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Uma perspectiva ética sobre a reprograma????o cel

Da c??lula adulta ?? embrion??ria

 Vida Humana
Da c??lula adulta ?? embrion??ria

??Seismic shift??: assim qualificava o editorialista da revista Science a convuls??o que, entre os investigadores, provocou a irrup????o da descomplicada técnica da reprograma????o celular e suas expectativas.

 

Na realidade, as descobertas confirmaram as previs??es do Conselho Assessor de Bio??tica do presidente norte-americano sobre a exist??ncia de alternativas reais para a obten????o de c??lulas pluripotentes - iguais ou semelhantes ??s embrion??rias - sem destruir embri??es humanos4,5. Quer dizer, obviando a hipoteca moral que gravita sobre o consumo e destrui????o de embri??es humanos para investiga????o e sobre a impropriamente chamada ??clonagem terap??utica?? humana, no intento de converter os clones possíveis em fonte de c??lulas embrion??rias, algo que o lobby das embrion??rias nunca quis aceitar. (...)

 

Os cientistas Yamanaka e Thompson vieram dizer que, respeitando a racionalidade cient??fica, a inclus??o de tr??s ou quatro genes espec??ficos e promotores das caracter??sticas do estado embrion??rio, em qualquer c??lula madura do organismo humano adulto, d?? lugar ?? sua transformação em c??lula embrion??ria ou muito semelhante ?? embrion??ria natural. A c??lula adulta regride ??s origens mais indiferenciadas da sua estirpe.

 

Dar a volta ao rel??gio biológico

 

Dito de outro modo, os genes que mant??m na c??lula embrion??ria natural a sua ??plasticidade?? (isto ??, a capacidade de se transformar em qualquer tipo de c??lula do organismo, do f??gado, cérebro, pele, etc.) e sua ??imortalidade?? (ou seja, uma ininterrupta capacidade de se multiplicar no tempo) são capazes - introduzidos numa c??lula adulta - de a fazer regredir ou devolv??-la ao estado embrion??rio. A c??lula adulta, introduzidos os genes, muda de forma, perde a fun????o que tinha como madura e experimenta, por assim dizer, um processo de infantiliza????o, de voltar atr??s, recuperando a ??plasticidade?? e o carácter de ??imortal?? que possuem as c??lulas embrion??rias. Isso conseguiu Yamanaka a partir de c??lulas da pele de uma mulher de 36 anos e do tecido conjuntivo de um homem de 69. (...)

 

Do ponto de vista utilit??rio, o achado de uma fonte infinita de ??c??lulas-m??e pluripotentes induzidas?? (iPS cells) - como são denominadas - localizada no próprio corpo do doente - na sua pele ou qualquer tecido -, pode supor, prévia manipulação e transformação na c??lula adulta desejada, um important??ssimo recurso terap??utico para repor as c??lulas dos tecidos danificados, se um dia a ci??ncia garantir definitivamente a inocuidade destas c??lulas.

 

Pense-se na implanta????o de c??lulas na retina, para aliviar a cegueira; pense-se em c??lulas pigmentadas da subst??ncia negra do cérebro, para melhorar um Parkinson; pense-se em c??lulas beta para tratar uma diabetes, pois os exemplos poderiam ser muitos. A nova promessa superaria, al??m disso, em efic??cia as c??lulas m??e embrion??rias chamadas naturais, pois com ela se evitaria a ??rejei????o??, ao ser de origem própria as c??lulas implantadas. Os coment??rios que a nova técnica produziu e as esperanças que despertou não respondem s?? ?? solução do problema moral da destrui????o de embri??es, mas também, como adiante veremos, ?? demonstra????o da capacidade de manipulação gen??tica que provocou o deslumbramento dos cientistas. (...)

 

Para compreender os mecanismos biológicos

 

Sob este ponto de vista, a import??ncia das descobertas que comentamos ?? que o problema da mat??ria-prima, se assim se pode dizer, poderia estar resolvido de forma generosa e acessível. A simplicidade da tecnologia da reprograma????o, por outra parte, contrasta com as enormes dificuldades da clonagem ??terap??utica?? humana, um facto que s?? a soberba de alguns impede reconhecer. A invers??o copernicana do pai da clonagem, o escoc??s Ian Wilmut, ao decidir lan??ar-se na nova técnica da reprograma????o e abandonar a transferência nuclear na qual ?? um dos maiores peritos, d?? ideia do impacto produzido. (...)

 

Por outro lado, e também sob o ponto de vista biológico - na perspectiva do puro conhecimento b??sico -, a reprograma????o pode converter-se num formid??vel instrumento para desvendar os complexos mecanismos da biologia do desenvolvimento, isto ??, o modo oculto como o projecto impresso no c??digo gen??tico de cada zigoto se desenvolve e vai, pouco a pouco, construindo o edifício da corporeidade. (...) Mediante o modelo da reprograma????o ser?? possível ir definindo melhor o papel de cada um dos genes que participam no processo de desenvolvimento de um embri??o e depois do feto, e o modo como interactuam com os factores epigen??ticos. No final do processo, que ?? dif??cil localizar no tempo, a humanidade dispor?? de um conhecimento suficiente de como a natureza constr??i os corpos.

 

Em suma, se pode ser importante a perspectiva da tecnoci??ncia - a vertente terap??utica voltada para o mercado -, extraordinariamente importante e ainda fascinante pode ser a descoberta dos subtis mecanismos biológicos do princ??pio da vida e da individua????o da pessoa (...).

 

O significado ??tico

 

(...) Eminentes homens da ci??ncia e do pensamento (Jonas, Collins, Habermas, Sandel, Fukuyama, Kass, entre outros) tem-se revoltado face ao cientismo sem alma, cuja ret??rica parece determinar o justo e o injusto, o moral e o imoral na sociedade; também contra a superficialidade dos media no lan??amento das tecnologias biom??dicas - sistematicamente julgadas como ??avan??os?? - e o silêncio, em fim, de muitos face ??s modas ou paradigmas dominantes em algumas pequenas parcelas da ci??ncia.

 

No caso da investiga????o com embri??es, ?? sintom??tico o recurso jur??dico e cientifista ao fossilizado e err??neo conceito de pr??-embri??o, j?? meramente ideológico; ?? suposta autonomia moral radical da ci??ncia e ao relativismo de bom número de bioeticistas de pensamento diminuto e complexo de inferioridade ante o ditame da ci??ncia, sempre reactivo face a qualquer intromissão ou ju??zo que ponha em dúvida os seus postulados. (...)

 

A linha de investiga????o laboriosamente empreendida por Shinya Yamanaka, um modes-to investigador da Universidade de Quioto, que trabalhou antes como cirurgi??o, vem desestabilizar a ideologia do cientismo dominante, do lobby das c??lulas embrion??rias, para o qual - como dissera Watson - aquilo que em ci??ncia se pode fazer, deve fazer-se. Quer dizer, vale tudo, e por suposto vale a investiga????o com embri??es humanos, quer sejam congelados procedentes da FIV, quer criados ad hoc ou mediante clonagem, com o fim exclusivo de investigar com e sobre eles.


Sem destruir embri??es

 

O primeiro dado para a an??lise moral foi destacado pelo próprio Yamanaka numa conferência que deu no clube de correspondentes estrangeiros de T??quio, onde indicou que a sua técnica estava livre de problemas morais relacionados com a destrui????o de embri??es e que poderia ser utilizada, no futuro, no tratamento de doenças como o cancro ou a doença de Parkinson, entre outras. Respondia assim aos interesses utilit??rios t??o dominantes no imagin??rio colectivo da sociedade a respeito dos seus avan??os.

 

Mas a seguir sublinhou o segundo ??mbito da sua preocupa????o moral, algo que j?? hoje se intui: a reprograma????o celular ?? uma ferramenta que potencialmente poderia criar vida humana no laborat??rio; porque dada a simplicidade da tecnologia, esta poderia ser utilizada para ??fazer algo mau?? - disse - e, portanto, via necessário o esfor??o de regulamentar legalmente o que evitaria desvios perigosos para a sociedade. O bom senso deste cirurgi??o convertido em investigador - talvez j?? candidato a Nobel - percebeu-se no audit??rio quando refor??ou que trabalhava para ??curar seres humanos, não ratos??, e que seriam precisos anos de trabalho e de experiências antes de pensar na regenera????o de tecidos humanos.

 

Entrevistado pelo New York Times (11-12-2007), Yamanaka não escondeu o propósito ??tico das suas investigações: ??Quando vi o embri??o [ao microsc??pio], rapidamente me dei conta que havia pouca diferença entre ele e as minhas filhas?? e ??ent??o pensei que não podia permitir-me destruir embri??es para investigar. Tinha que haver outra possibilidade??.

 

Potencial cancer??geno

 

Como sintetizou L??pez Moratalla6, a reprograma????o pode proporcionar uma c??lula pluripotente semelhante ??s embrion??rias, que vai facilitar a investiga????o das suas até agora dificuldades insuper??veis. Poder-se-?? permitir experiências e ensaios sem a hipoteca moral da sua origem até agora equ??voca ; mas pesa sobre ela o mesmo obst??culo que gravita sobre as c??lulas embrion??rias naturais, quer dizer, a incapacidade da ci??ncia controlar o seu poder tumor??geno.

 

Com efeito, as c??lulas som??ticas adultas procedentes das c??lulas-m??e embrion??rias - que chamamos naturais - produzem tumores e a morte de 70 % dos animais de experiência e, o que ?? pior, tanto se se mant??m em cultura como se se incorporam no tecido do paciente podem converter-se em c??lulas-m??e cancer??genas e determinar a sua morte.

 

A ci??ncia não domina ainda o n??cleo desta transformação, e mais, não h?? dados convincentes de que a plasticidade das c??lulas embrion??rias seja capaz de as transformar em c??lulas som??ticas adultas verdadeiramente est??veis e fisiológicas. ?? evidente que se integram na maioria dos tecidos de um embri??o, mas isto não quer dizer que, uma vez ali, sejam capazes de substituir as c??lulas danificadas de um tecido no sujeito adulto. Certos artigos afirmam ter conseguido uma linhagem celular determinada, a partir de c??lulas embrion??rias, com algumas caracter??sticas das adultas, mas outra coisa ?? que sejam capazes de se integrar no órgão, substituindo a fun????o das c??lulas lesadas.

 

As c??lulas embrion??rias ou pseudoembrion??rias de Yamanaka parecem ter superado o problema da rejei????o, a toler??ncia imunológica, pois que a c??lula da pele, no seu caso, ou de qualquer outro tecido no futuro, ?? ou ser?? do doente que vai ser tratado. Esta vantagem inicial identifica-as como um produto melhor, de maior garantia talvez, mas aberto ?? cancerigeniza????o como as anteriores. (...)

 

O risco da manipulação gen??tica

 

As experiências e Yamanaka e Thomson abrem "um mel??o sem o provar", isto ??, d??o lugar ao intu??do mas nunca executado: a possibilidade de manipular os genes no início da vida. Uma tecnologia inicialmente boa, que evita a destrui????o de embri??es e al??m disso neutra, pode desviar, não obstante, para aventuras reprov??veis.

 

Não ?? que a denominada cirurgia gen??tica (dissecar genes patológicos de um embri??o e inseri-lhe um gene s??o) não se tenha tentado desde h?? muitos anos. (...) Mas com semelhante boa inten????o, j?? não se compreender?? a eugenia positiva, isto ??, não j?? a supress??o de um gene daninho para o indiv??duo humano, mas a inclus??o, mediante tecnologia gen??tica, de genes que dotem o embri??o, e logo o adulto humano, de qualidades biológicas desej??veis e insuspeitadas, melhorias genot??picas que alguns cientistas não recusariam, de acordo com as teses da liberdade procriativa dos pais e em directa relação com as previs??es de Huxley na sua obra "Admir??vel Mundo Novo". (...)

 

O impacto do trabalho de Yamanaka e Thomson tem levado muitos a alterar o seu modelo de investiga????o. Pois, reconhecidas as dificuldades quase insuper??veis da chamada ??clonagem terap??utica?? e o fracasso das c??lulas embrion??rias naturais, uma parte da comunidade cient??fica est?? a voltar-se para a reprograma????o gen??tica, que se percebe como um ??mbito de trabalho mais eficiente e rent??vel.

 

Da manipulação gen??tica fica muito - quase tudo - por conhecer. E pode, como outras tecnologias, conduzir-se de uma forma ??tica, respeitadora da dignidade da pessoa, ou de um modo aut??nomo, utilit??rio e irresponsável - ??liberal?? como agora se intitulam alguns -. de um modo ??mau?? como se exprimiu o investigador japon??s. Talvez se tenha posto a primeira pedra para que o lobby das c??lulas embrion??rias perca interesse pela tecnologia ??consumidora de embri??es?? - como a denomina o fil??sofo Habermas7 -, mas talvez se esteja a suportar ?? dist??ncia aquele poder apocal??ptico da ci??ncia de que falava Hans Jonas8 e a que voltou Fukuyama9, a tese de que Huxley tinha raz??o, que a amea??a mais significativa colocada pela biotecnologia estriba na possibilidade de que altere a natureza humana, e, por conseguinte, nos conduza a um est??dio ??p??s-humano?? da história. (...)

 

Não podemos demonizar certamente o avan??o da gen??tica - seria absurdo - , porque pode proporcionar ?? humanidade novos recursos para aliviar a dor e o sofrimento; mas não podemos passar ?? tecnologia um cheque em branco, como vemos na situação em perspectiva.


A falta de vis??o da lei espanhola

 

Nada que não seja ??humano?? pode ser bom neste campo da investiga????o biom??dica. Por isso ?? necessário denunciar o desacerto e a falta de vis??o da recente Lei de Investiga????o Biom??dica, aprovada em Espanha em 2007, e a necessidade de a modificar quanto antes, o que j?? parece dif??cil. Contra o curso dos acontecimentos, a lei abre as portas ?? clonagem terap??utica, inclusivamente permitindo a produção de fetos clonados - moralmente condenada pela Assembleia Geral das Na????es Unidas -, legaliza a doa????o de ??vulos para a experimenta????o e permite o uso de embri??es e fetos para a investiga????o, despenaliza o uso de fetos procedentes de abortos e do aborto selectivo associado ?? pr??tica da reprodução assistida; e onde se afirma, contra a descoberta da reprograma????o celular, o carácter ??imprescind??vel?? da investiga????o com embri??es e c??lulas embrion??rias no ??mbito da terapia celular e da medicina regenerativa10.

 

Manuel de Santiago Corchado ?? o secret??rio-geral da Worldwide Bioethics.

 

  1. Shinya Yamanaka e colaboradores, Cell, vol. 131, 861, 2007.
  2. Shinya Yamanaka e colaboradores, Nature Biotechnology, vol. 26, Janeiro de 2008.
  3. James Thomson e colaboradores, Science, 20 de Dezembro de 2007.
  4. The President's Council on Bioethics, Altemative Sources Of Human Pluripo-tent Stem Cells, 2005.
  5. Manuel de Santiago, Aspectos ??ticos de las c??lulas madre. Cuadernos de Bio??ti-ca, 2006/3.
  6. Nat??lia L??pez Moratalla, Qu?? hay de nuevo sobre las c??lulas troncales? La uto-pia de la "clonaci??n terap??utica", Cuadernos de Bio??tica, n?? 64, 367-385, 2007.
  7. J??rgen Habermas, El futuro de la naturaleza humana, Paid??s, 2002.
  8. Hans Jonas, T??cnica, medicina e ??tica, Paid??s, 1997, e Elprincipio de responsa-bilidad, C??rculo de Leitores, 1994.
  9. Francis Fukuyama, El fin del hombre, Ediciones B, 2002.
  10. Nat??lia L??pez Moratalla (op.cit.) e também o merit??rio trabalho de Juan-Ram??n Lacadena, La ley 14/2007 de Investigaci??n Biom??dica: algunos coment??rios sobre aspectos ??ticos e cient??ficos.