O diálogo entre a Igreja e o governo de Cuba come??a a dar frutos
A nota oficial informava que tinham trocado impress??es sobre "diversos temas de interesse comum, em particular o prop??cio desenvolvimento das relações entre a Igreja católica e o Estado cubano, assim como a actual situação nacional e internacional". Y alguns pormenores foram publicados pela tarde, durante uma conferência de imprensa convocada no arcebispado de Havana: entre os temas abordados durante mais de quatro horas, esteve a situação do grupo de presos "que alguns chamam de consciência, outros chamam políticos, que oficialmente são chamados contra-revolucion??rios", segundo precisou o cardeal Ortega face ?? insist??ncia da rep??rter.
As autoridades cubanas asseguram que essas pessoas foram devidamente julgadas e condenadas face ??s leis vigentes, por serem "agentes pagos ao serviço dos Estados Unidos", para tentar destabilizar o sistema político-económico da Ilha.
Na conversa com o chefe de Estado cubano não se falou de prazos concretos para eventuais liberta????es, mas o purpurado confirmou que o assunto dos presos est?? a ser tratado com seriedade e que os contactos ir??o prosseguir. Como prova desta boa vontade, citou o delegado que lhes tinha assegurado: "Teremos que marcar novos encontros e seguir em frente". Os resultados das conversa????es foram aparecendo nos dias seguintes, tendo 12 desses reclusos sido transferidos para cadeias perto das suas resid??ncias, e outros libertados.
A favor dos presos
S??o sinais interessantes. A Igreja cubana, comprometida na procura do bem comum, não estabelece um alian??a com o governo - "a possibilidade de actuar na sociedade, de servir os homens e as mulheres que vivem no nosso pa??s, não depende de um pacto social expresso ou t??cito entre a Igreja e o Estado", assinalou o cardeal cubano -, mas faz um esfor??o profundo por diminuir as tens??es e assume o papel de interlocutora eficiente.
Precisamente por estes dias, representantes da hierarquia eclesial visitaram no centro da Ilha o dissidente Guilherme Fari??as, empenhado desde Fevereiro numa greve de fome exigindo a liberta????o de uma dezena de presos que, segundo diz, se encontram "gravemente doentes".
Inicialmente hostil ?? posi????o da Igreja sobre o modo de se ter evitado a morte - também por se abster de alimentos - do preso Orlando Zapat, ocorrida a 23 de Fevereiro, Fari??as modificou a sua posi????o: recebeu os pastores que o visitaram e lhe pediram para confiar nas dilig??ncias da Igreja. Com a aproxima????o de presos e a liberta????o ocorrida, o grevista chegou a declarar que "se eles (a Igreja) dizem que h?? que ter paci??ncia, pois tenhamos paci??ncia".
Sem excluir outros interlocutores
Outros, pelo contr??rio, preferem fazer finca-p?? no "diálogo não h?? solução", como Oswaldo Pay??, l??der do Movimento Crist??o de Liberta????o e leigo católico. Num comunicado emitido a 17 de Junho, diz: "Não ?? justo para com o povo de Cuba, nem para com Igreja fiel e sofredora, que alguns pastores aceitem o papel de ??nicos interlocutores do governo, aceitando e levando ?? pr??tica a condi????o de exclus??o que ele imp??e". "A dissid??ncia - acrescentou - ?? muito mais que um assunto que pode ser tratado entre o governo e outros representantes, sem nos escutar nem respeitar".
Ser?? conveniente notar que Pay?? est?? em liberdade, e que a sua percepção da oportunidade não ser?? naturalmente igual ?? de quem est?? cumprir pena ou doente, internado num hospital prisional, que preferir?? logicamente passar a sua convalescen??a em casa ou num centro de sa??de próximo.
Fora de discuss??o fica a ideia de que a Igreja se tenha "arrogado" qualquer "exclusividade dialogal". O seu objectivo expresso tem sido conseguir algum al??vio ou o fim do isolamento destas pessoas, e em nenhuma das suas mensagens se descobre o t??o estranho propósito de segregar outros eventuais participantes.
"Creio que em nenhum momento os bispos de Cuba, nem entre nenhum dos bispos em particular, tenhamos esse sentido de exclus??o, como se fossemos os ??nicos que estamos nestes momentos na disposição de entabular este tipo de conversa????o", afirmou, citado por ag??ncias de informação, Emilio Aranguren, bispo da prov??ncia oriental de Holgu??n e presidente da Sec????o Justi??a e Paz, da Confer??ncia de Bispos Católicos.
A media????o não ?? nova
Por outro lado, se a etapa actual de diálogo Igreja- Estado ?? recebida como novidade (pela variedade dos temas), não o ?? tanto a intercess??o a favor dos presos. Como recordou o Cardeal Ortega, j?? nos anos 80 saiu da cadeia um bom número deles, gra??as ?? media????o da Confer??ncia de Bispos Católicos dos Estados Unidos, e partiram com as suas famílias para aquele pais, com passagens pagas pela Igreja. Mais recentemente, em 1998, outros foram libertados e emigraram, gra??as ao pedido do Papa João Paulo II durante a sua visita ?? Ilha. Fizeram-se inclusivamente dilig??ncias, até agora sem fruto, a favor de cinco cubanos que desde 1998 se encontram presos nos Estados Unidos, por terem infiltrado grupos violentos na Florida.
A Igreja cubana, ?? qual o governo do presidente Ra??l Castro - e isto ?? de sublinhar - pediu pela primeira vez media????o para apresentar uma oferta ??s Damas de Branco (esposas dos presos processados em Mar??o de 1998, que aos Domingos costumam desfilar em grupo por uma vistos avenida da capital), est?? consciente do papel que lha cabe neste momento, e aposta no diálogo. De facto foi esse um dos t??picos dominantes na X Semana Social Católica recentemente conclu??da, na qual acad??micos residentes no pais e outros emigrados, assim como leigos da várias dioceses cubanas, acordaram em que demograficamente, os grupo pr??-diálogo na margem norte do estreito da Florida v??o ganhando terreno. Cedem as raivas antigas.
Dar tempo ao diálogo
Por isso a Igreja pede - também aos meios de informação - que se d?? tempo ao diálogo, que pode concluir-se nuns aspectos e que em outros se mant??m em aberto. Uma disposição apoiada pela Santa S??, cujo secret??rio para as Rela????es com os Estados, monsenhor Dominique Mamberti, visitou a Ilha de 16 a 20 de Junho e recebeu um caloroso acolhimento por parte do governo. Interrogado sobre conversa????es entre as autoridades e a Igreja local, o chanceler Bruno Rodr??guez, elogiou o "papel construtivo" desta, e disse ver reunidas "todas as condições para que (...) continuem estes interc??mbios frutuosos".
Monsenhor Mamberti urgiu os prelados cubanos a manterem neste cen??rio uma atitude de escuta e respeito. Para eles "se o processo ?? vital, não p??ra", conforme afirmou monsenhor Juan de Dios Hern??ndez, bispo auxiliar de Havana. ?? justamente o que desejam os fi??is católicos, e muitos outros cubanos de boa vontade.
