Grandes Esperan??as, Falsas Promessas
???Quantas vezes j?? lemos, durante as recentes discuss??es sobre a Lei de Embriologia e Fecunda????o Humana, que a investiga????o com embri??es h??bridos de homem e de animal ?? vital para conseguirmos curar o Alzheimer ou o Parkinson???? Segundo o Primeiro Ministro Gordon Brown, a lei permitir?? encontrar terapias que ???podem salvar a vida de milhares de pessoas, milhões, ao fim de algum tempo???.
???Deslumbrado pelas promessas, o público inclina-se perante a ci??ncia. A Autoridade da Embriologia e Fecunda????o Humana permite tudo: não rejeitou nenhum projecto de investiga????o com embri??es. Os cientistas partidários desses projectos encontram submissos porta-vozes em políticos e jornalistas seduzidos pelas promessas. Como se atreveria algu??m a opor-se a essas curas milagrosas? Nos esfor??os de alguns defensores do projecto politicamente mais motivados pudemos verificar uma confus??o de temas e um clássico jogo de m??os???.
C??lulas adornadas com m??ritos de outras
Antes de mais, explica Scolding, foram usados os progressos em terapias com c??lulas estaminais adultas, para ilustrar e justificar as muito hipot??ticas possibilidades terap??uticas das c??lulas estaminais embrion??rias. Exemplos disto são as declara????es de Gordon Brown: ???As c??lulas estaminais adultas j?? estão a ser usadas para tratar doenças como a leucemia, a imunodeficiência grave combinada ou doenças coron??rias, e os cientistas estão quase a conseguir as descobertas que permitir??o usar as c??lulas estaminais embrion??rias para tratar uma variedade muito maior de doenças???.
Scolding d?? outro exemplo: ??? No Times do S??bado passado (17 de Maio), um suplemento de 12 p??ginas (patrocinado pela Wellcome Trust e publicado, curiosamente, dois dias antes do debate no Parlamento) não se cansava de tecer os louvores das terapias e da investiga????o com c??lulas estaminais, atrav??s de comovedoras histórias de curas e de impressionantes informações sobre progressos cient??ficos. Mas uma coisa não se mencionava: que todos os casos de tratamentos a doentes eram com c??lulas estaminais adultas. E que todas as informações sobre c??lulas estaminais embrion??rias eram de experiências ou de ensaios em animais, ou de estudos que especulavam sobre o potencial futuro de tais c??lulas. Não se tratou um ??nico doente, nem sequer em ensaios, com c??lulas estaminais embrion??rias: seria demasiado perigoso???.
Isso não ?? de admirar, acrescenta Scolding, perante os problemas que as c??lulas estaminais embrion??rias apresentam: tendência a provocar tumores, instabilidade e anomalias gen??ticas e cromoss??micas, perigo de rejei????o e de infec????es no caso das c??lulas do doador. Por isso, h?? tr??s meses, o New England Journal of Medicine (28-2-08), pertinaz defensor da clonagem e da investiga????o com c??lulas estaminais embrion??rias, lamentava-se: ???Como era de prever, talvez as dificuldades técnicas e as complica????es ??ticas desta op????o (c??lulas estaminais de embri??es clonados) a tornassem impratic??vel desde o princ??pio???.
Pelo contr??rio, lembra Scolding, as c??lulas estaminais adultas podem obter-se com maior facilidade no organismo do próprio doente. Da?? o ??xito de ensaios clínicos com doentes possuidores de doenças t??o variadas como enfartes, diabetes, isqu??mia dos membros, incontin??ncia de stress e retinopatias.
C??lulas estaminais adultas: nascidas para regenerar
Al??m disso, as vantagens das c??lulas estaminais obedecem a uma raz??o biológica profunda. ???A nossa ideia da medicina regenerativa mudou de forma not??vel nos últimos anos. As propriedades b??sicas das c??lulas estaminais embrion??rias (capacidade de proliferar ilimitadamente e de se diferenciarem em c??lulas de qualquer tipo) s?? se consideravam claramente vantajosas quando entend??amos a terapia celular como uma simples substitui????o de c??lulas perdidas. De facto, esta ideia simplista ?? aplic??vel em muito poucas situações clínicas. A repara????o de tecidos ?? infinitamente mais complexa. Implantar neur??nios derivados de c??lulas estaminais, por exemplo, e esperar que curem Alzheimer ?? como meter umas quantas engrenagens, rodas e molas dentro de um rel??gio avariado e esperar que ele volte a funcionar???.
Pois bem, ???o uso de c??lulas estaminais adultas, presentes em muitos órgãos especializados, se não em todos, tem evolu??do para a regenera????o: ?? essa a fun????o que têm (no organismo), e cumprem-na de muitas formas, mas isto ?? pouco relevante para a nova lei???.
Segue-se a manipulação. ???O debate transformou-se, de modo falaz, num referendo sobre a investiga????o com c??lulas estaminais embrion??rias. O que se prop??e ??, na realidade, ???apenas??? autorizar que se criem várias espécies de embri??es mistos humanos e de animal como novas fontes possíveis de c??lulas estaminais. Mas todos os argumentos invocados para justificar as experiências com c??bridos (embri??es humanos que cont??m uma pequena quantidade de material gen??tico animal, por se terem formado substituindo o n??cleo de um ??vulo animal pelo de uma c??lula humana) estão baseados na falsa ideia de que são vitais para desenvolver terapias contra temidas doenças, a partir de c??lulas estaminais embrion??rias???.
Op????o estramb??lica
Isso ?? pura tergiversa????o, diz Scolding, que cita um defensor da investiga????o com embri??es, Roger Highfield, encarregado da sec????o de Ci??ncia do Daily Telegraph. Os estudiosos de Biologia Celular que compreendem a complexidade dos c??bridos, adverte Highfield, duvidam seriamente que esses embri??es possam sequer dar alguma informação remotamente ??til sobre doenças humanas. E James Sherley, do programa de Cancro e Biologia Regenerativa de Boston, disse: ???Ter??amos que desprezar grossos volumes de Biologia Molecular e Celular Fundamental para justificar a investiga????o com c??bridos. Não precisamos de nem mais uma experiência para sabermos, com certeza, que a clonagem humano-animal não pode proporcionar modelos v??lidos para a clonagem humana???.
E Scolding prossegue: ???Suspeito que esta falsa equa????o ??? a derrota do projecto seria uma derrota para toda a investiga????o com embri??es ??? foi o toque a rebate que mobilizou o establishment cient??fico do pa??s para apoiar o projecto. Na verdade, poucos cientistas s??rios que trabalham com c??lulas embrion??rias falar??o a favor dos c??bridos pela utilidade intr??nseca destes embri??es para a investiga????o terap??utica; a maioria, obviamente, falar?? a favor da investiga????o embrion??ria em geral. (Embora, inclusivamente entre estes, uma parte defenda o projecto-lei mais pelo princ??pio de que não se devem p??r limites ao trabalho dos cientistas do que pelas c??lulas embrion??rias em si mesmas).
Por fim, Scolding recorda que desde o ano passado existe uma alternativa ao uso de embri??es: as c??lulas pluripotentes induzidas, que se obt??m pela reprograma????o gen??tica das c??lulas diferenciadas do organismo. Esta técnica produz c??lulas ???praticamente id??nticas ??s embrion??rias, e ?? muit??ssimo mais f??cil que a clonagem humana (para j?? não falar da clonagem de c??bridos)???. Cientistas de todo o mundo estão a voltar-se para a reprograma????o. At?? mesmo investigadores brit??nicos que trabalham com c??lulas estaminais dizem que a reprograma????o anuncia o fim da experimenta????o com embri??es humanos. Em mais nenhum lugar desperta verdadeiro interesse a op????o, bastante estramb??lica, de produzir c??bridos, e menos ainda h??bridos???.

