A Santa S?? e Israel, entre a amizade e a desconfian??a
Em Dezembro de 1993 assinou-se um Acordo Fundamental entre a Santa S?? e o Estado de Israel por meio do qual se estabeleciam relações diplom??ticas. Cumpria-se assim um antigo desejo do mundo judeu. Como gesto de boa vontade, João Paulo II optou por propor um Acordo Fundamental e negociar mais tarde questões concretas, como o estatuto jur??dico das instituições eclesi??sticas e o seu tratamento fiscal.
15 anos volvidos
Parecia que tudo se podia resolver com rapidez, mas foram precisos quatro anos - até Novembro de 1977 - para a Igreja ser juridicamente reconhecida em Israel, lentid??o que no Vaticano causou perplexidade e preocupa????o. A Igreja Católica tem na Terra Santa cerca de trezentas instituições, que incluem igrejas, conventos, escolas e organismos de caridade.
No entanto, quinze anos depois do estabelecimento de relações diplom??ticas, ainda existem questões que continuam sem resolução. O acordo sobre o reconhecimento jur??dico da Igreja ainda não foi ratificado pelo Knesset (Parlamento).
Parece próximo um acordo sobre o tratamento fiscal das propriedades da Igreja Católica, mas ainda não foi assinado. Segundo a lei israelita, os templos estão isentos de pagar o imposto sobre bens im??veis, mas a Igreja possui também outras instala????es (hot??is para peregrinos, escolas, resid??ncias...) cujo estatuto fiscal ?? controverso. No passado 30 de Abril reuniu-se a comissão negociadora "numa atmosfera de grande amizade e esp??rito de coopera????o e boa vontade", segundo o comunicado. Mas a negocia????o não se concluiu e marcou-se novo encontro para dia 10 de Dezembro de 2009 no Vaticano.
Outro ponto de conflito relaciona-se com a concess??o de vistos e de licen??as de resid??ncia ao pessoal eclesi??stico. Em 2004, as Igrejas denunciaram estas restri????es de vistos, que ent??o afectavam 138 religiosos. O problema reside em que os cidad??os dos pa??ses ??rabes, regra geral, apenas recebem vistos para entrar uma s?? vez e não para várias entradas. Devem al??m disso submeter-se a procedimentos de aprova????o muito lentos. O Estado de Israel justifica esta norma com raz??es de segurança, aplicando-a também ao clero.
Isto traz graves problemas ao trabalho pastoral da Igreja. O patriarcado latino disp??e de duas centenas de sacerdotes, religiosos e religiosas que procedem dos territórios palestinianos, da Jord??nia, do Egipto, do Iraque e do L??bano. Quando um sacerdote eg??pcio ou jordano destacado em Jerusal??m ou em Bel??m vai de f??rias visitar a família, tem de esperar semanas ou meses até lhe darem licen??a para tornar a entrar. A complica????o aumenta pelo facto de o patriarcado latino não abarcar apenas Israel e os seus territórios, mas também a Jord??nia e Chipre, precisando portanto o pessoal eclesi??stico de certa liberdade de movimentos.
Passados 15 anos sobre o estabelecimento de relações diplom??ticas entre Israel e a Santa S??, continua a haver questões por resolver
Numa entrevista realizada por Vicente Poveda em Dezembro de 2008, o franciscano Artemio V??tores, vig??rio da Cust??dia da Terra Santa, declarava, a propósito dos vistos, que em Israel "se vive com a sensa????o de ter uma espada de D??mocles sobre a cabe??a", pois estamos sempre com medo que nos tirem a resid??ncia, caso levantemos algum problema.
A questão dos vistos preocupa também pelo facto de, no novo governo de Benjamin Netanyahu, o Minist??rio do Interior ter sido atribuído a um membro do partido religioso Shas. A última vez que o Shas controlou este minist??rio verificou-se um corte total ?? concess??o de vistos ao pessoal eclesi??stico.
O assunto inquieta também Bento XVI que, ao receber as cartas credenciais do novo embaixador israelita na Santa S?? em Maio do ano passado, se referiu a "algumas dificuldades causadas pelas cont??nuas incertezas sobre os direitos eestatuto legal" dos eclesi??sticos, e mencionou em particular a questão dos vistos, como ent??o notici??mos.
Os cristãos emigram
Igualmente dependentes das licen??as israelitas estão os cristãos dos territórios ocupados. O padre Artemio V??tores lamentava esta situação na entrevista: "Em Bel??m, os cristãos viviam especialmente de ir trabalhar a Jerusal??m. Mas o muro cortou tudo. Agora, para trabalhar em Jerusal??m precisam de uma licen??a especial, renov??vel de tr??s em tr??s meses, que os israelitas d??o a quem querem e retiram quando querem. H?? ainda a considerar que o muro se encerra com frequ??ncia". Muitos perderam o trabalho. "Os cristãos são uma minoria cada vez mais pequena e provavelmente também t??m medo de ser taxados de pr??-israelitas ao aceitarem os vistos".
Em consequência, muitos cristãos palestinianos emigram por falta de perspectivas económicas e devido ?? ocupa????o israelita. Em Bel??m, que tem 30.000 habitantes, a popula????o cristã era em 1967 de 70% e hoje não chega aos 15%. Na sua maioria emigram homens novos, o que traz consigo o problema acrescido de as raparigas não encontrarem com quem casar.
Muitos cristãos palestinianos emigram devido ?? falta de perspectivas económicas e ?? ocupa????o israelita
Tamb??m por esse decr??scimo da popula????o cristã são importantes as peregrina????es ?? Terra Santa: do ponto de vista psicológico, para que os cristãos da Terra Santa se vejam acompanhados por cristãos de outras partes do mundo; e do ponto de vista económico, pelas entradas que sup??e o turismo religioso.
Os cristãos são hoje em Israel 2,1% de uma popula????o total de 7,1% milhões de habitantes, num pa??s onde 75,8% são judeus e 16,5% muçulmanos. No seu discurso de recep????o ao embaixador de Israel, o Papa sublinhou que esta presen??a cristã representa "um potencial para contribuir significativamente para cicatrizar a separa????o entre ambas as comunidades", a judaica e a muçulmana. Bento XVI falou ent??o do seu sonho de que todas as pessoas da Terra Santa possam viver em paz "em dois Estados soberanos independentes", express??o que o governo de Netanyahu se resiste a empregar.
Reac????es assim??tricas
Nas relações entre a Santa S?? e Israel, quando uma das partes se queixa de alguma posi????o da outra, observam-se reac????es assim??tricas.
Em 2007, foi colocado no memorial do Yad Vashem de Jerusal??m um grande retrato de Pio XII ao lado de fotografias a??reas do campo de exterm??nio de Auschwitz-Birkenau, com textos que acusavam o pont??fice de indiferença perante o holocausto judeu. Nenhum deles evoca os agradecimentos da comunidade judaica a Pio XII no fim da guerra. O N??ncio protestou, mas o retrato e os textos não foram retirados. Na sua viagem a Israel, Bento XVI visitar?? o Yad Vashem, mas não entrar?? no museu onde se ofende a mem??ria de Pio XII.
Em compensa????o, quando Bento XVI, no desejo de superar o cisma dos tradicionalistas lefebvrianos, levantou a excomunh??o a quatro bispos, entre os quais a Richard Williamson, rebentou um grande esc??ndalo. Williamson fez declara????es negando o Holocausto, declara????es essas que a Santa S?? pelos vistos ignorava. O gabinete de imprensa da Santa S?? e o próprio Bento XVI tiveram que explicar publicamente que o que se pretendia era recompor a unidade na Igreja, que o levantamento da excomunh??o era s?? um passo prévio que ainda não supunha a reintegração dos bispos lefebvrianos, e que de modo algum esta medida implicava dar raz??o ??s insustent??veis opini??es de Williamson sobre o Holocausto.
O esclarecimento era sem dúvida necessário, depois de um erro de comunicação. Mas o que mais chamou as aten????es foi que esta decisão do Papa, que não tinha que ver directamente com as relações entre católicos e judeus, parecesse num primeiro momento anular todo o processo de aproxima????o de quatro décadas. O Gr??o-Rabinato de Israel anunciou que cortava as suas relações com o Vaticano e cancelou uma reunião prevista.
Depois as ??guas acalmaram. O rabino David Rosen, encarregado do diálogo inter-religioso no Gr??o-Rabinato de Israel, disse que "as comunidades judaica e católica t??m demasiadas coisas em comum para questionarem a sua relação de mais de quarenta anos". Tamb??m ?? verdade que a viagem de Bento XVI ?? Terra Santa, que sem dúvida interessa ao Estado de Israel, estava ainda por confirmar, e o rabino Rosen apressava-se a dizer que "no contexto deste epis??dio, se torna ainda mais necessário para as relações judaico-cristãs que o Papa visite Israel e a Terra Santa" (La Croix, 12-02-2009).
Quando a Santa S?? faz algo que não agrada aos israelitas - como o caso Williamson, a valoriza????o da figura de Pio XII, ou as cr??ticas aos massacres de Gaza -tal ?? imediatamente denunciado como uma falta de colabora????o na luta contra o anti-semitismo. Mas quando a intoler??ncia se dirige contra o cristianismo em Israel, o critério não costuma ser o mesmo. Por causa do caso Williamson, num programa televisivo do Canal 10, o comediante Lior Shlein ridicularizou com palavras e imagens blasfemas a Virgem e Jos??, numa emissão que o Vaticano considerou como "um acto de intoler??ncia grosseiro e ofensivo para com os sentimentos religiosos dos crentes cristãos". O canal televisivo pediu depois desculpas. Mas não restam dúvidas de que nenhum canal televisivo europeu se teria permitido fazer um programa desse tipo para ridicularizar os judeus.
Realizam-se igualmente em Israel actos anti-cristãos que, se ocorressem noutros pa??ses contra os judeus seriam um bradar aos c??us. O padre Artemio V??tores conta um caso significativo: "H?? umas semanas regress??vamos (os frades franciscanos) de Getsemani. Quando cheg??mos ?? Cidade Velha encontramo-nos com uma manifesta????o de judeus ortodoxos, todos muito jovens. Ao que parece, percorrem Jerusal??m uma vez ao m??s para dizer que a cidade ?? sua. Quando viram os frades, insultaram-nos e cuspiram-nos na cara e no h??bito. Os polícias não fizeram nada". Os mesmos ultra-ortodoxos organizam de vez em quando queimas públicas do Novo Testamento. Estes incidentes, ainda que sejam isolados e obra de extremistas, levam-nos a perguntar quais as ra??zes desse anti-cristianismo.
Tem havido nos últimos tempos no mundo católico uma s??ria preocupa????o por desmontar preconceitos contra o juda??smo e com este fim rever textos escolares. Mas o que ?? que se aprende sobre o cristianismo nas escolas de Israel? "Sobretudo, coisas negativas", responde o P. franciscano Artemio V??tores, vig??rio da Cust??dia da Terra Santa.
Aceprensa

