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Atravessando o Tibre

 História da Religião
Atravessando o Tibre

O Vaticano publicou esta semana a Constitui????o Apost??lica que permite que as comunidades anglicanas entrem em plena união com a Igreja Católica, preservando elementos dos seus traços distintivos espirituais, e patrim??nio lit??rgico. Este facto surpreendeu muitas pessoas, mas ?? uma excelente notícia.

 

A esperança do reencontro entre anglicanos e católicos percorreu até aos nossos dias um longo caminho. Atrav??s do s??culo XIX o chamado Movimento de Oxford cresceu entre os anglicanos sendo que alguns "atravessaram o Tibre". O Cardeal John Henry Newman, que em breve ser?? beatificado pelo Papa, ?? o exemplo mais conhecido...

 

Mas em diversas reuni??es foram encontrados obst??culos a este caminho. Desde h?? muito que alguns anglicanos desejam a união com a Igreja de Roma, tendo-se visto obrigados a fazer a caminhada sozinhos. No entanto, ao faz??-lo, eles t??m ajudado a clarificar todo um desafio.

 

Em 1896, uma decisão do Papa Le??o XIII, declarava que as ordens anglicanas eram inv??lidas. Por outras palavras, aos olhos da Igreja Católica, os padres e bispos anglicanos não tinham o poder de verdadeiros sacerdotes e bispos, porque haviam perdido o elo de sucess??o aos Ap??stolos de Cristo. Para muitos anglicanos este facto causou uma profunda decep????o. Penso que foi o famoso escritor e tradutor Ronald Knox, que disse, ap??s haver-se tornado padre católico, que pelo menos ele tinha feito muitas comunh??es espirituais, enquanto celebrava a Eucaristia Anglicana.

 

Mas a decisão do Papa Le??o XIII esclareceu qu??o essencial a sucess??o apost??lica ??. Apenas por serem descendentes directos dos Doze Ap??stolos, os Sacerdotes católicos receberam o poder divino de consagrar o corpo e sangue de Cristo na Eucaristia, e perdoar os pecados na Confiss??o.

 

Houve depois o problema da contracep????o em 1920. Ap??s a Comunh??o Anglicana haver decidido mudar a sua opinião, na Confer??ncia de Lambeth, em 1930, o Papa Pio XI deixou claro que o controlo da natalidade era errado e que a Igreja Católica não tinha o poder de mudar essa posi????o. Este ensinamento foi reiterado por Paulo VI em 1968, contra a opinião de algumas pessoas que pensavam que a Igreja devia, pura e simplesmente, ceder ?? corrente dominante.

 

Algo semelhante aconteceu com a recusa por parte da Igreja Católica em ordenar mulheres. H?? agora algumas mulheres que receberam a ordena????o como padres e bispos na comunh??o Anglicana. O Papa João Paulo II recordou que nem ele nem a Igreja tinham o poder de mudar os ensinamentos de Cristo nesta mat??ria. A Igreja não ?? um feudo do Papa, mas também não ?? uma democracia.

 

Todos estes desenvolvimentos t??m levado alguns anglicanos a reflectir mais profundamente sobre a natureza da unidade dos cristãos e, especialmente, sobre a autoridade do Papa para a preserva????o dos ensinamentos aut??nticos de Jesus Cristo atrav??s dos s??culos. Eles passaram a acreditar que apenas seriam um todo, estando em comunh??o completa com o Bispo de Roma.

 

Assim, ap??s décadas de discuss??o, estudo e ora????o, Bento XVI encontrou uma solução. Essa solução foi a emissão de uma Constitui????o Apost??lica, que cria uma estrutura dentro da lei can??nica católica chamada "Ordinariato pessoal ", que permitir?? aos anglicanos entrar em plena comunh??o com a Igreja Católica. Este acordo ?? uma boa notícia, mas não significa que se venha a travar um caminho f??cil.

 

O Anglicanismo come??ou na Inglaterra (onde a Igreja Anglicana continua a ser a igreja oficial), mas espalhou-se por quase todo o mundo de l??ngua Inglesa, nomeadamente pela Am??rica do Norte, Austr??lia e ??frica de l??ngua Inglesa.

 

Os "Ordinariatos pessoais" são criados para os anglicanos que realmente querem entrar em plena comunh??o com Roma, mas ao mesmo tempo desejam preservar "os elementos distintivos do patrim??nio Anglicano, espirituais e liturgicos". Em alguns pa??ses, entre os quais a Inglaterra, tem havido consider??vel hesita????o sobre a cria????o de comunidades católicas nacionais, como as polacas ou as brasileiras. Os bispos t??m mostrado a sua preferência pela assist??ncia de todos ?? mesma liturgia, na mesma par??quia, aos domingos. Esta questão foi abordada de forma diferente nos Estados Unidos, o que significa que o estabelecimento de comunidades Episcopalianas (como l?? são chamados os anglicanos) tem vindo a apresentar menos dificuldades.

 

Depois h?? a questão das relações com os anglicanos que não desejam entrar em plena comunh??o com a Igreja Católica: como ?? que esta Constitui????o Apost??lica ir?? afect??-los?

 

Numa nota positiva, a experiência recente, com a entrada na Igreja Católica de muitos cl??rigos anglicanos, (alguns deles casados) que foram ordenados sacerdotes católicos, tornou-se um factor favorável. O seu fervor e dedica????o est?? a prestar um grande serviço ?? Igreja. Mas isso coloca a questão do papel dos cl??rigos casados na Igreja Católica. At?? agora, os acordos t??m sido considerados excepcionais, e de natureza transit??ria. O Prefeito da Congrega????o para a Doutrina da F??, cardeal William Levada, esclareceu que, embora um cl??rigo anglicano possa ser ordenado presb??tero, est?? fora de questão que possa haver bispos casados.

 

Toda esta espécie de complica????es tem sido um desafio para o Vaticano. "Temos estado a tentar satisfazer os pedidos de comunh??o plena que nos chegam de anglicanos em diferentes partes do mundo nos últimos anos, de uma maneira uniforme e equitativa", comentou o cardeal Levada. "Com esta proposta, a Igreja quer responder ??s aspira????es leg??timas desses grupos de Anglicanos no sentido da unidade plena e vis??vel com o Bispo de Roma, sucessor de S??o Pedro."

 

Esta Constitui????o Apost??lica, em nome da Igreja Anglicana, talvez deva também ser considerada no contexto dos estudos sobre o regresso dos membros da Sociedade de S??o Pio X - fundada pelo Arcebispo cism??tico franc??s Marcel Lefebvre - ?? plena comunh??o com a Igreja. Não poucas pessoas esperam que estes gestos de boas-vindas para os anglicanos sejam também estendidos aos membros desta Sociedade.

 

O caminho rumo ?? unidade cristã ?? emocionante e dif??cil. Como o Conc??lio Vaticano II ensinou, o cora????o do ecumenismo est?? em transformação: "A convers??o do cora????o, a santidade de vida e as ora????es, em privado e em público, pela unidade dos cristãos, deve ser consideradas a alma do movimento ecum??nico". Com a ora????o e a caridade, nada ?? impossível. Este ?? um momento de muita ora????o, caridade e união com as intenções do Santo Padre.

 

Andrew Byrne

 

Fonte: www.mercatornet.com

 

O Padre Andrew Byrne ?? sacerdote católico em Londres