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Diego Contreras lan??a livro

A Igreja católica como objecto de informação

 Liberdade Religiosa

Pode dizer-se que a pr??tica jornal??stica mostra ??s vezes um d??fice para reproduzir, num texto breve, simples e atractivo, uma realidade complexa; e até as realidades mais sim-ples são expostas com uma forma caracter??stica. ?? vista destas limita????es, entende-se que alguns sustentem que os critérios jornal??sticos habituais não são os mais id??neos para focar assuntos de natureza religiosa.

 

Argumenta-se, por exemplo, que s?? com a bagagem dos valores noticiosos ?? dif??cil preencher adequadamente um tema delicado, onde os matizes são muito importantes. A religi??o não ?? o ??nico campo que tolera mal essas limita????es. Ocorre algo parecido com o mundo das ideias ou com a actividade cient??fica em geral.

 

O jornalista que segue a actividade da Igreja deve conhecer as suas caracter??sti-cas; pelo menos, como a Igreja se considera a si mesma nos documentos autorizados. Essa refer??ncia permite-lhe confrontar-se com dados objectivos e não com uma no????o gen??rica de Igreja, que poderia estar marcada pela sua vis??o pessoal (a ideia de Igreja de quem escreve).

 

Um ponto de partida necessário para compreender a Igreja ?? contempl??-la como uma realidade ???constitu??da por um elemento humano e outro divino???, ao mesmo tempo vis??vel e espiritual (Conc??lio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 8). S??o duas facetas que se integram: uma não existe nem se entende sem a outra. Neste sentido, pode ser ??til recor-rer ?? met??fora do icebergue: a imprensa d?? conta do que se v??, mas para captar a nature-za da Igreja h?? que ter presente também o que não se v??, pois essa dimens??o ajuda a explicar a sua lógica de actua????o.

 

Peculiaridades da Igreja

?? preciso compreender essa lógica de fundo, pois não coincide com a lógica de uma empresa nem com a de um partido político, nem sequer com a de outras realidades religiosas, ainda que tenham elementos comuns. O problema apresenta-se quando al-guns desses traços caracter??sticos da Igreja Católica chocam com os critérios usuais de uma sociedade, como a ocidental, baseada sobre o governo da opinião pública. Enumeram-se a seguir algumas peculiaridades da Igreja que podem resultar pro-blem??ticas em relação com a actividade jornal??stica:

 

1. A Igreja conta com um dep??sito de doutrina, que inclui uma vis??o sobre o homem como criatura de Deus. ?? um dep??sito que não pode modificar arbitrariamente, mas s?? explicitar melhor: exp??-lo do modo mais claro possível, segundo aconselhem as cir-cunst??ncias hist??ricas. Esse corpo doutrinal procede da Sagrada Escritura e da Tradi????o apost??lica, interpretadas pelo Magist??rio da Igreja.

 

A exist??ncia de verdades imut??veis parece chocar com o carácter fr??gil e hist??rico da maioria das verdades humanas (as ci??ncias, por exemplo, fazem progressos, actualizam-se, etc.). Nos casos mais extremos, quando se assume uma vis??o relativista, o que se p??e em discuss??o ?? a própria exist??n-cia de verdades; ou, pelo menos, custa aceitar a superioridade de umas verdades sobre outras, pois pareceria contr??rio ao princ??pio da igualdade.

 

2. Os ensinamentos da Igreja em mat??rias de f?? e moral s??o, ??s vezes, complexos e muito matizados. é preciso exp??-los com o vocabul??rio adequado, que ?? ???técnico??? com frequ??ncia, o que implica ??? para a sua adequada compreens??o ??? uma bagagem de co-nhecimentos prévios de que boa parte da sociedade actual carece. Essa complexidade ?? um escolho, pois os textos jornal??sticos privilegiam as histórias breves, simples, com impacto, etc., nas quais ?? trabalhoso reflectir esses matizes.

 

Não democracia, mas comunh??o

3. A Igreja não segue na sua organiza????o o modelo democrático, mas o da comu-nh??o: quer dizer, o da unidade, que não ?? sin??nimo de ???consenso político???. Elemento essencial da unidade ?? o Bispo da Roma, sucessor de S. Pedro, a quem Cristo elegeu como cabe??a dos ap??stolos (cujos sucessores são os bispos).

 

A imprensa numa socieda-de democrática tende - possivelmente sem ser consciente disso ??? a impor critérios de-mocr??ticos em todas as organiza????es. Custa-lhe entender uma sociedade hier??rquica como a Igreja, cujos l??deres não são eleitos pelo povo. V?? como censura o que significa manter o controlo dos ensinamentos. Em consequência, costuma tratar os dissidentes (por exemplo, os te??logos que contradizem o Magist??rio da Igreja) como paladinos da liberdade; não compreende o ingrediente da infidelidade a um dep??sito, do qual não se ?? propriet??rio, que com frequ??ncia esses comportamentos cont??m.

 

4. Ao mesmo tempo, e contra a percepção que ??s vezes possa existir, a Igreja tem uma organiza????o muito aut??noma e descentralizada, pois os bispos em união com o Papa são pastores na sua própria jurisdi????o e não simples ???directores de sucursais???. O Papa interv??m para garantir a comunh??o e o dep??sito da f??, mas não o faz ao modo ???efi-ciente??? do presidente de uma empresa. Essa estrutura peculiar pode provocar por vezes a sensa????o de escassa efic??cia, pouca rapidez ou inclusivamente falta de coordena????o.

 

5. Um aspecto particularmente confuso para a opinião pública ?? a questão da infali-bilidade do Papa, pois ??s vezes identifica-se com uma patente de livre arbitrariedade que contrastaria com a independ??ncia de ju??zo do homem contempor??neo. O Papa ?? infal??vel quando declara ???ex cathedra??? que uma afirma????o que diz respeito ?? f?? ou ?? moral per-tence ao dep??sito da Revela????o. Infal??vel não significa que ???sabe tudo???, mas que conta com a assist??ncia do Esp??rito Santo quando define essa verdade. T??m a mesma proprie-dade os conc??lios ecum??nicos, em união com o Papa, e os ensinamentos do magist??rio ordin??rio e universal (quer dizer, quando ainda sem haver um acto solene, todos os bis-pos coincidem em que alguma verdade deve considerar-se como definitiva). (???) Com frequ??ncia, o que na realidade se questiona não ?? tanto a infalibilidade, mas antes a pri-mazia do Papa.

 

O essencial e o opinível

6. Na doutrina da Igreja (???) h?? um amplo campo de questões em aberto, nas quais ?? leg??tima a diversidade de opini??es. Uma das miss??es do magist??rio da Igreja ?? precisa-mente fixar essas fronteiras: distinguir o que ?? essencial na doutrina de Cristo, o que deriva dessa doutrina e os campos da livre discuss??o. (???) Existe o risco de nivelar to-das as interven????es, de modo que se pode acabar por dar o mesmo peso, por exemplo, a um artigo publicado num seman??rio católico ou a uma enc??clica do Papa. Ambos se apresentam como ???o que diz a Igreja???.

 

7. Embora alguns ensinamentos da doutrina da Igreja não admitam excepções (por exemplo, a recusa do aborto), noutros casos trata-se de princ??pios gerais que toca ??s pessoas concretas aplicar, uma vez avaliadas as circunst??ncias, pois podem levar ?? pr??-tica de modos diversos. A?? incluem-se os princ??pios de moral social (doutrina social da Igreja), os quais não oferecem modos de aplica????o un??vocos.

 

8. A imprensa est?? acostumada a cobrir a actua????o dos políticos, cuja arte b??sica ?? a manobra (sem dar a esta express??o necessariamente um conteúdo negativo) e dependem da popularidade, pois o seu raio de ac????o ?? no curto prazo: são caracter??sticas que não se podem transferir para a Igreja tal e qual.

 

9. Os vinte s??culos de história da Igreja oferecem um exemplo eloquente de que a sua doutrina, muitas vezes ???impopular???, não foi inventada pelos homens, pois de contr??-rio ter-se-ia adaptado ??s correntes e ??s press??es do momento. Tamb??m mostra que, ape-sar das circunst??ncias hist??ricas adversas e dos erros dos próprios homens, a Igreja se continua a difundir por todo o mundo, ?? margem de culturas, ra??as, etc., dando lugar a exemplos de santidade e de dedica????o ao próximo reconhecidos unanimemente. Contudo, por vezes, a aten????o jornal??stica concentra-se em epis??dios hist??ricos que exigem uma explica????o complexa, como o ???caso Galileu???, a Inquisi????o, as Cruzadas e, ultima-mente, o Holocausto dos judeus. Acabam assim por se formar estere??tipos nos quais se identificam as actua????es ??? reais ou supostas ??? das pessoas com os ditames da f??; e reduz-se uma história duas vezes milenar a meia d??zia de clich??s.

 

(???) Sublinhar a diversidade intr??nseca do cristianismo não quer dizer que se defen-da um tratamento jornal??stico privilegiado. O que parece necessário ?? ser conscientes dessas caracter??sticas ??? dessa lógica ??? para entender o comportamento das pessoas e para evidenciar a realidade da Igreja com critérios que seriam mais adequados para ou-tro tipo de instituições. Para consegui-lo, não se requer f??, mas um profissionalismo baseado na honradez, porque também aqui h?? que dar a cada um o que lhe pertence, que neste caso se traduz em tratar cada realidade de acordo com o que ela ??.

 

(1) Diego Contreras. La Iglesia católica en la prensa. EUNSA. Pamplona (2004). 379 pags. 22 ???.