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Leituras da enc??clica ???Caritas in veritate

 Teologia
Leituras da enc??clica ???Caritas in veritate

Ra??zes da comunh??o humana

 

Depois do Conc??lio Vaticano II, Joseph Ratzinger come??ou a lan??ar as bases - juntamente com outros te??logos como Hans Urs von Baltasar - do que depois seria conhecido como a "teologia da comunh??o". A ideia b??sica desta corrente de pensamento ?? que a vida ??ntima de Deus Trino consiste numa comunh??o de Pessoas, e os crentes devem aspirar a ser um reflexo da vida trinit??ria.

 

Segundo Novak, seria este o contexto teológico em que Bento XVI escreve a sua enc??clica. "Quatro são as principais ideias que percorrem o documento: comunh??o, dom, caritas e verdade". A conjuga????o destas quatro ideias caracteriza a enc??clica como "a mais teológica, a mais especificamente católica, das enc??clicas sociais elaboradas desde 1891".

 

"Do mesmo modo que Abraham Lincoln pensava que a vis??o pessimista de Locke sobre a natureza humana não serviria para conseguir a aboli????o da escravatura nos Estados Unidos, Bento XVI recorda que o desenvolvimento humano sempre depende de um impulso para cima".

 

Face aos que consideram o interesse individual como o motor da vida económica e social, Novak constata as possibilidades de interac????o que surgem na actualidade. " Os cidad??os de uma ponta do mundo aprendem cada vez mais de outros as ideias dos direitos humanos, de protesto, de liberdade de associa????o, de liberdade de express??o e de justi??a".

 

Bento XVI não soube apenas detectar este anseio de comunh??o mais ??ntima, diz Novak. Fornece ao mesmo tempo um fundamento s??lido onde apoiar esse desejo. "As ra??zes da comunh??o humana - diz o te??logo norte-americano - nutrem-se da ideia de um Deus Criador, que ?? Pessoa e Comunh??o. As pessoas, inclusive quando participam dessa comunh??o, mant??m intacta a sua individualidade".

 

O ideal da comunh??o est?? intimamente unido ?? experiência da doa????o. Ambas as no????es s??o, em conjunto com a caridade e a verdade, os princ??pios indispens??veis para construir o desenvolvimento humano.

 

"O Papa pede-nos que olhemos para a vida económica ?? luz do princ??pio de gratuidade, inclusive quando se rege por acordos de interc??mbio e de preços. ?? a generosidade - a dimens??o humana do com??rcio - o que nunca dever??amos perder de vista se queremos fazer um mundo mais humano".

 

Um h??brido

 

Num artigo publicado em National Review (9-07-2009), George Weigel comenta que a enc??clica lhe parece "um h??brido", em que o agudo pensamento próprio do Papa sobre a ordem social se mistura com elementos da focagem espec??fica do Conselho Pontifício Justi??a e Paz, de estilo anti-capitalista.

 

Como pontos pertencentes ao pensamento mais próprio de Bento XVI, em continuidade com o de João Paulo II, destaca "a forte ??nfase nos temas de respeito pela vida (aborto, eutan??sia, investiga????o com destrui????o de embri??es humanos) como temas próprios da justi??a social", em que manifesta que não ?? prov??vel que pessoas que não se preocupam com os n??o-nascidos possam contribuir seriamente para o cuidado ambiental. Outra das sec????es mais caracter??sticas de Bento XVI seria "a vincula????o entre caridade e verdade, em que adverte que uma preocupa????o pelos outros desligada da verdade moral acerca da pessoa humana se transforma em mero sentimentalismo".

 

Para Weigel, a enc??clica sugere que a pobreza no Terceiro Mundo está mais relacionada com a corrupção e o mau governo dos políticos do que com a falta de ajuda internacional; reconhece também os problemas económicos provocados pela escassa natalidade; e critica os programas de ajuda ao desenvolvimento unidos ?? imposi????o do controle da natalidade e ?? legaliza????o do aborto. Tudo isto estaria em continuidade com o pensamento exposto por João Paulo II na Centesimus annus e na Evangelium vitae.

 

No entanto, Weigel julga que ?? possível reconhecer na enc??clica outras ideias cuja paternidade atribui ao Conselho Justi??a e Paz, e que são as que não lhe agradam. Algumas são "simplesmente incompreens??veis" por serem vagas, como quando diz que para lutar contra o subdesenvolvimento é preciso "uma abertura progressiva no contexto mundial a formas de actividade económica caracterizada por certas margens de gratuidade e comunh??o". Esta linguagem sobre a gratuidade e a lógica do dom aplicada ?? economia parece-lhe "densa e confusa", contaminada pelo sentimentalismo que a própria enc??clica deplora noutros momentos.

 

Na mesma linha de pensamento atribuído ?? Justi??a e Paz, Weigel especifica o maior realce dado ?? redistribuição da riqueza do que ?? sua cria????o, ou mesmo a ideia de estabelecer uma "autoridade política mundial" para assegurar o desenvolvimento humano integral, sem explicitar o funcionamento de tal autoridade. Com a tradicional reserva americana para o que sup??e perder soberania, a ideia de uma autoridade mundial ?? para Weigel "t??pica do fide??smo da c??ria sobre a inerente superioridade do governo transnacional".

 

Mas a dificuldade de uma exegese como a de Weigel est?? em explicar como ?? que o intelectual arguto que ?? Bento XVI pode fazer suas ideias que não corresponderiam ao seu pensamento.


A ac????o da Igreja na governa????o mundial

 

Um dos pontos que mais chamaram a aten????o dos comentaristas dos EUA ?? o recurso a "uma verdadeira autoridade política mundial" que Bento XVI preconiza para tratar dos problemas de interesse comum (desenvolvimento, desarmamento, paz, segurança alimentar, meio ambiente) na ??poca da globaliza????o. John Allen pergunta em National Catholic Reporter (9-07-2009) como entender esta autoridade que j?? apareceu noutras enc??clicas sociais, e que continua a ser um conceito bastante "difuso". Allen sugere duas linhas de reflex??o.

 

A primeira ?? que no s??culo XXI grande parte da governa????o mundial não se realiza j?? por meio dos Estados tradicionais, ou inclusive por agrupamentos de Estados como o G8, mas atrav??s do que os peritos chamam "redes de política mundial". Estas redes podem ser exclusivamente privadas ou mesmo uma combina????o de sectores públicos e privados, mas em qualquer caso exercem grande influência na economia mundial (p??e exemplos desde ag??ncias de rating como a Standard and Poors ?? Empresa que atribui os domínios da Internet).

 

A ac????o da Igreja, sugere Allen, deveria atender de preferência a estes agentes "procurando que estejam inspirados pela procura do bem comum e não s?? pelos interesses dos seus clientes". Ao concentrar a maior parte dos seus esfor??os diplom??ticos nas Na????es Unidas e nos Estados, "as estruturas oficiais da Igreja não estão ainda em sintonia com os actores actualmente emergentes na governa????o mundial".

 

Uma segunda linha, afirma Allen, não implicaria directamente estruturas oficiais da Igreja, mas responderia ?? ac????o de "uma grande quantidade de movimentos, associa????es, redes e comunidades religiosas, envolvidas de modos muito variados nos temas que a globaliza????o suscita". "Estas formas de catolicismo vers??teis e de respostas rápidas exercer??o um papel cada vez mais importante na actividade social católica ao longo deste s??culo".

 

Como ??ndice desta tendência, Allen cita um estudo de Kevin Ahern, que recorda que em 1989 havia menos de 30 ONGs católicas reconhecidas pelo Conselho Económico e Social da ONU; em 2005 j?? havia 63. Tr??s delas (Caritas International, the Congregations of St. Joseph y Franciscans International) entravam na categoria de "general status", que ?? o grau mais importante e influente de ONGs.

 

No catolicismo do futuro, estas organiza????es não oficiais "podem frequentemente configurar o papel público da Igreja com mais efectividade que a lideran??a oficial".


A aud??cia do Papa

 

Ross Douthat comenta no New York Times (12-07-2009) que a enc??clica não pode ser julgada sob o prisma de coincidir mais ou menos com as ideias da esquerda ou da direita, de democratas ou de republicanos. "O Papa não ?? democrata nem republicano, e a sua vis??o não entra dentro das categorias normais da política americana".

 

O que não quer dizer que a enc??clica de Bento XVI não tenha consequências para a política. A "Caritas in veritate promove uma vis??o da solidariedade económica que mergulha as ra??zes no conservadorismo moral. Une a dignidade do trabalho com a santidade do matrim??nio. Defende a redistribuição da riqueza ao mesmo tempo que sublinha a import??ncia de um governo descentralizado. Une o ataque ao meio ambiente com a destrui????o massiva de embri??es humanos".

 

"Não ?? uma mensagem que se ouvir?? no discurso de Obama do próximo debate sobre o Estado da Na????o, nem na resposta dos republicanos. Representa um determinado tipo de fus??o entre esquerda e direita pouco atraente na política norte-americana. Mas precisamente por isso - assegura Douthat - ?? t??o relevante e t??o comprometedor, para católicos e não católicos".

 

Tanto para liberais como conservadores, a Caritas in veritate ?? um convite a pensar de novo nas suas tomadas de posi????o. "Por que ?? que a preocupa????o pelo ambiente não inclui ser pela vida? Por que ?? que os republicanos não se preocupam com a desigualdade económica e os democratas não se prop??em devolver mais poder aos estados e munic??pios? Por que ?? que a oposi????o ?? guerra do Iraque deve implicar a aceitação de qualquer aspecto da bio??tica? Por que ?? que o apoio ao mercado livre vai requerer também a defesa da pena de morte? Estas questões, e muitas outras como estas, são o tipo de temas que um sistema político saud??vel deveria permitir que os votantes e os políticos se propusessem", conclui Douthat.

 

Educar os pobres

 

Piero Gheddo, mission??rio italiano, sublinha no Avvenire (11-07-2009) que a import??ncia da "educa????o dos pobres" deveria ser fundamental quando se fala de ajudas aos pa??ses em vias de desenvolvimento.

 

"A enc??clica p??e justamente especial ??nfase no direito dos povos ?? alimenta????o, mas não diz nada acerca dos que produzem menos alimentos do que consomem, quando poderiam ser auto suficientes se fossem educados para produzir. A ??frica negra, de 1960 até ?? actualidade, passou de 200 a 700 milhões de habitantes, mas a produção agr??cola não aumentou no mesmo ritmo. No passado, a ??frica exportava alimentos, hoje importa 30% do que consome".

 

"Um slogan eficaz mas falso dos anti-globaliza????o diz: ???20% da humanidade possui 80% da riqueza mundial, enquanto 80% dos homens possui apenas 20%'. A verdade ?? outra: em vez de ???possui' seria preciso dizer ???produz' (...) Não se trata tanto de distribuir a alimenta????o e a riqueza produzidas, mas de ensinar a produzir".

 

Mas quem se vai encarregar desta tarefa?, pergunta Gheddo: "?? mais f??cil enviar dinheiro e contentores do que encontrar jovens dispostos a entregar a vida ou, pelo menos, parte dela para se ocupar do próximo mais pobre". E isso ?? o que fazem "as Igrejas locais e os 7.000 mission??rios e volunt??rios italianos em ??frica".


Convite para pensar em governar o futuro

 

Andrea Riccardi, fundador da comunidade de Santo Eg??dio, no Corriere della Sera (8-07-2009) v?? a enc??clica como um convite de Bento XVI para pensar, não s?? para crer.

 

A enc??clica revela um Papa consciente da complexidade dos problemas, mas convencido de um ponto central: muitas decisões são tomadas hoje em dia sem clareza de intenções, descuidando o interesse da maioria, num clima de desconfian??a, sem uma vis??o do bem comum". Perante este facto, o Papa manifesta que "n??o basta deixar o futuro nas m??os do providencialismo do mercado. O Papa faz uma l??cida cr??tica da redu????o do homem ?? condi????o económica: ?? o novo materialismo, que s?? valoriza o que ?? objecto de com??rcio. No entanto, não se encontrar?? na enc??clica uma contesta????o ut??pica do mercado (o Papa toma a s??rio a economia, até ao ponto de pedir aos pa??ses ricos que ajudem os pobres a produzir riqueza), mas a proposta de integrar a economia na condi????o humana. A vida tem valor em si mesmo e não ?? um bem nas m??os do homem: ???a questão social - escreve o Papa - converteu-se radicalmente numa questão antropológica'".

 

Mercado e ??tica

 

Samuel Gregg em Acton Institute (8-07-2009) sublinha as ideias do Papa sobre a relação entre o mercado e a ??tica."Face a todos os relativistas de esquerda e de direita, Bento XVI sustenta que a economia de mercado tem de afian??ar-se com um compromisso com determinados valores morais e com uma determinada vis??o da pessoa humana, se quer servir o bem comum em vez de o destruir. ???A economia necessita de uma ética para funcionar correctamente, e não de uma ética qualquer, mas uma ética centrada na pessoa' (n. 45).

 

"Para Bento XVI, o mercado não ?? em si mesmo problem??tico; o que importa ?? "a cultura moral em que o mercado se desenvolve". A modo de exemplo, Samuel Gregg diz que "o recente colapso do mercado de hipotecas subprime na Am??rica, em parte pode atribuir-se a que milhares de pessoas mentiram literalmente na sua solicitude de hipoteca. ?? de estranhar que uma viola????o massiva da proibi????o moral de mentir tenha consequências económicas devastadoras?" No cora????o da economia h?? pessoas humanas. "As pessoas cujas mentes estão dominadas por culturas extremamente hedonistas, ter??o tendência a tomar decisões económicas extremamente hedonistas".

 

A segunda verdade sublinhada por Bento XVI ?? a seguinte: "?? indispens??vel uma sociedade civil forte para transformar e limitar o mercado e o Estado". "Sem dúvida que o Papa admite que é preciso verificar como o Estado regula as diferentes partes da economia. Mas Bento XVI faz finca-p?? em que a virtude da solidariedade tem que ver com pessoas que amam os seus vizinhos, o que ???n??o pode ser delegado no Estado'. Isto faz lembrar a ideia de Alexis de Tocqueville, para quem a norma da livre associa????o limita o tamanho do Estado e evita que as pessoas se recluam aos seus interesses meramente privados".

 

Mario Draghi, governador do Banco de It??lia, comenta em L'Osservatore Romano, (9-07-2009): "A Igreja promove o desenvolvimento integral do homem; se não ?? de todo o homem e de todos os homens, o desenvolvimento não ?? verdadeiro desenvolvimento. A crise actual confirma a necessidade de uma relação entre a ética e a economia, mostra a fragilidade de um modelo inclinado aos excessos que determinaram o fracasso. Segundo a doutrina social da Igreja, se a autonomia da doutrina económica implica uma indiferença pela ??tica, est?? a impelir o homem a abusar do instrumento económico. Se deixa de ser meio para conseguir o fim último - o bem comum -, o benef??cio corre o risco de degenerar em pobreza. O desenvolvimento a longo prazo não é possível sem a ??tica".

 

Maurizio Sacconi, Ministro do Trabalho de It??lia, escreve no Corriere della Sera (9-07-2009): "A enc??clica volta a propor a um mundo desorientado que parta de novo da pessoa, da sua integridade, das suas exigências e das suas extraordin??rias potencialidades, das suas projec????es relacionais, da comunidade familiar ?? comunidade territorial. Estabelece, antes de mais, uma liga????o necessária entre o reconhecimento do valor da vida e o grau de vitalidade económica e social de cada sociedade. Cont??m impulsos de repercuss??es t??o extraordin??rias que nos permitem constatar uma renovada hegemonia cultural da Igreja sobre as exaustas ideologias que não souberam prever nem prevenir as grandes crises, como t??o-pouco parecem capazes de indicar agora o caminho de sa??da".


Aceprensa