor que tem o seu ponto culminante na cruz, express??o das suas 'n??pcias' com a humanidade e, ao mesmo tempo, origem e centro da Eucaristia".

 

"O v??nculo fiel, indissol??vel e exclusivo que une Cristo e a Igreja e tem express??o sacramental na Eucaristia, est?? de harmonia com o dado antropológico primordial segundo o qual o homem deve unir-se de modo definitivo com uma s?? mulher, e vice-versa". "Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrim??nio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de aspirar".

 

O Papa qualifica de "problema pastoral espinhoso e complexo" a situação dos fi??is que, depois de terem celebrado o sacramento do Matrim??nio, se divorciaram e contra??ram novas n??pcias. "O S??nodo dos Bispos confirmou a pr??tica da Igreja, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir aos sacramentos os divorciados que voltaram a casar, porque o seu estado e condi????o de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que ?? significada e realizada na Eucaristia".

 

Todavia, essas pessoas continuam a pertencer ?? Igreja, que as "acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida". Nos casos em que surgirem dúvidas leg??timas sobre a validade do Matrim??nio, deve fazer-se tudo o que for necessário para verificar o seu fundamento. Nestas situações é preciso evitar que a preocupa????o pastoral seja vista em contraposi????o ao direito. "Deve-se partir do pressuposto que o ponto fundamental de encontro entre direito e pastoral ?? o amor pela verdade". Por isto, quando não se reconhece a nulidade do v??nculo matrimonial e se verificam as condições objectivas que tornam realmente irrevers??vel a conviv??ncia, "a Igreja encoraja estes fi??is a esfor??arem-se por viver a sua relação segundo as exigências da lei de Deus, como amigos, como irm??o e irm??; deste modo poder??o novamente abeirar-se da mesa eucar??stica, com os cuidados previstos por uma comprovada pr??tica eclesial. Para que tal caminho se torne possível e d?? frutos, deve ser apoiado pela ajuda dos pastores e por adequadas iniciativas eclesiais, evitando, em todo o caso, aben??oar estas relações para que não surjam entre os fi??is confus??es acerca do valor do matrim??nio".


Mist??rio celebrado

 

A segunda parte do documento est?? dedicada ?? celebra????o da Eucaristia. Destaca o sentido da liturgia e da sua beleza, rev?? as partes da Missa e prop??e a redescoberta da adora????o eucar??stica. Neste percurso não faltam indica????es concretas sobre alguns aspectos pontuais. Uma ideia de fundo, presente em todo o texto, ?? que a renova????o lit??rgica querida pelo II Conc??lio do Vaticano, deve ser lida em continuidade com a tradi????o lit??rgica da Igreja, isto ??, "dentro da unidade que caracteriza o desenvolvimento hist??rico do próprio rito, sem introduzir artificiosas rupturas".

 

A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar no valor teológico e lit??rgico da beleza, vista não como mero esteticismo. "A beleza não ?? um factor decorativo da ac????o lit??rgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revela????o. Tudo isto nos h??-de tornar conscientes da aten????o que se deve prestar ?? ac????o lit??rgica para que brilhe segundo a sua própria natureza". Visto que a liturgia eucar??stica ?? essencialmente ac????o de Deus, que nos envolve em Jesus por meio do Esp??rito, "o seu fundamento não est?? ?? merc?? do nosso arb??trio e não pode suportar a chantagem das modas passageiras".

 

"Durante os trabalhos sinodais, foi várias vezes recomendada a necessidade de superar toda e qualquer separa????o entre a ars celebrandi, isto ??, a arte de celebrar rectamente) e a participa????o plena, activa e frutuosa de todos os fi??is: com efeito, o primeiro modo de favorecer a participa????o do povo de Deus no rito sagrado ?? a condigna celebra????o do mesmo".

 

Gosto pela beleza

 

Da profunda liga????o entre beleza e liturgia passa ?? consideração da import??ncia de todas as express??es art??sticas colocadas ao serviço da celebra????o: a arquitectura dos templos, a arte sacra, os paramentos e a decora????o. O Papa diz que ?? necessário que em tudo quanto tenha a ver com a Eucaristia, haja gosto pela beleza que fomente o assombro pelo mistério de Deus, manifeste a unidade da f?? e reforce a devo????o.

 

Ocupa lugar de destaque o canto lit??rgico, que "deve integrar-se na forma própria da celebra????o". Neste sentido, ?? necessário evitar a improvisa????o gen??rica ou a introdução de g??neros musicais que não respeitem o sentido da liturgia". E embora tendo em conta as diferentes tendências e tradi????es, "desejo - como foi pedido pelos padres sinodais - que se valorize adequadamente o canto gregoriano, como canto próprio da liturgia romana".

 

Nesse contexto, o Papa recomenda - em sintonia com as directrizes do II Conc??lio do Vaticano - o uso da l??ngua latina, especialmente nas celebra????es que têm lugar durante encontros internacionais. "A nível geral, pe??o que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do semin??rio, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano; nem se descure a possibilidade de formar os próprios fi??is para saberem, em latim, as ora????es mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia".

 

O ponto de refer??ncia para entender o sentido do celibato ?? o facto de o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrif??cio da cruz, no estado de virgindade".

 

Viver segundo o domingo

 

A relação da Eucaristia com a vida quotidiana do cristão ?? o tema da terceira parte do documento. "O culto a Deus na exist??ncia humana não pode ser relegado para um momento particular e privado, mas tende, por sua natureza, a permear cada aspecto da realidade do indiv??duo. Assim, o culto agrad??vel a Deus torna-se uma nova maneira de viver todas as circunst??ncias da exist??ncia, na qual cada particular fica exaltado porque vivido dentro do relacionamento com Cristo e como oferta a Deus".

 

Os cristãos "devem cultivar o desejo de ver a Eucaristia influir cada vez mais profundamente na sua exist??ncia quotidiana, levando-os a serem testemunhas reconhecidas como tais no próprio ambiente de trabalho e na sociedade inteira".

 

Trata-se de ??viver segundo o domingo??, em frase de Santo In??cio de Antioquia. Portanto, um primeiro passo ser?? a pr??tica do preceito dominical e a recupera????o do sentido do domingo, que em si mesmo merece ser santificado para que não acabe por ficar um dia ??vazio de Deus??". "?? no dia consagrado a Deus que o ser humano compreende o sentido da sua exist??ncia e também do trabalho".

 

O Papa salienta que os padres sinodais afirmaram que "os fi??is cristãos precisam de uma compreens??o mais profunda das relações entre a Eucaristia e a vida quotidiana. A espiritualidade eucar??stica não ?? apenas participa????o na Missa e devo????o ao Sant??ssimo Sacramento; mas abra??a a vida inteira".

 

Com efeito, acrescenta o Papa, "hoje torna-se necessário redescobrir que Jesus Cristo não ?? uma simples convic????o privada ou uma doutrina abstracta, mas uma pessoa real cuja inser????o na história ?? capaz de renovar a vida de todos. Por isso, a Eucaristia, enquanto fonte e ??pice da vida e missão da Igreja, deve traduzir-se em espiritualidade, em vida ??segundo o Esp??rito??".


Coer??ncia eucar??stica

 

Os cristãos "devem cultivar o desejo de ver a Eucaristia influir cada vez mais profundamente na sua exist??ncia quotidiana, levando-os a serem testemunhas reconhecidas como tais no próprio ambiente de trabalho e na sociedade inteira".

 

Esta "coer??ncia eucar??stica" exige também o testemunho público da própria f??. "Evidentemente isto vale para todos os baptizados, mas imp??e-se com particular prem??ncia a quantos, pela posi????o social ou política que ocupam, devem tomar decisões sobre valores fundamentais como o respeito e defesa da vida humana desde a concepção até ?? morte natural, a família fundada sobre o matrim??nio, entre um homem e uma mulher, a liberdade de educa????o dos filhos e a promo????o do bem comum em todas as suas formas. Estes são valores não negoci??veis. Por isso, cientes da sua grave responsabilidade social, os políticos e os legisladores católicos devem sentir-se particularmente interpelados pela sua consciência rectamente formada a apresentar e apoiar leis inspiradas nos valores impressos na natureza humana".

 

O Papa conclui recordando o exemplo dos primeiros cristãos, quando o culto cristão era ainda proibido. "Alguns cristãos do Norte de ??frica, que se sentiam obrigados a celebrar o dia do Senhor, desafiaram tal proibi????o. Foram martirizados enquanto declaravam que não lhes era possível viver sem a Eucaristia, alimento do Senhor: ??Sine dominico non possumos (...)?? Tamb??m n??s não podemos viver sem participar no sacramento da nossa salva????o e desejamos ser iuxta dominicam viventes, isto ??, traduzir na vida o que celebramos no dia do Senhor".

 

In Aceprensa, 32/07, na vers??o impressa

 

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