Uma esperança construtiva frente ao muro
Nesta "pris??o a c??u aberto", este palestiniano p??s em andamento, durante as últimas duas décadas, uma aut??ntica rede de centros de formação, empresas e instala????es tur??sticas para melhorar a qualidade de vida da popula????o. E não desanimou quando, em 2002, o Ex??rcito Israelita destruiu o seu centro cultural. Este pastor da Igreja Luterana da Natividade, de 46 anos, casado e pai de duas filhas, tem recebido diversos galard??es pelo seu trabalho, o último dos quais foi o Pr??mio da Paz de Aix-la-Chapelle 2008.
- Os cristãos são apenas 1,9 por cento da popula????o palestiniana. E, dentro deles, os luteranos são apenas um pequeno grupo. Sentem-se como uma "minoria dentro da minoria"?
- Alguns descrevem-nos assim, mas não estou de acordo. ?? certo que a nossa Igreja ?? pequena, sim. No s??culo XIX, quando constru??mos o templo, estava nos limites da cidade, mas hoje est?? mesmo no centro e n??s, verdadeiramente, no miolo do que acontece em Bel??m. Ao mesmo tempo, estou contente por os luteranos não estarmos representados nos Lugares Santos. H?? quem pense que isto ?? negativo, mas eu creio que ?? muito positivo, porque podemos centrar-nos no trabalho real, com as pessoas, em vez de preocupar-nos com as pedras.
- Como ?? que a ocupa????o israelita afecta a sua comunidade?
- Por causa do muro, as pessoas de Bel??m sentem-se como prisioneiras num c??rcere a c??u aberto. Al??m disso, Israel est?? a introduzir uma espécie de apartheid na Cisjord??nia. N??s, os palestinianos não podemos utilizar, por exemplo, 65% das estradas reservadas aos colonos judeus. Convertemo-nos em estrangeiros na nossa terra. Falando da nossa Igreja, antes de 1967, costum??vamos fazer os nossos exercícios espirituais no L??bano. Em 1967 tivemos que come??ar a faz??-los na Galileia. Mas, desde 2000 nem sequer nos d??o autoriza????es para visitar Israel. Isto ?? apenas um exemplo da complica????o que pode resultar de algo t??o simples como uns exercícios espirituais.
- E o senhor pode viajar livremente?
- N??o, preciso de autoriza????o israelita, como todos em Bel??m. Tenho uma autoriza????o para Jerusal??m, renov??vel de tr??s em tr??s meses, mas não posso, por exemplo, visitar Tel Avive, Haifa, Tiber??ades ou Gaza.
-E pode visitar Jerusal??m sempre que quer ?
- N??o, s?? até ??s 10 da noite. At?? h?? pouco a restri????o era das 5 da manh?? ??s 7 da tarde.
O apartheid na Cisjord??nia
- E a paz, est?? cada vez mais próxima?
- Pelo que se ouve, sim; mas, pelo que se v??, n??o. Ouvimos constantemente hinos ?? paz, mas o que vemos ?? que a Cisjord??nia se converte cada vez mais num bocado de queijo su????o, onde Israel fica com o queijo, quer dizer, com a terra e os recursos; e entretanto os palestinianos são empurrados para os buracos (do queijo). E Bel??m ??, basicamente, um desses buracos.
- ?? desse apartheid que o senhor fala?
- Na Cisjord??nia h?? dois sistemas legais diferentes, um para os colonos judeus e outro para os palestinianos. H?? também dois sistemas de estradas, dois diferentes acessos ?? ??gua e ??s autoriza????es de construção. Tamb??m h?? diferentes liberdades de movimento. Uns não se podem mexer, obstaculizados pelos 630 pontos de controlo e barreiras. Os colonos, por outro lado, movimentam-se sem restri????es, na mesma terra. Para ser claro, direi que Israel est?? a tentar importar tr??s sistemas diferentes e a fundi-los num s??. Al??m do apartheid da ??frica do Sul, est?? a importar os muros da RDA e a tentar também aplicar o conceito das reservas ??ndias dos Estados Unidos. Ora, Israel quer vender isto como a paz: ?? este o problema.
- E os seus fi??is estão a emigrar muito, por causa desta situação?
- Est??o a emigrara muitos cristãos, sim, mas não da nossa Igreja. N??s temos muitos palestinianos jovens e muito bem formados: poder??o ir em qualquer momento. Est??o aqui por escolha, como eu; creio que o fazem porque partilham a mesma vis??o. Mas ?? um facto que muitos cristãos se foram embora e isto ?? algo perigoso. Creio que o cristianismo tem futuro aqui, se contribuirmos com uma vis??o correcta.
- E qual ?? essa vis??o?
- A vis??o ?? a de que podemos deixar de ser espectadores e converter-nos em actores. ?? passar de uma cultura da lamenta????o a uma cultura de esperança. Não falo de esperança barata, de palavras vazias, mas de esperança real. Consiste em transformar t??mulos em lugares de luz; em levar ??s pessoas a consciência do seu potencial, do potencial do nosso pa??s e do que realmente podem conseguir.
Construindo a Palestina
- No muro, junto ?? entrada de Bel??m, h?? uma frase pintada que diz "No hope" ("Não h?? esperança").
- Não estou de acordo. Sou muito pessimista porque vamos a caminho de um apartheid na Cisjord??nia, mas, por outro lado, tenho esperança. A esperança criamo-la n??s próprios e tudo o mais ?? lixo. Vejo que em Bel??m podemos mover montanhas. Em poucos anos, por exemplo, pusemos em andamento cinco novas iniciativas sociais e educativas. Agora estamos a criar a primeira escola superior de Biologia da Palestina. Isto s?? se pode fazer tendo um projecto, uma vis??o, se actuamos, em vez de reagir. N??s j?? estamos a construir a Palestina. Não esperamos que ningu??m o fa??a por n??s.
- Nesta situação, como ?? possível encontrar na rua tantos palestinianos sorridentes e alegres?
- Para mim, verdadeiramente, ?? um milagre. Sempre penso que se alguns pa??ses europeus vivessem sob ocupa????o, num contexto como o nosso, haveria muito mais violência do que aqui. Creio que isso tem que ver com a nossa cultura - não estou a falar da islâmica ou ??rabe - mas de ter vivido quase toda a nossa história sob ocupa????o. Quanto tempo experimentaram os nossos antepassados o que se chama liberdade? Quase nunca. Por isso, as pessoas desenvolveram uma cultura de sobreviv??ncia. Quando Jesus nasceu, Bel??m estava sob ocupa????o romana e queriam mat??-lo. Diziam que era o "rei dos judeus". Isso podia significar independ??ncia e, por isso, era perigoso.
- Acha que, aqui, se pode "amar o inimigo", em sentido cristão?
- Sim. ?? algo a que não quero renunciar, porque creio que o amor ?? uma cultura. Se uma pessoa tenta viver nessa cultura, ser?? capaz inclusivamente de amar o seu inimigo, porque começará a ver nele um potencial vizinho. Se nos movemos numa cultura de ??dio, come??amos a odiar o inimigo e acabamos a odiar-nos a n??s próprios.
- Entre os cristãos pelestinianos h?? algo do g??nero duma "Teologia da Liberta????o"?
- Sim, h?? algo de Teologia da Liberta????o, mas ?? algo de que não gosto especialmente, porque creio que se centra apenas numa liberta????o política. Eu sou um dos fundadores do que chamamos Teologia Contextual, que ?? muito mais ampla. Presta aten????o ?? cultura, ??s outras religi??es e toma muito a s??rio a economia.
- Como come??ou esse movimento?
- Teve início com te??logos de várias igrejas que come????mos a reunir-nos em 1987, no come??o da Intifada, e a trabalhar no que cham??vamos Teologia Local; depois passou a chamar-se diálogo cristão-muçulmano e, mais tarde, diálogo cristão-muçulmano-judaico. Mas, sobretudo, centr??mo-nos na ac????o, porque qualquer teologia que não se traduza em obras, não ?? vi??vel. Uma boa ideia, voando sem mais, no ar, não ?? cristã.
?? espera da visita do Papa
- Com Bel??m, o ber??o de Jesus, asfixiada pela ocupa????o, parece-lhe positivo que Bento XVI visite Israel?
- Prev??-se a sua viagem em Maio de 2009. Creio que qualquer habitante do mundo devia vir a Bel??m, para descobrir esse abismo entre o que ouve e o que v??. Uma pessoa pode ler muito nos jornais sobre o muro, mas estar em frente dele e atravessar o posto de controlo ?? algo muito diferente. Se o Papa vem e v?? os factos no terreno, pode ser algo muito poderoso.
- Pensa que as Igrejas no ??mbito mundial, entendem o conflito e trabalham para solucion??-lo?
- Creio que as Igrejas da Terra Santa estão a mobilizar as suas Igrejas associadas, a nível mundial, duma maneira muito mais efectiva do que o faz, politicamente, a Autoridade Palestiniana. Os cristãos estão a fazer um trabalho muito importante, com apelos a favor da justi??a e não do ??dio. ?? disso que precisamos.

