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O diálogo entre a Igreja e o Islão

A convers??o, uma consequência da liberdade religiosa

 Liberdade Religiosa
A convers??o, uma consequência da liberdade religiosa

Com a solene Vig??lia Pascal celebrada por Bento XVI, a Semana Santa católica chegava ao seu ponto culminante. Uma semana de Paix??o que come??ara com uma m?? notícia: o assassinato no Iraque do bispo caldeu católico de Mossul, Bulos Faray Raho. O próprio Bento XVI manifestou visivelmente a sua dor sobre o altar da Pra??a de S. Pedro, na perturbada festa do Domingo de Ramos, e na Ter??a-feira Santa celebrou pessoalmente ex??quias pelo prelado iraquiano. Um novo epis??dio de dor na história da persegui????o aos cristãos nalguns pa??ses islâmicos.

 

Poucos dias depois, o Papa derramava as ??guas do Baptismo sobre a cabe??a do muçulmano Magdi Allam. Sucessos isolados ou imagem gr??fica da relação entre o Islão e o Cristianismo?

 

Vias de entendimento

 

No passado m??s de Outubro mais de uma centena de intelectuais e l??deres religiosos do mundo islâmico remetiam uma carta a Bento XVI para lhe propor um renovado esfor??o de entendimento entre católicos e muçulmanos. No m??s de Fevereiro uma delegação foi recebida em audi??ncia pelo Santo Padre e fixou-se a continua????o das conversa????es numa reunião de diálogo inter religioso prevista para os próximos meses (cf. Aceprensa na edi????o impressa e neste site)

 

Um dos signat??rios da carta, Sergio Yabe Pallavicini, im?? da mesquita alWahid de Mil??o, depois de ouvir a notícia da convers??o de Allam comentou: "o que me surpreende ?? o relevo que o Vaticano deu a esta convers??o". Romper-se-?? ent??o o diálogo? Por parte dos católicos ?? evidente que n??o, pois o Papa tem manifestado inumer??veis vezes a sua decisão não s?? de o manter mas de o intensificar num contexto de reciprocidade.

 

Al??m disso, a Santa S??, em palavras do chefe da Sala de Imprensa ao referir-se ??s opini??es expostas por Allam no Corriere della Sera no dia seguinte ao da sua convers??o, deixou claro que "acolher na Igreja um novo crente não significa evidentemente tomar como próprias todas as suas ideias e posi????es, sobretudo em temas políticos ou sociais". O porta-voz disse também que o itiner??rio de diálogo aberto deve continuar e "?? de extrema import??ncia não o interromper, sendo priorit??rio pelos epis??dios que podem acarretar mal entendidos".

 

Na parte islâmica, embora tenha havido cr??ticas ?? notoriedade do baptismo de Allam, não se falou em encerrar as conversa????es. O professor de Cambridge Aref Ali Nayed, que também assinou a mencionada carta e ?? porta-voz das respectivas personalidades muçulmanas, afirmava numa entrevista a El Pais que "o diálogo ?? um dever que devemos perseguir pelo bem da humanidade". Portanto, h?? vontade de diálogo por ambas as partes e continua aberta esta via de entendimento. Mas, quais são os pontos chaves em que se devem apoiar os novos passos?


Bases para o diálogo

 

?? necessário partir de tr??s premissas iniciais. Em primeiro lugar, o Islão não conta com uma autoridade central e por isso o diálogo s?? pode travar-se com determinados grupos, como por exemplo, o mencionado grupo de 138 acad??micos e l??deres islâmicos signat??rios da carta.

 

Por outro lado, o ordenamento vital do Islão não admite separa????o entre o aspecto político e religioso, e tem procedimentos muito diferentes dos que são próprios dos pa??ses com ra??zes cristãs. Na sua concepção os direitos humanos ficam submetidos ?? sharia ou lei religiosa islâmica, o que implica uma evidente inferioridade da mulher em relação ao homem, nega????o do direito a abandonar a f?? islâmica, aus??ncia de espa??os livres de express??o próprios de uma sociedade pluralista, etc.

 

Uma terceira premissa para o diálogo ?? a clara consciência que cada uma das partes deve ter de si, da própria identidade, e dar a conhecer ?? outra a sua posi????o de um modo completo. Neste sentido conv??m ter em conta que se a parte cristã manifestasse algum inconveniente em apresentar a própria f?? com toda a integridade, por medo a ofender ou decepcionar, não faria sen??o confirmar o interlocutor muçulmano na convic????o de que o cristão ?? um crente "d??bil".

 

Bento XVI falou claramente, sobretudo num discurso ?? c??ria romana no Natal de 2006, dos pontos sobre os quais se h??-de apoiar esta aproxima????o: as conquistas da verdadeira raz??o - não a raz??o positivista que "exclui Deus da vida da comunidade e dos ordenamentos públicos" - face aos direitos do homem, especialmente os que se referem ?? liberdade religiosa e ?? dignidade da pessoa. Nesta linha, o Papa mostrou-se muito esperançado na carta que lhe foi enviada pelos l??deres islâmicos, sobretudo por um aspecto: a aten????o prestada pelos signat??rios ao duplo mandamento que convida a amar a Deus e ao próximo. Trata-se de uma cren??a comum de ambas as religi??es, sobre a qual, segundo o Papa, se pode edificar um futuro entendimento.

 

Igrejas e mesquitas

 

Outro aspecto importante em que se tem insistido ?? o da reciprocidade, em que h?? acordo em linhas gerais, mas em concreto ?? fonte habitual de desencontros. Um exemplo significativo ?? o que conta o Corriere della Sera numa entrevista a Nura, uma Islamita culta convertida ao cristianismo que vive em It??lia: "Hoje não existe direito ?? reciprocidade. O cristão que se converte ao Islão não tem medo. ?? como se sentisse bem protegido pelas costas. N??s, pelo contr??rio, temos de esconder-nos. Temos verdadeiro pavor. Eu sinto terror quando entro na igreja e escolho habitualmente uma par??quia afastada do bairro onde vivo. Estou muito atenta para não ser vista. Mas não deixo de ir ?? igreja, porque creio deveras".

 

Recentemente um pa??s islâmico - Qatar - permitiu que se constru??sse um templo católico no seu território: grande novidade! Mas simultaneamente a casa real da Ar??bia Saudita não concedeu autoriza????o para que existisse culto católico no pa??s, embora se estime que haja uns oitocentos mil imigrantes católicos no seu território. E na Arg??lia foram encerradas várias igrejas evang??licas, com a acusa????o de procurar convers??es ao cristianismo.

 

Por sua vez, os imigrantes muçulmanos em pa??ses europeus queixam-se dos obst??culos que encontram para construir mesquitas, embora frequentemente as dificuldades sejam mais de tipo económico que administrativo.

 

Convers??o e reciprocidade

 

Liberdade religiosa, como direito humano inalienível, e reciprocidade entrela??am-se no caso da convers??o. ?? por isto que a convers??o de Allam adquire uma significativa for??a expressiva. Assim como os muçulmanos podem convidar ?? convers??o os cristãos no Ocidente, também os cristãos deveriam poder expor a sua f?? aos muçulmanos nos pa??ses islâmicos. Mas, para j??, não ?? assim. Segundo Shamir Kahalil Samir, jesu??ta eg??pcio, especialista em Islamismo, "o baptismo de Magdi Allam pelo Papa não ?? um acto de agress??o, mas uma exigência de reciprocidade. ?? uma provoca????o tranquila, que serve apenas para fazer pensar e despertar".

 

A convers??o de um muçulmano a outra religi??o ?? considerada pelo Islão como uma trai????o ?? comunidade dos verdadeiros crentes. A liberdade religiosa concebe-se, portanto, como liberdade de aderir ?? verdadeira religi??o, que ?? o Islão, enquanto a passagem para outros credos est?? terminantemente proibida. Embora a pena derivada da transgress??o desta m??xima varie consoante as escolas e tradi????es, a corrente preponderante considera que a pena devida ?? a morte. Esta ?? a interpreta????o dominante dos 14 vers??culos do Alcor??o que sancionam a apostasia, 13 dos quais falam de "um castigo muito doloroso no outro mundo" e s?? um deles menciona "um tormento muito doloroso neste mundo e no outro".

 

Uma tendência liberal minorit??ria entre os muçulmanos pensa, no entanto, que Maom?? não pediu nunca que se matasse o ap??stata, e inclusive interveio num dos casos para impedir que os seus o fizessem.

 

Portanto, embora o recurso ?? pena de morte não pare??a ter um apoio suficiente nos textos do Alcor??o, várias raz??es incitam actualmente ?? sua extens??o nos pa??ses islâmicos. Segundo Samir Khalil Samir, professor da história da cultura ??rabe e de estudos islâmicos na universidade de Saint Joseph (L??bano), a raz??o est?? no chamado "despertar islâmico" que recuperou antigas afirma????es hist??ricas, animando "os que apoiam as correntes radicais a pressionar para que seja castigado com severidade quem abandonar o Islão". E o que ?? mais grave, num mundo global e com uma religi??o t??o diversificada em escolas como a islâmica, as amea??as aos convertidos que abandonam o Islão estendem-se j?? a qualquer pa??s.

 

Que acontece quando o caminho da convers??o se percorre em sentido inverso? Correm riscos os que passam do cristianismo ao Islão? De novo a voz de Ali Nayed: "Creio que se uma autoridade muçulmana escolhesse um convertido fortemente anti cristão e o exibisse numa grande cerim??nia transmitida pela televis??o e este publicasse al??m disso um artigo anti cristão repleto de ??dio, muitos cristãos ficariam aborrecidos. As pessoas convertem-se constantemente em ambas as direc????es".

 

Um direito reconhecido no Ocidente

 

Mas para al??m de suposi????es, neste caso a velha m??xima (no news, good news) ?? a melhor garantia do que acontece: nada. Nos pa??ses de ra??zes cristãs a possibilidade de aderir a outra religi??o e dela fazer pública confiss??o est?? garantida pelo clima de liberdade religiosa. De facto a doutrina do magist??rio católico ?? clara e incide na reciprocidade: "A Igreja pro??be severamente que algu??m seja obrigado a abra??ar a f??, ou a ela seja aliciado ou induzido por processos importunos, da mesma maneira que reivindica com firmeza o direito de ningu??m ser dela afastado por vexames injustos" (Conc??lio Vaticano II, Decreto Ad gentes, n.13).

 

A posi????o cristã relativamente ?? liberdade religiosa e ?? convers??o ?? portanto bem diferente da islâmica. Como explica Samir Khahlil Samir "?? necessário garantir a liberdade de evangeliza????o (tabsh??r), assim como a liberdade de islamizar (da??wa). Para mim, o cristianismo ?? a mais bela e a mais perfeita religi??o, e o Islão, tendo muitas coisas boas, não ?? o cumprimento do projecto divino sobre o homem. Ao mesmo tempo admito que o muçulmano esteja convencido do contr??rio e est?? no seu pleno direito. Mais ainda: ?? seu dever! Esta ?? a verdadeira reciprocidade: cada um segue a sua consciência e procura iluminar cada vez mais os outros".


Miguel ??ngel S??nchez de la Nieta


Informação sobre a actividade mais recente de Bento XVI:

 

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