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Assim errou Zaratustra

 Liberdade Religiosa
A teoria da seculariza????o est?? precisada de uns retoques

Contrariamente, uma an??lise recente de The Economist demonstra a dificuldade de adaptar os velhos esquemas ??s novas realidades.

 

De acordo com a teoria mais divulgada, a seculariza????o ?? uma consequência inevit??vel da modernidade. Desde as origens, a humanidade tem recorrido a Deus por ignorar as causas naturais de fenómenos. Tamb??m t??m pedido a intercess??o de Deus para as inseguranças e mis??rias da vida. ?? medida que a ci??ncia vai colmatando as lacunas do nosso conhecimento, a técnica aumenta o bem-estar e vence as doenças: a religi??o regride.

 

Tr??s formas de seculariza????o

 

Em A Secular Age, Charles Taylor prova que a seculariza????o ?? um fenómeno complexo, que não corresponde a essa descri????o t??o linear.

 

Taylor define tr??s sentidos para o termo seculariza????o. O primeiro significa que a f?? desaparece do espa??o público sendo, o fundamento da conviv??ncia política, secular.

 

O segundo ?? o retrocesso da f?? e das pr??ticas religiosas entre as pessoas. Taylor acrescenta algo mais, ainda: a seculariza????o, entendida como ??a situação de uma sociedade em que a f?? em Deus não ?? contrariada nem levanta problemas; o outro, em que se reconhece como uma op????o entre outras que, frequentemente, não ?? a de mais f??cil de op????o. (3)

 

Os tr??s sentidos estão estreitamente relacionados ??? sobretudo o segundo e o terceiro ???, mas não são iguais. Nos Estados Unidos, por exemplo, salienta Taylor, uma das primeiras sociedades que estabeleceu a separa????o entre a Igreja e o Estado (primeiro sentido da seculariza????o), apresenta um ??ndice relativamente elevado da f?? e pr??ticas religiosas (est?? pouco secularizado no segundo sentido). Contudo, essa não ?? a postura ??natural??, mas apenas uma possibilidade, desvalorizada em bastantes sectores (terceiro sentido).

 

Religi??o como viv??ncia

 

Taylor dedica a sua an??lise ?? seculariza????o, no terceiro sentido, porque deste modo, ao centrar a aten????o nas condições da f?? enquanto viv??ncia, esclarece certos aspectos menos estudados quando se discute este assunto no campo da doutrina. Tal como explica na introdução, não o convencem as teorias que definem a seculariza????o como uma substitui????o da f?? por outras ideias.

 

Não v?? nem que Darwin, por exemplo, contradiga a religi??o, nem que a divulga????o de doutrinas modernas semelhantes explique, por si s??, o retrocesso da religi??o. Não considera verdadeiras ??essas histórias da modernidade em geral e da secularidade ou laicicidade em particular, que são explicadas como uma perda ou abandono, ou liberaliza????o, por parte dos seres humanos, de horizontes redutivos anteriores, ou ilus??es, ou limita????es do conhecimento. (p.22)

 

Contra tais teorias, Taylor defende que ??a modernidade ocidental, incluindo a sua secularidade, ?? fruto de novas inven????es, de mentalidades e pr??ticas de cria????o recente, que não se pode explicar como se obedecessem a factos perenes da vida humana?? (ibid). Chama a aten????o para o facto de que a seculariza????o estuda bem como as teses que prop??e, se referem, apenas, ??s sociedades ocidentais, embora possam, também, ser tomadas em conta noutras partes do mundo.

 

Crente em permanente busca

 

Uma longa passagem pela modernidade leva Taylor a examinar a experiência religiosa actualmente. Pois nem todo o efeito da modernidade na religi??o teve como objectivo diminui-la: também a modificou. Contudo, a influência foi recíproca, primeiro porque a modernidade ocidental ??? defende Taylor ??? tem, no cristianismo, uma das suas fontes. Deste modo, uma das raz??es por que ??? contra os press??gios de alguns ??? a religi??o ??sobrevive?? na modernidade ?? que, em alguns pontos, coincide com o tecido moderno. Outra das raz??es ?? que representa uma sa??da em oposi????o a certas tendências da modernidade que, muitos acham negativas, por exemplo, a proemin??ncia unilateral da racionalidade técnico-cient??fica.

 

O crente tipicamente moderno considera-se um crente em permanente busca. ?? herdeiro da revolução expressivista (perspectiva da primeira pessoa): por isso, ela espera encontrar o seu próprio caminho pessoal e valoriza mais a viv??ncia do que o ensinamento. ??Quer uma experiência mais directa do sagrado, mais proximidade, espontaneidade e profundidade espiritual?? segundo palavras de Wade Clark Roof (Spiritual Marketplace. 1999) que cita Taylor. A isto costuma acrescentar uma alegria ao institucional.

 

Presentemente, muitos chegam a fazer a distin????o entre espiritualidade e religi??o, conforme os coment??rios de um norte-americano tirados do próprio livro de Roof, citado anteriormente: A Religi??o ?? ??? doutrina e tradi????o, flectir o joelho??? a religi??o diz-nos o que temos de fazer e quando: quando se deve ajoelhar, quando se deve levantar, isso tudo, um sem número de regras??. Em contrapartida, a espiritualidade ?? um sentimento interior, que se pode viver conforme se sente neste mundo, e nossa mente????? o que entra em n??s e nos eleva e nos leva a ser melhores, pessoas mais abertas??. Taylor, por seu lado, cita um jovem que visitou Taiz??: ??Em Taiz?? não te d??o a resposta antes de formular a pergunta; sobretudo, pertence a cada um encontrar a sua resposta??.

 

A Igreja, final do trajecto

 

Conforme adverte Taylor, esta religiosidade comporta o perigo da superficialidade, dese tornar subjectivista, banal, narcisista. Contudo, nem tudo ??, necessariamente, assim. Tamb??m não se aplica ?? experiência religiosa contempor??nea, pois a religi??o ??institucional?? continua viva e proporciona uma experiência comunit??ria alegre que, também, ?? uma caracter??stica muito própria da modernidade (fora do ??mbito religioso, v??-se isso nos concertos de rock) e pode ser o fim da busca pessoal do expressivista contempor??neo.

 

De facto, a seculariza????o, (no terceiro sentido), faz com que a cren??a religiosa não seja fruto da tradi????o ou da in??rcia, mas uma op????o expressamente escolhida, coisa muito moderna. De maneira que aquele que busca pode reencontrar a sua originalidade nas ??diversas formas de pr??tica espiritual pela qual cada um sinta mais atrac????o??, afirma Taylor ??medita????o ou qualquer iniciativa ligada ?? caridade, ou a um grupo de estudo ou uma peregrina????o, ou qualquer forma especial de ora????o, ou uma combina????o de coisas semelhantes?? (515).

 

??Efectivamente, sempre existiu uma grande variedade de formas desse g??nero ??? acrescenta ???, como extras optativos, para quem j?? faz parte da pr??tica eclesial normal. Contudo, actualmente, acontece o contr??rio com muita frequ??ncia. Inicialmente, a pessoa sente-se atra??da por uma peregrina????o, por uma Jornada Mundial da Juventude, por um grupo de medita????o, ou por um local de ora????o e, depois, se continua na direcção apropriada, encontra-se j?? fica inserido na pr??tica normal?? (pp.515-516).

 

Como se v??, a relação entre a modernidade e a religi??o não ?? simples nem un??voca. Trouxe uma forte seculariza????o, que Taylor estuda na parte central e mais extensa do seu livro. Todavia, constata-se que, apesar de tudo, a f??, mesmo ferida, resiste e no ??terreno?? que perde frequentemente ressurge logo de outra maneira, com formas inesperadas ou outras que parecem reedi????es de cren??as antiqu??ssimas.

 

E, contudo, ainda est?? para ver se a seculariza????o caracter??stica do Ocidente, que constitui uma parte, cada vez menor, da humanidade, poder?? ter a mesma for??a nocen??rio do futuro.

 

(1) Charles Taylor. A Secular Age. Harvard University Press. Cambridge (Massachusetts) e Londres (2007) 874 p??gs.