Igreja e Islão: que diálogo?
O objectivo do diálogo não pode ser, portanto, o de passar por cima ou de anular diferenças. Talvez por isso se possa afirmar que o diálogo da Igreja com o Islão não deve, basicamente, ser sustentado no campo teológico, mas sim em ??mbitos como o cultural ou o do direito natural.
A diplomacia do Vaticano, os grupos de estudo e, principalmente, o magist??rio de Bento XVI v??o no sentido de articular as relações com o Islão sobre a ideia da liberdade religiosa. Isto ??, sobre a Declara????o conciliar Dignitatis humanae. Partindo do documento-chave sobre as relações com os monote??smos não cristãos, a Declara????o Nostra aetate afirma-se que "a Igreja olha também com estima para os muçulmanos" e que, " se ?? verdade que, no decurso dos s??culos surgiram, entre cristãos e muçulmanos, não poucas disc??rdias e ??dios, este sagrado Conc??lio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreens??o mútua e juntos defendam e promovam a justi??a social, os bens morais e a paz e a liberdade para todos os homens".
Respeitar as diferenças
Um erro, acentuado pelos relativistas ?? pensar que o diálogo interreligioso procura anular ou minimizar as diferenças entre as religi??es. Esta ?? uma consequência da sua ideia de toler??ncia. Para eles o respeito s?? pode existir quando se assume um m??nimo denominador comum mesmo ?? custa da ren??ncia ?? verdade por parte do crente.
O diálogo da Igreja com o Islão não pode cair nesse engano e a Igreja manifesta-o claramente quando o Papa Bento XVI afirma que o diálogo deve fundamentar-se "num conhecimento recíproco cada vez mais verdadeiro, que, com satisfa????o, reconhece os valores religiosos que temos em comum, e, com lealdade respeita as diferenças".(2)
O diálogo não deve esquecer as diferenças existentes, mas deve, pelo contr??rio, surgir a partir de convic????es firmes. De outro modo renunciar-se-ia ?? própria identidade com claro preju??zo para os interlocutores.
Neste " sentido v??o as afirma????es da te??loga católica Ilaria Morali, que participou em encontros com representantes muçulmanos: "Muitos católicos perderam o sentido exacto que o Magist??rio atribui ao diálogo e reduziram o seu valor, pensando e fazendo também os muçulmanos pensar que este deveria manifestar-se principalmente em gestos de amizade e solidariedade, evitando uma confronta????o serena, mas dif??cil, inclusive sobre pontos dolorosos (...). As minhas comunica????es são apreciadas porque falo, com total franqueza, da minha f??, sem esperar que os meus interlocutores estejam de acordo comigo". (3)
Tamb??m no mesmo sentido foram as palavras do cardeal Murphy O'Connor, que afirmou: "Os católicos, para serem bons interlocutores, devem primeiro compreender e amar o catolicismo. Isto serve também, penso eu, para os muçulmanos"(4).
Esta confronta????o sincera com o outro ?? testemunhada pela própria actua????o de Bento XVI, que não receou aludir ao assunto melindroso da violência com a desculpa religiosa, no seu discurso de Regensburg (12-9-2006). O discurso foi mal recebido no mundo islâmico devido ??s suas refer??ncias hist??ricas. No entanto, o diálogo abriu caminho atrav??s das dificuldades surgidas e a viagem posterior ?? Turquia, em Novembro de 2006 foi coroada de ??xito. Assim, Bento XVI p??de afirmar no dia da partida: "Creio que, para o Pastor supremo da Igreja Católica, o diálogo ?? um dever. Dou gra??as ao Senhor por ter podido dar um sinal deste diálogo, de maior compreens??o entre as religi??es e as culturas, em particular com o Islão" (1-12-2006).
Assegurar a liberdade religiosa
O Papa j?? tinha deixado bem claro, no encontro com os representantes de algumas comunidades muçulmanas, em Col??nia (20-8-2005) que o diálogo com os muçulmanos procura conseguir a reconcilia????o e o respeito pela identidade do outro. Estes objectivos podem resumir-se a um conceito chave: liberdade religiosa. Como afirmou no mesmo discurso, "a defesa da liberdade religiosa ?? um imperativo constante e o respeito pelas minorias ?? um sinal indiscut??vel da verdadeira civilização".
Não se pode falar com mais clareza, e a quem isso compete, pois essa liberdade religiosa ?? a que não t??m os cristãos em grande parte do mundo islâmico. Bento XVI não se coibiu de exprimir esta convic????o, nem sequer perante o embaixador da Turquia junto da Santa S?? (19-01-2007).
Este direito que ?? aceite integralmente pela Igreja, segundo a Declara????o Dignitatis humanae, não encontra reciprocidade no Islão. Monsenhor Lajolo (5) acrescentou: "para se conseguir este objectivo priorit??rio , procuraremos o diálogo em todos os foros nacionais e internacionais, tanto com autoridades políticas como religiosas, porque no Islão não se d?? a separa????o entre estes dois campos, um dado a ter muito em conta".
Assim tem feito a Santa S??, com encontros a todos os níveis, consciente de que não existe uma única autoridade muçulmana que possa servir de interlocutora v??lida. Tamb??m h?? gestos que valem mais que mil palavras, como a visita do Papa ?? Mesquita Azul, de Istambul (30-11-2006)
Tr??s caminhos
As dificuldades que se apresentam são muitas e o caminho lento. Segundo o islam??logo Padre Lacunza, Bento XVI est?? a seguir tr??s caminhos neste diálogo: a aplica????o do bin??mio " f?? e raz??o", a construção e defesa da identidade religiosa dos católicos e a afirma????o inalienível de que, na defesa da f??, não se pode chegar ?? violência (6).
O objectivo priorit??rio ?? a liberdade religiosa como prova de que existe uma atmosfera aut??ntica de conviv??ncia em paz. Bento XVI, num discurso ?? C??ria Romana, em que fez o balanço do ano (22-12-2006): "No diálogo com o Islão, que é preciso intensificar, devemos ter presente que o mundo muçulmano enfrenta hoje, com grande urg??ncia, uma tarefa muito semelhante ?? que se imp??s aos cristãos desde os tempos do Iluminismo e que o Conc??lio Vaticano II , como fruto de uma grande e ??rdua procura, levou a solu????es concretas para a Igreja Católica".
Este diálogo est?? na raiz de solu????es para a conviv??ncia, sem que esta, como pretende o relativismo, pressuponha a ren??ncia ??s próprias convic????es "Este diálogo, diz Bento XVI exige também a prepara????o de pessoas competentes para ajudar a conhecer os valores religiosos que temos em comum e a respeitar lealmente as diferenças".
Para evitar que se desenvolvam novas formas de intoler??ncia e de violência, ?? necessário um diálogo sincero, radicado num conhecimento recíproco, cada vez mais verdadeiro" (20-09-2007).
Uma palavra comum
Os resultados desta clareza e determina????o come??am a vislumbrar-se, como prova a carta assinada por numerosas personalidades do Islão, dirigida ??s Igrejas cristãs, com o título Uma palavra comum entre n??s e v??s (13-10-2007).
Pode ler-se nestes e noutros sinais de esperança, que o amor ?? verdade e que o verdadeiro respeito são bases suficientes para um diálogo aut??ntico, onde a componente pessoal deve prevalecer.
Como afirmou o P. Madigan, Consultor do Conselho Pontifício para o Di??logo Inter-religioso, existem "grandes possibilidades de dialogar sobre experiências humanas profundas, nas quais se encontra expresso o desejo de construir um mundo melhor" (7).
Outro consultor, P. Sanchez Nogales prefere falar de um diálogo "a partir do testemunho" porque , ao dar testemunho, o outro irrompe e brota face ao seu interlocutor da sua origem mais pura" (8).
A partir daqui, da autenticidade podemos ser honestos no processo de reflex??o intelectual, aceitando generosamente a diferença e exigindo, com firmeza, reciprocidade. Dispensamos o politicamente correcto no diálogo inter-religioso e urge, mais do que nunca, tornar presente a f??.
??ngel Lopez-Sidro, professor de Direito P??blico Eclesi??stico na Universidade de Ja??n
(1) Cfr.S.Khalil Samir, "Cien preguntas sobre el Islam", Madrid,2003, p.166; ver Aceprensa 126/03, na vers??o impressa
(2) Discurso de Bento XVI no encontro com os representantes muçulmanos e embaixadores dos pa??ses de maioria islâmica (25-09-2006)
(3) Entrevista com a te??loga católica IIaria Morali (Zenit,28-11-2006)
(4) Discurso no Centro de Estudos Isl??micos de Oxford,em 16-05-2006
(5) Discurso aos participantes na sess??o plen??ria do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Imigrantes e Itinerantes, em 17-05-2006
(6) Entrevista ao islam??logo e Padre Branco Justo Lacunza Balda (Zenit,19-11-2006). NdR: Padres Brancos são mission??rios de ??frica de uma institui????o especialmente dedicada ?? evangeliza????o das popula????es muçulmanas e pag??s desse continente
(7) Entrevista com Daniel Madigan, S.J.,consultor do Conselho Pontifício para o Di??logo Interreligioso (Zenit,18-09-2005)
(8) J.L.Sanchez Nogales, "El Islam entre nosotros", Madrid,2004 p.269.

