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Dignitas: a falsa dignidade do suic??dio

 Vida Humana
Dignitas: a falsa dignidade do suic??dio

O aparecimento de restos ??sseos no lago de Zurique, na chamada Costa Dourada, causou no ano passado uma certa perturba????o entre as autoridades e os pacatos moradores da zona. Embora a polícia não tenha encontrado sinais evidentes para incriminar ningu??m por esses restos, o Departamento da Recolha de Lixos, ??gua e Energia enviou ?? Dignitas uma comunicação prevenindo-a de que o excesso de res??duos provenientes de cad??veres humanos poderia infringir a normativa ambiental da regi??o. "Os inqu??ritos de opinião costumam mostrar que mais de 60% de cidad??os su????os aprovam o suic??dio assistido para pessoas que sofrem de doenças terminais ou de s??rios impedimentos, mas a aprova????o dissolve-se rapidamente quando o facto se d?? em frente das suas casas", conclui Boyes.

 

Soraya Wernli, antiga secret??ria geral da Dignitas que se demitiu por raz??es ??ticas e económicas, calcula que nos últimos anos tenham ido parar ao lago restos de cerca de 300 clientes da organiza????o. A reportagem do Times Online explica que, depois da morte assistida, a polícia e um m??dico v??o pessoalmente ao local para retirar o v??deo que obrigatoriamente deve gravar os momentos finais do falecido, para confirmar que procedeu por vontade própria; ao mesmo tempo que uma ambul??ncia recolhe o corpo e o translada para o Instituto Forense de Zurique, seguindo imediatamente para o lugar onde se procede ?? crema????o. "S??o os restos não reclamados pela família ou pelos amigos que se julga que a Dignitas retira", precisa o artigo.

 

Dura agonia

 

Segundo o texto, o suic??dio assistido não ?? t??o sereno como parece. No ano passado a Dignitas teve dificuldade em conseguir as doses de 15 gramas de pentobarbital de s??dio que administrava aos seus clientes para obter uma morte rápida, e consequentemente recorreu a inala????es de h??lio. Ao examinar os v??deos dos falecidos por este sistema, a polícia e a fiscaliza????o su????a ficaram impressionadas com a agonia que se prolongava cerca de uma hora entre estertores e espasmos dos pacientes.

 

Por outro lado, e embora a lei su????a exija que quem decide recorrer ao suic??dio assistido deve ter sido visitado pelo menos um par de vezes por um m??dico, Wernli esclarece que nem sempre acontece assim. "Alguns estrangeiros - alem??es e ingleses - podem ter chegado a Zurique de manh??, ser levados ao m??dico e a meio da tarde j?? estarem mortos", relata a ex-dirigente da Dignitas. Al??m disso, o caso do jovem Daniel James, um jogador de rugby de 23 anos que ficou paralisado depois de um acidente, introduziu o precedente de p??r o suic??dio assistido ?? disposição de doentes não terminais.


Um "novo Caronte"

 

A figura de Ludwig Minelli, director da Dignitas, levanta muitas suspeitas que se referem na reportagem de Times Online. Ao contr??rio do que se possa julgar, Minelli não ?? m??dico, mas jornalista e advogado reformado, de 75 anos, que diz não ter fins lucrativos, embora admita gerir a organiza????o com a firmeza de um "benigno ditador".

 

Nem todos afirmam o desinteresse do trabalho de Minelli: Gerhard Fischer, do Partido Evang??lico (uma influente for??a política da Sui??a alem??), declarou que "este assunto ficou fora de controlo. Eu trabalho numa quinta e para dar uma injec????o a um bezerro preciso de fazer primeiro um curso, enquanto nada se exige a quem manda um ser humano para a morte. Tudo se converte num negócio".

 

Boyes sustenta a opinião de que a experiência de Minelli como jornalista lhe tem servido para neutralizar a aten????o dos meios indesejados - e assim, por exemplo, s?? concede entrevistas quando est?? seguro de que não averiguar??o mais do que conv??m -, mas ?? sobretudo a sua per??cia de advogado que o faz contornar os obst??culos legais e mostrar sempre uma apar??ncia de respeito pelas normas.

 

Na realidade a Dignitas não publica números desde 2004, alegando o respeito pela privacidade dos seus clientes e o direito que têm a decidir sobre a sua própria morte. Wernli acusou Minelli de cobrar 3 500 euros a cada suicida, quantia que representa um not??vel lucro em relação aos 5 euros que custa a dose de pentobarbital. No entanto, a reportagem de Boyes não parece atribuir-lhe interesse por enriquecer, e alvitra a tese de que "a retic??ncia de Minelli em relação ?? transpar??ncia com o dinheiro talvez se deva ao desejo de controlar tudo". Boyes apoia-se no testemunho de um m??dico su????o que não identifica e que referiu: "Este homem não actua por dinheiro: ?? por uma questão de poder sobre a vida e a morte. ?? como o m??tico barqueiro da lagoa Est??gia, que transportava pessoas para a outra margem. Como pagavam ao barqueiro? Apenas com uma moeda".

 

Fonte: Times Online