Proselitismo e liberdade religiosa
(...) Como o Senhor - que pregou a todos a convers??o a partir do início da sua vida pública (cfr. Mc 1,15) -, a Igreja entendeu sempre a sua missão de transmitir o Evangelho ad gentes como sendo dirigida ?? convers??o dos homens. Todavia, sabe-se muito bem que, infelizmente, este fervor mission??rio, nos últimos tempos, esfriou em certos ambientes católicos.
De facto, João Paulo II advertiu que o apelo ?? convers??o ???? posto em discuss??o ou facilmente deixado em silêncio. V??-se nele um acto de "proselitismo"; diz-se que basta ajudar os homens a tornarem-se mais homens ou mais fi??is ?? própria religi??o, que basta construir comunidades capazes de trabalhar pela justi??a, pela liberdade, pela paz, e pela solidariedade?? (1). A missão de transmitir o Evangelho, incorporando os homens a Cristo na Igreja, pode designar-se - e assim se tem feito com alguma frequ??ncia - como ??proselitismo??. Todavia, como j?? assinalava João Paulo II, no texto atr??s citado -, em alguns meios, esta palavra tem vindo a adquirir uma conota????o negativa.
Na nova evangeliza????o
De facto, não ?? raro que, por motiva????es de fundo diversas, se pretenda criar obst??culos ?? missão evangelizadora da Igreja, com a acusa????o de proselitismo, considerando este termo em sentido negativo, isto ??, como o uso de m??todos imorais (violência f??sica ou moral, engano) para conquistar seguidores. Na realidade, o Magist??rio da Igreja sempre reprovou a violência e o engano. Assim, no contexto da liberdade religiosa, o Conc??lio Vaticano II sublinhou com especial vigor: ??Os grupos religiosos t??m ainda o direito de não serem impedidos de ensinar e testemunhar publicamente, por palavra e por escrito a sua f??. Por??m, na difusão da f?? religiosa e na introdução de novas pr??ticas, deve sempre evitar-se todo o modo de agir que tenha visos de coac????o, persuas??o desonesta ou simplesmente menos leal, sobretudo quando se trata de gente rude ou sem recursos?? (2).
Neste mesmo sentido, João Paulo II afirmava: ??A nova evangeliza????o não tem nada a ver com o que diversas publica????es t??m insinuado, falando de restaura????o, ou lan??ando a palavra proselitismo em tom acusat??rio, ou servindo-se de conceitos como pluralismo e toler??ncia, entendidos unilateral e tendenciosamente. Uma leitura profunda da Declara????o conciliar "Dignitatis humanae" sobre liberdade religiosa ajudaria a esclarecer tais problemas, e também a dissipar medos que se tentam despertar, talvez com a finalidade de arrancar ?? Igreja a coragem e o empenho para cumprir a sua missão evangelizadora. E essa missão pertence ?? ess??ncia da Igreja?? (3).
Clarificar o sentido negativo
Em alguns documentos eclesi??sticos posteriores ao Conc??lio Vaticano II, quando se emprega a palavra proselitismo em sentido negativo, esclarece-se esse sentido, que o próprio termo não cont??m em si mesmo. Por exemplo, no "Direct??rio ecum??nico" de 1967, os bispos são exortados a fazer frente ao perigo de proselitismo relativamente ?? actividade das seitas, mas esclarece-se imediatamente que ??com o conceito de ??proselitismo?? se entende aqui um modo de actuar que não est?? de acordo com o esp??rito evang??lico, na medida em que utilize argumentos desonestos para atrair homens para a sua Comunidade, abusando, por exemplo da sua ignor??ncia ou pobreza, etc. (cfr. Decl. Dignitatis humanae, 4?? (4).
(...) Noutros documentos eclesi??sticos, foi-se introduzindo o uso do termo proselitismo em sentido negativo, especialmente quando se faz refer??ncia ao ??proselitismo das seitas??. Por vezes, também se tem utilizado o termo para indicar, sem nuances, uma actividade injusta. Assim, por exemplo, num documento da Comissão Pontifícia" pro Russia" de 1992, diz-se: ??o que se chama proselitismo - ou seja, qualquer press??o sobre a consciência -, por quem quer que seja praticado ou sob qualquer forma, ?? completamente diferente do apostolado e não ?? de modo algum o m??todo em que se inspiram os pastores da Igreja?? (5). No novo Direct??rio ecum??nico de 1993, desapareceu a nuance presente no direct??rio anterior, com o qual se explicava o sentido em que estava a ser usada a palavra proselitismo (6). A partir de ent??o, tem sido frequente utilizar esta palavra para designar tout court comportamentos com a inten????o de for??ar, pressionar ou, em geral, tratar de uma forma abusiva a consciência das pessoas.
No entanto, no ??mbito ecum??nico não se chegou a prescindir sempre da distin????o entre um proselitismo bom e um mau. Por exemplo, num documento de 1995 do grupo misto Igreja Católica - Conselho Ecum??nico das Igrejas, esclarece-se que, embora o termo proselitismo ??tenha adquirido recentemente uma conota????o negativa quando se aplicava ?? actividade de alguns cristãos destinada a captar seguidores entre os membros de outras comunidades cristãs??, historicamente este termo ??foi aplicado em sentido positivo, como conceito equivalente ?? de actividade mission??ria??, explicando-se que ??na B??blia este termo não tem qualquer conota????o negativa??. Um ??pros??lito?? era aquele que acreditava no Senhor e aceitava a sua lei e, deste modo, se convertia em membro da comunidade judaica. A cristandade foi buscar este significado para designar quem, vindo do mundo pag??o, se convertia. At?? h?? relativamente pouco tempo, a actividade mission??ria e o proselitismo consideravam-se conceitos equivalentes??.Em qualquer caso, parece necessária uma clarifica????o, pois o assunto não ?? meramente lingu??stico, mas comporta também importantes conota????es doutrinais.
O proselitismo na B??blia
Como se recordava no texto h?? pouco citado, o termo pros??lytos passou do juda??smo ?? tradi????o cristã. Trata-se da tradu????o grega do hebraico "ger", frequente na Vers??o dos LXX (77 vezes), que designava principalmente o estrangeiro que, vivendo com estabilidade na comunidade hebraica, gozava dos mesmos direitos e deveres que os judeus (7), participando também no culto religioso da comunidade. Parece que a realidade dos pros??litos, enquanto categoria institucionalizada, provinha da di??spora na ??poca do helenismo e constava de um per??odo que culminava na P??scoa, antes da qual o pros??lito recebia a circuncis??o. O termo pros??lytos aparece apenas quatro vezes no Novo Testamento: uma em S. Mateus (23,15) e tr??s nos Actos dos Ap??stolos (2,11; 6,5; 13,43). O texto do Evangelho ?? o que exprime mais claramente o alcance do termo. Os escribas e fariseus preocupavam-se em procurar pessoas que estivessem em condições de compreender e de viver a f?? no Deus ??nico. Em boa parte, foi a actividade proselitista que fez com que o juda??smo conseguisse sobreviver depois da destrui????o do Templo e da dispers??o do seu povo. A maior parte dos exegetas concorda - como, por outro lado, parece bastante ??bvio - em que a censura que Jesus fazia aos escribas e fariseus não se refere ao facto de procurar pros??litos, mas ao modo de faz??-lo e, sobretudo, a que tornavam depois o disc??pulo ??filho do inferno??, duas vezes pior que do que o mestre que o tinha trazido para o juda??smo. (...)
Os Actos dos Ap??stolos descrevem a actividade mission??ria das comunidades cristãs que seguiam as pegadas do juda??smo. Tal como os judeus tentavam atrair pag??os bem preparados para integrarem a religi??o judaica, também os primeiros cristãos se sentiam impelidos a transmitir a mensagem salv??fica de Cristo com o fim de ??ganhar?? almas para o Senhor (cfr.1 Co. 9,19-23; Flp 3,8).
(...) Santo Agostinho considera que fazer pros??litos ?? como gerar filhos (8). De qualquer maneira, pode afirmar-se que, nos primeiros s??culos, o uso do termo para designar os que se convertiam ao cristianismo e o do seu derivado (proselitismo) não tinham qualquer conota????o negativa. (...)
Nas l??nguas modernas
No que se refere ao significado actual nas diversas l??nguas ocidentais, praticamente todos os dicion??rios e as enciclop??dias mais prestigiadas coincidem a definir o proselitismo simplesmente como actividade ou atitude destinada a fazer pros??litos (9). ?? ??bvio que se trata de uma realidade presente a muitos níveis (religioso, político, desportivo, económico, etc.) e, em princ??pio, completamente leg??tima, embora como qualquer outra actividade possa haver desvios a nível moral.
Em alguns casos, ?? mencionado um sentido pejorativo do termo, como no alem??o Duden-Rechtschreibung (de 1986) em que Proselyt se define originalmente como o convertido ao juda??smo e presentemente como o ??novo convertido?? e se acrescenta que o termo derivado Proselytenmacherei (proselitismo) implica uma ideia negativa. Pelo contr??rio, em diversos dicion??rios e enciclop??dias noutras l??nguas, encontram-se sobretudo explicações do termo em sentido unicamente positivo, especialmente em escritos de inspira????o cristã. Assim, por exemplo, no Lessico Universale Italiano, afirma-se que a ??actividade mission??ria ?? uma forma organizada de proselitismo?? (10); em castelhano, na Gran Enciclopedia Rialp, em que o termo proselitismo ?? entendido no sentido literal, de ??zelo para atrair pros??litos??, que se explica que, em sentido mais amplo, proselitismo seja ??a ac????o apost??lica destinada a difundir a f?? católica para que todos os homens cheguem a conhecer Cristo?? (11).
Na Internet, podem encontrar-se sobre este tema fontes de todo o tipo; todavia, ?? significativo que, numa das mais consultadas em todo o mundo - por pertencer ?? Microsoft e estar disponível em muitas l??nguas -, o termo proselitismo seja mencionado em diversos artigos e, em nenhum deles, com sentido negativo. Por exemplo, no artigo sobre ??Liberdade de culto??, diz que todos os cidad??os ??podem professar livremente o próprio credo fazendo, eventualmente, também obra de proselitismo?? (12); e, no artigo ??Propaganda??, afirma-se que este conceito est?? ??originariamente ligado ?? actividade de proselitismo da Igreja Católica?? (13). Neste horizonte de liberdade encontram-se também algumas posi????es de autores contempor??neos, como a de um político franc??s que chega a afirmar que ??o proselitismo, contanto que seja moderado, foi reconhecido com componente intr??nseca da liberdade religiosa?? (14).
De todos estes dados, pode concluir-se que, embora em algumas l??nguas, como o alem??o, prevale??a actualmente um sentido negativo do termo proselitismo, que se afasta da sua raiz b??blica, em muitas outras l??nguas e contextos culturais, exprime uma actividade, em si mesma, positiva. (...)
Sin??nimo de evangeliza????o
Antes do aparecimento deste fenómeno de intensifica????o negativa do termo proselitismo em alguns meios, os autores católicos, especialmente no contexto da vida espiritual, utilizaram sem problemas a palavra proselitismo para referir-se ?? actividade apost??lica ou evangelizadora. (...) Juntamente com o uso para designar a actividade destinada a aproximar os outros da Igreja ou a ajud??-los a viver coerentemente com a f?? católica, o termo proselitismo utilizou-se também com frequ??ncia no contexto da promo????o de voca????es espec??ficas dentro da Igreja (para o sacerd??cio, etc.). Tamb??m este uso est?? ?? claramente inspirado no sentido b??blico de proselytos.
Um importante exemplo actual, encontramo-lo no livro Caminho, de S??o Josemaria Escriv?? de Balaguer, obra de espiritualidade com uma extraordin??ria divulga????o (at?? agora, mais de quatro milhões e meio de exemplares em 44 l??nguas), em que h?? um capítulo cujo título ?? precisamente Proselitismo, em que se emprega o termo no seu sentido original exclusivamente positivo. S?? nas edi????es em algumas l??nguas, poucas, em que h?? uma tendência considerar negativamente o termo (concretamente em alem??o e ingl??s) foi feita a tradu????o não literal, mas com express??es mais ou menos semelhantes (??Menschen gewinnen??, Winning new apostles??). Contudo, numa recente edi????o bilingue castelhano/ingl??s, o tradutor considerou mais adequado traduzir ??proselitismo?? por proselytism, explicando, em nota, o significado positivo que essa palavra tem. (15)
O problema de fundo
A utiliza????o da palavra proselitismo, num sentido exclusivamente negativo, não ?? generalizada, nem ?? sequer, na maior parte dos casos, simples efeito de uma evolução da linguagem. Frequentemente a utiliza????o que hoje se faz desta palavra como se s?? tivesse um significado negativo não se deve a que por tal palavra se entenda de facto - contra o seu significado original - uma atitude imoral (violenta, enganosa, etc.), mas também se considera negativo o verdadeiro sentido positivo do proselitismo.
Quer dizer, o problema de fundo ?? que com a tendência, que tenta impor-se em certos meios, de utilizar a palavra proselitismo como algo negativo, se pretende afirmar uma atitude relativista e subjectiva, sobretudo no plano religioso, para a qual não faria sentido que uma pessoa que pretendesse possuir a verdade e procurasse convencer outras para a acolherem e ficarem a pertencer ?? Igreja. A deprecia????o - patente em alguns meios - da palavra proselitismo, sobretudo quando se refere ao apostolado cristão, tem muito a ver com essa ??ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades?? (16).
Deste modo, é preciso reafirmar que o acto de convidar ou fazer com que outras pessoas - não cristãs ou, a outro nível, cristãs não católicas - se integrem na plena comunh??o com a Igreja Católica, respeitando a verdade, a intimidade e liberdade de todos, faz parte integrante da evangeliza????o.
Noutra ordem de ideias, também se est?? a pretender utilizar a palavra proselitismo com sentido exclusivamente negativo, para designar a ac????o apost??lica de promo????o de determinadas voca????es dentro da Igreja que têm um s??rio compromisso (o sacerd??cio e outros diferentes modos organizados na procura da plenitude da vida cristã). Neste caso, as motiva????es são variadas mas não de todo alheias ao próprio relativismo e subjectivismo. Como ?? ??bvio, a evangeliza????o, do mesmo modo que qualquer outra actividade humana, pode fazer-se com inten????o ou m??todos imorais (e de facto assim sucede em algumas seitas não católicas e não cristãs). Contudo, seria uma grande falsidade hist??rica afirmar que isto tenha acontecido com frequ??ncia na Igreja. O verdadeiro esp??rito cristão esteve sempre imbu??do de caridade, como est?? expl??cito nas palavras de S??o Josemaria Escriv?? de Balaguer: ??Não compreendo a violência: não me parece capaz nem para convencer nem para vencer; o erro supera-se com a ora????o, com a gra??a de Deus, com estudo; nunca com a for??a, sempre com a caridade?? (17).
Por outro lado, a possibilidade - e a realidade em algumas seitas - de um proselitismo moralmente incorrecto não justifica que se atribua ao termo um sentido negativo.
Mais ainda, a coer??ncia deveria obrigar a usar a palavra proselitismo sem qualquer adjectivo para designar o seu sentido positivo original e qualific??-la, em contrapartida, de alguma maneira sempre que se tratasse de uma actividade reprov??vel (por exemplo: proselitismo negativo, proselitismo sect??rio, proselitismo violento, etc.) a menos que o contexto o torne claramente desnecessário.
Fernando Oc??riz
(1) João Paulo II, enc. Redemptoris missio, 7-XII-1990, n. 46.
(2) Conc??lio Vaticano II, Decl. Dignitatis humanae, n. 4 . Cfr. João Paulo II, Enc. Redemptoris missio , n.55.
(3) ) João Paulo II, Atravessar o limiar da esperança, Ed. Temas de Actualidade, Lisboa 1995
(4) Secretariado para a Unidade dos Crist??os, Direct??rio Ecum??nico, 14-V-1967, n?? 28, nota 15; AAS 59 (1967) 584.
(5) Comissão Pontifícia pro Russia, "L'??glise a re??u", 1-VI-1992, n. 3: EV 13,1822.
(6) Cfr. Conselho Pontifício para a Unidade dos Crist??os, Direct??rio para o ecumenismo, 25-III-1993, n. 23, nota 41:AAS 85 (1993) 1048.
(7) Cfr. K.G.Kuhn, ??proselytos??, em Theologisches W??rterbuch zum Neuen Testament: ed. Ital., Brescia (1980) XI, 303.
(8) Cfr. Santo Agostinho, Contra Faustum, 16, 29: PL 42,336.
(9) Por exemplo, cfr.: em italiano, Lessico Universale Italiano (1977), Grande Dizionario Enciclopedico (1990); em castelhano, Diccionario de la Real Academia de la Lengua Espa??ola (2001), Enciclopedia Espasa e Gran Enciclopedia Rialp; em ingl??s, Webster's Unabridged Dictionary (1972) e The New Catholic Encyclopedia (1992).
(10) Lessico Universale Italiano, XVII, 742.
(11) J.A. Garcia Prieto, ??Proselitismo??, Gran Enciclopedia Rialp, 19,268
(12) Enciclopedia Microsoft Encarta (2001), artigo ??Liberdade de culto??.
(13) Idem, artigo ??Propaganda??.
(14) N. Sarkozy, La Republique, les religions, l'esp??rance, Cerf. Paris, 2004, 153
(15) A. Byrne (ed.), J. Escriv??: Camino. The Way. An annoted bilingual edition, Scepter, London 2001, 273: Cfr. Tamb??m P. Rodriguez, J. Escriv?? de Balaguer: ??Camino??.Edici??n cr??tico-hist??rica, Rialp, Madrid 2002, 864-865
(16) J. Ratzinger, Homilia na Missa de inaugura????o do Conclave, 18-IV-2005.
(17) S. Josemaria Escriv?? de Balaguer, Temas Actuais do Cristianismo, n.44.

