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A comunicação da Igreja em climas polémicos

Transformar as controvérsias em oportunidades

 Liberdade Religiosa
Transformar as controvérsias em oportunidades

A lógica de comunicação pública tende a amplificar os epis??dios de controvérsia, porque o conflito atrai e capta a aten????o do ser humano. As crises e as controvérsias t??m analogias: ambas situações cont??m uma negatividade comum e ambas são públicas porque se exprimem atrav??s dos meios de comunicação. Al??m disso, atingem um grande número de pessoas não especializadas no tema discutido.

 

Crises e controvérsias

 

No entanto, crises e controvérsias são fenómenos diferentes, que exigem modos espec??ficos de gest??o. As crises prov??m de factos imprevis??veis e com entidade, que podem acarretar a perda de controlo: catástrofes naturais, acidentes, casos de corrupção, bancarrota. Pelo contr??rio nas controvérsias h?? discrep??ncia de ideias, valores e propostas. Discute-se o que ?? bom e o que ?? mau. Nas controvérsias entram em conflito questões de princ??pio, diferentes vis??es do mundo.

 

As controvérsias medi??ticas t??m tr??s consequências que impedem uma verdadeira comunicação: produzem confus??o de conteúdos, tendem a deformar a mensagem; geram tens??o nas relações e provocam uma rejei????o sistem??tica das propostas do interlocutor.

 

Junto aos efeitos negativos, as controvérsias em comunicação apresentam uma vantagem fundamental: re??nem muitas pessoas em torno dos sujeitos que debatem; aumentam exponencialmente o interesse informativo; atraem os microfones e as c??maras de televis??o. Abrem-se espa??os informativos gigantescos a quem se encontra numa controvérsia. Concede-se uma relev??ncia pública que permite comunicar mensagens que podem chegar muito longe.

 

O porta-voz do arcebispo de Westminster comentava este facto h?? justamente dois anos. No per??odo das eleições brit??nicas uma revista feminina interpela os diferentes candidatos sobre a sua posi????o face ao aborto. O candidato conservador, Michael Howard, solicita uma redu????o do limite legal. O cardeal arcebispo de Londres, interpelado pelo Times, mostra simpatia pela proposta de Howard. O cardeal aborda separadamente outras questões e recorda o facto hist??rico de em ??pocas passadas os católicos ingleses terem votado em massa a favor do trabalhismo. No dia seguinte o di??rio intitula na capa: ???O cardeal pede aos católicos que rejeitem os trabalhistas pela posi????o face ao aborto???. Este erro inicial converteu-se numa ocasi??o sem precedentes para comunicar adequadamente um aspecto que tinha sido marginal nas eleições inglesas.

 

Na mesma linha podia apontar-se o efeito inesperado do discurso de Ratisbona: a lectio do Papa converteu-se, gra??as ?? rede, num dos textos mais lidos de Bento XVI. Algo semelhante sucedeu com o discurso (n??o pronunciado) do Papa ?? Universidade de La Sapienza. O texto, que teria passado mais ou menos despercebido em circunst??ncias normais foi publicado na ??ntegra por vários di??rios italianos e por numerosos meios de comunicação do mundo. Esses dois discursos adquiriram una relev??ncia inconceb??vel e geraram ades??es de intelectuais de diversa proced??ncia ideológica.


Est??mulo para a argumenta????o

 

Poder-se-ia dizer que na tarefa do comunicador institucional a crise ?? algo extraordin??rio, enquanto que a controvérsia e o conflito ??? pelo menos um certo grau de conflito ??? fazem parte da normalidade. Ter uma parte do público contra ?? algo de natural. Nalguns casos, porque as pessoas e as instituições cometem erros ou não são capazes de transmitir com clareza as raz??es da sua actua????o (s??o as controvérsias ???evit??veis???). Na maior parte dos casos, independentemente dos erros, a causa da disc??rdia ?? a própria disparidade do ser humano: não existe alimento apto para todos os paladares; até os gelados mais requintados são prejudiciais para quem sofre de intoler??ncia ?? lactose (controvérsias ???inevit??veis???).

 

O que ?? que acontece no caso da Igreja? Nos processos de comunicação h?? dois elementos insepar??veis: por um lado, a identidade e os valores da institui????o; por outro, o seu modo de comunicar. A natureza e os valores de cada institui????o imp??em, por assim dizer, um modo concreto de se comunicar, de se relacionar com o mundo e por conseguinte também com os jornalistas.

 

Neste sentido conv??m mencionar dois aspectos caracter??sticos da Igreja católica como sujeito comunicativo que, do meu ponto de vista, afectam directamente as controvérsias: a Igreja como portadora da religi??o do logos; e a Igreja como sinal de contradi????o (u.mna institui????o que tem a peculiaridade de jogar o seu ser e o seu ?????xito??? na fidelidade a Cristo).Como o segundo ?? evidente, ressalto um pouco mais o primeiro destes dois aspectos. A f?? cristã compreendeu-se a si mesma como ???religi??o do logos???, a religi??o ???segundo a raz??o???. Esta confian??a na raz??o faz que o cristão se encontre ?? vontade na controvérsia, na discuss??o de ideias, nos debates públicos. Que não tenha receio de discordar, debater e argumentar.

 

Ao mesmo tempo, esta conaturalidade entre cristianismo e raz??o faz que se possa e deva desenvolver uma reflex??o ética que seja compreens??vel e sensata inclusive para quem não conhece ou não aceita plenamente a verdade revelada. Analisar serenamente os argumentos opostos ajuda a questionar-se, estimula a amadurecer as próprias ideias, a pensar com profundidade: ?? um modo de raciocinar utilizado frequentemente por Bento XVI. Quando se omite este passo, ?? possível que a resposta dada não corresponda ao problema levantado.

 

Raz??es para entrar no debate

 

Descendo a um plano mais pr??tico, a primeira decisão operativa e estratégica que incumbe aos responsáveis de comunicação da institui????o que a diferentes níveis possa estar vinculada ?? Igreja, refere-se ?? própria congru??ncia do debate: conv??m desempenhar um papel activo ou ?? prefer??vel abster-se numa controvérsia espec??fica? O gabinete de comunicação deve determinar em cada caso os debates que são da sua competência. Na minha opinião, podem distinguir-se tr??s situações possíveis:

 

??? A questão oferece poucas dúvidas quando o objecto da controvérsia ?? a própria Igreja ou a sua doutrina. A Igreja ?? fonte directa e voz interpelada.

 

??? A questão ?? mais delicada, e eu diria que mais atraente, quando se trata de mat??rias de interesse público e com implica????es ??ticas e antropológicas. Sobre estes casos, o magist??rio recente oferece perspectivas luminosas quando fala de certas exigências de carácter ??tico radicadas na pessoa humana que ???pela sua própria natureza e pelo seu papel de fundamento da vida social não são negoci??veis???.

 

??? Pelo contr??rio, poderia ser contraproducente que o gabinete de comunicação da Igreja se imiscu??sse noutros debates públicos sobre os quais existe uma leg??tima pluralidade de op????es, em controvérsias sobre as quais não existe ???uma??? solução católica. Isto ??, quando se discute sobre valores ???negoci??veis???.

 

Deixar-se envolver neste tipo de conflitos levaria ao que poder??amos chamar ???controvérsias sup??rfluas??? que frequentemente t??m um fundo político. Nestes casos a Igreja carregaria com o fardo negativo da controvérsia, sem conseguir em contrapartida nenhum benef??cio para a sua missão apost??lica. A participa????o nas ???controvérsias sup??rfluas???, poderia produzir, ao contr??rio, divis??o entre os que escutam com aten????o a voz ética da Igreja.

 

Os benef??cios da polémica

 

As considera????es precedentes mostram que as controvérsias medi??ticas não s?? são normais, mas até de certo modo são necessariamente inevit??veis para a Igreja. Por consequência, o papel dos responsáveis de comunicação não consiste em evitar a todo custo as controvérsias, mas em geri-las adequadamente: limitar os efeitos negativos e explorar as possibilidades informativas que oferecem.

 

Neste sentido, podemos sublinhar quatro princ??pios ou parâmetros que ajudam a posicionar-se adequadamente perante uma controvérsia. Cada um deles trata de neutralizar uma das consequências negativas das controvérsias: a confus??o que geram, a rejei????o que provocam e a tens??o que introduzem nas relações.

 

Um primeiro parâmetro ?? a clareza nas palavras e nos argumentos escolhidos. A clareza nos conteúdos e nas intenções impede que se fique preso na confus??o da controvérsia. A clareza ?? essencial para que a mensagem da Igreja não fique reduzida a questões de carácter político ou institucional.

 

O segundo ?? a focagem positiva. A controvérsia propaga discord??ncia em relação ??s próprias propostas e sentimentos de negativismo para quem as prop??e. Por isso é preciso p??r em andamento um c??mulo de ac????es afirmativas. No entanto, ser afirmativo não ?? simples. Em contextos controversos ?? f??cil responder com declara????es ou comunicados que dedicam mais espa??o a refutar acusa????es que a expor o ponto de vista próprio.

 

Mas a ac????o positiva não se limita a uma questão lingu??stica. Consiste, sobretudo, na capacidade de p??r a funcionar uma estratégia de comunicação, um conjunto de ac????es informativas e culturais que decorrem num tempo espec??fico e que têm em vista a consecu????o de resultados. Este ?? o melhor modo de superar os sentimentos de negativismo e de rejei????o do advers??rio provocados pelas controvérsias. Com este modo de actuar ajuda-se a dar a conhecer ao público da controvérsia a Igreja como realmente ?? e não como alguns imaginam que ??.

 

A terceira caracter??stica ?? a amabilidade e a correc????o no estilo. Um estudo emp??rico sobre as controvérsias realizado entre 62 grupos de debate revela que una atitude hostil numa discuss??o reduz a possibilidade de consenso por parte de um audit??rio neutro. Quando uma pessoa se encontra imersa numa controvérsia e tem na sua frente microfones e c??maras televisivas a questão dos modos passa a ser priorit??ria.

 

Reac????es ponderadas

 

A controvérsia não ?? problema se a reac????o for adequada. E inversamente: a controvérsia transforma-se em problema quando a reac????o ?? desproporcionada. O problema passa a ser a reac????o, enquanto que a controvérsia de fundo, o tema que se discute, fica em segundo plano. As reac????es ponderadas são cruciais, independentemente da gravidade do ataque. Como se deduz deste e doutros estudos semelhantes, o público p??e-se do lado da vítima, sempre que esta não actue por sua vez como verdugo.

 

O último parâmetro que desejava mencionar ?? a ??ptica local. Na altura de enfrentar uma controvérsia ?? fundamental trabalhar e tomar iniciativas no próprio ??mbito de influência, sem se perder em objectivos inalcan????veis. ??s vezes, parece impossível mudar o sentido de uma polémica que se agita nos pal??cios ou nos grandes meios. No entanto, ?? possível e eficaz actuar na opinião pública local: conhecem-se pessoas, ?? um ambiente com um contexto menos ideológico. Trabalhar com ??ptica local ?? o modo de tomar uma iniciativa e de evitar a tenta????o da passividade, que ?? sin??nimo de incomunicação.