Em busca da p??rola de grande valor
Para um anglicano, entrar em comunh??o com a Igreja Católica, congregada em torno de S??o Pedro e dos sucessores do primeiro Papa, ?? uma experiência semelhante ?? daquele mercador referido em Mateus 13, 46 que, ??ao encontrar uma p??rola de grande valor, vai vender tudo o que tem para a comprar??. Trata-se de uma empresa exigente, que requer sacrif??cio, mas essa ?? afinal a natureza do apostolado, e ?? de uma import??ncia t??o fundamental, que todos os argumentos contingentes acabam por ceder perante ela. A espantosa generosidade de que Bento XVI deu provas, ao propor uma base can??nica para os anglicanos que desejem estar em comunh??o com ele, ?? uma ocasi??o de grande j??bilo, pois significa que não caminhamos sozinhos.
Não ?? essencialmente por não se sentirem bem nas próprias igrejas os anglicanos regressam a Roma. H?? no mundo anglicano alternativas bem mais acessíveis para aqueles que objectam ??s mais recentes decisões e aos últimos desenvolvimentos ocorridos nas suas igrejas. As advert??ncias, feitas em especial pelos c??rculos católicos liberais, acerca do risco que significa admitir anglicanos descontentes t??m obviamente de ser tidas em consideração; mas as mais importantes reac????es adversas vi-as eu, enquanto católico, em católicos descontentes, que objectam aos ensinamentos da sua própria Igreja. O percurso até ?? comunh??o ?? um processo purgativo, e as almas que o completam sentem-se muito felizes por terem chegado.
Para mim, esse momento teve lugar nos come??os de 2007, num encontro com bispos da Igreja Episcopaliana, encontrando-me eu no meio de colegas que aprendera a amar, cuja companhia apreciava profundamente. Estes colegas consideraram que tinha chegado o momento de afirmar que o alcance das medidas decretadas pela Igreja Episcopaliana era essencialmente local e democrático, e que quaisquer liga????es a estabelecer no seio da Comunh??o Anglicana e do mundo cristão seriam meramente volunt??rias e de coopera????o. Foi a gota de ??gua que fez verter o copo, porque eu não consegui conciliar esta posi????o com a vis??o católica que tinha da Igreja. E, enquanto membro de uma família de igrejas cujas origens eram romanas, pareceu-me ??bvio o que tinha de fazer.
Não foi uma decisão repentina. O objectivo da unidade católica tem sido, em maior ou menor grau, um elemento constitutivo da identidade anglicana desde Newman, como fica manifesto pelas declara????es conjuntas da Comissão Internacional Anglicana e Católica. Nos anos que se seguiram imediatamente ao Conc??lio Vaticano II, parece ter havido uma situação favorável ?? reunião; por??m, fortes movimentos contra-intuitivos no seio do anglicanismo afastaram de tal maneira do horizonte o objectivo da comunh??o, que deixou de ser realista esperar que os instrumentos ecum??nicos que estavam a ser utilizados tivessem a capacidade de sarar o cisma. De maneira que diversos grupos e indiv??duos foram abordando a Santa S??, não tanto com o objectivo de repudiarem o anglicanismo, como a fim de descobrirem um novo caminho para a unidade.
Eu participei numa destas abordagens, que teve lugar em 1993-94. E, ao rever a carta que ent??o endere????mos ?? Santa S??, foi com espanto que nela encontrei m??ltiplos ecos da ??Nota da Sagrada Congrega????o para a Doutrina da F?? acerca dos ordinariatos pessoais??. Os leitores que tiverem interesse em conhecer esta história a fundo ler??o com proveito The Roman Option, de William Oddie (Harper/Collins, 1997). S?? para acrescentar uma nota ao excelente estudo do Dr. Oddie, a solicita????o de uma estrutura can??nica semelhante ao ordinariato militar foi inicialmente feita por Monsenhor William Stetson, que foi durante muitos anos secret??rio do delegado eclesi??stico da estrutura de acompanhamento deste movimento.
Não ?? f??cil definir com exactid??o aquilo a que o Papa Paulo VI chamou o ??digno patrim??nio?? da tradi????o anglicana. Depressa nos apercebemos de que esta identidade anglicana não ??, antes de mais, lit??rgica, porque o movimento lit??rgico produziu uma verdadeira converg??ncia entre os formatos anglicano e católico. Na altura, escrevemos: ??Ter?? de ser mais do que a preserva????o das caracter??sticas espec??ficas da cultura da Igreja Anglicana (ie, o patrim??nio lit??rgico, devocional e musical), ainda que tal preserva????o seja muito de promover. O que n??s desejamos ?? que o nosso regresso ?? união com Pedro nos permita contribuir para p??r fim ao Cisma do Ocidente, por meio de um apostolado especificamente orientado para a unidade dos cristãos, como ve??culo atrav??s do qual a Igreja Católica possa abra??ar os filhos e as filhas que dela se separaram, e aumentar os seus recursos na obra da evangeliza????o.??
Apreciei muit??ssimo o facto de a Nota indicar que a preserva????o do patrim??nio anglicano tem ser contrabalançada pela preocupa????o com uma efectiva integração dos peregrinos anglicanos na Igreja Católica, assinalando que eles não poder??o limitar-se a viver como uma sub-cultura distinta. Este facto ?? importante por muitas raz??es, mas h?? uma que me ocorre em particular: n??s, os anglicanos, temos certos maus h??bitos de que temos de nos libertar, porque a vida anglicana est?? hoje em manifesta desordem. Não se pode subestimar a nossa necessidade de formação; Roma não se fez num dia, e o sacerd??cio católico também não pode ser simplesmente envergado, como quem veste uma capa. Este aspecto parece-me especialmente de referir, pois vai exigir um esfor??o para estender a m??o a sacerdotes católicos s??bios e experientes. Sempre me sentirei profundamente grato ??queles que me apoiaram, que pacientemente me animaram e que rezaram comigo, em especial aos not??veis membros do Col??gio Irland??s e a Monsenhor Francis Kelly, da Casa Santa Maria, em Roma.
Estes queridos amigos do Col??gio Irland??s costumavam meter-se comigo por causa das minhas ??cinco ordena????es e um casamento??. Embora acolhendo esta iniciativa do Santo Padre, h?? cl??rigos anglicanos que pretendem reabrir a questão da validade das ordena????es anglicanas, dado que objectam ?? regra geral da ordena????o dentro da plena comunh??o. Para mim, este aspecto não constituiu dificuldade nenhuma, porque não me pareceu que a minha ordena????o na Igreja Católica fosse uma rejei????o do meu minist??rio anglicano. As ordena????es anglicanas são o que s??o. Poder?? ser razoável criticar a enc??clica que Le??o XIII escreveu em 1896 sobre as ordena????es anglicanas, Apostolicae Curae, pelo facto de o Papa se ter expressado num idioma r??gido, que era o idioma do seu tempo, mas o certo ?? que esta enc??clica também pode ser lida a uma luz positiva. Os amigos falam entre si de forma clara, e ?? prov??vel que este texto tenha sido responsável por grande parte dos progressos ecum??nicos j?? realizados, dado que provocou os anglicanos a reflectirem com mais profundidade na teologia do sacerd??cio ministerial. Eu tenho em grande valor as oportunidades que tive, o ano passado, de rezar diante do t??mulo do Papa Le??o XIII, em S??o João de Latr??o. O principal anti-her??i do anglicanismo continua, ironicamente, a ser uma poderosa for??a espiritual com vista ?? unidade dos cristãos.
H?? uma coisa que continua a perturbar-me ao longo desta jornada: a mem??ria das pessoas que ficaram para tr??s. Foi muito dif??cil afastar-me de pessoas com quem mantinha relações pastorais que eram para mim de grande valor, e fi-lo porque tanto a igreja como a deontologia ministerial exigiam uma quebra total e decisiva. Muitas delas s??o, evidentemente, anglicanos profundamente empenhados, que não t??m interesse em seguir este caminho com vista ?? unidade. A esses desejo-lhes as maiores felicidades. Mas penso muitas vezes noutros, que anseiam por algo mais, para quem a Igreja Católica ?? uma presen??a, atractiva, sim, mas que os intimida. Estes ter??o de ultrapassar os mal-entendidos acerca da doutrina da Igreja Católica, e os medos relativos ao que significa viver na Igreja Católica. Um trabalho pastoral paciente poder?? resolver grande parte destas dificuldades, e ?? uma grande alegria o Santo Padre ter-lhes aberto a porta.
Fonte: www.mercatornet.com
O Reverendo Jeffrey Steenson, da Arquidiocese de Santa F??, era o Bispo da Diocese Episcopaliana de Rio Grande (Novo M??xico e Texas Ocidental) antes de ter sido recebido na Igreja Católica, a 30 de Novembro de 2007. Vive com a mulher, Debra, em Houston, onde lecciona patr??stica na Universidade de S??o Tom??s e no Semin??rio de Santa Maria. O casal tem tr??s filhos adultos.

