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O último grito em eugenia

 Vida Humana
O último grito em eugenia

Desde o início, a fecunda????o in vitro implicou a selec????o de uns embri??es e a destrui????o de outros. O motivo ?? que a pr??tica habitual foi sempre fecundar vários ??vulos, para aumentar a probabilidade de sucesso, e o próprio procedimento tende a criar embri??es mais d??beis. A verdade ?? que a interven????o artificial favorece a formação de zigotos a partir de g??metas que in vivo teriam menos possibilidades de conseguir a fus??o.

 

A primeira selec????o de embri??es ?? feita atrav??s de exame com o microsc??pio, para destruir os que apresentam aspecto an??malo ou são menos fortes. Mas a eugenia pr??-natal tem vindo a expandir-se gra??as ??s técnicas de an??lise gen??tica. Come??ou-se por eliminar os embri??es portadores de deficiências ou doenças cong??nitas, como a hemofilia ou a doença de Huntington. Depois passou-se para o "beb?? medicamento", escolhido entre os da sua ??poca por ter um perfil gen??tico adequado, para que sirva de dador a um irm??o necessitado de um transplante de medula ou outro tecido. Isto implica destruir os restantes ou pelo menos confin??-los ao congelador, para que ap??s alguns anos tenham o mesmo fim na grande maioria dos casos.

 

O último grito em eugenia in vitro ?? destruir embri??es por terem não uma deficiência cong??nita, mas probabilidade de desenvolverem uma doença na idade adulta. Em Espanha, foram autorizados dois casos, propostos para evitar o nascimento de crianças portadoras de variantes gen??ticas que predisp??em para grandes formas de cancro heredit??rio: da mama e da tir??ide.

 

Compreende-se a ansiedade de famílias que têm um historial de cancro heredit??rio, e qualquer pessoa fica contente em saber que o filho ou a filha j?? não vai sofrer esse risco; mas, ao mesmo tempo, ?? inevit??vel interrogarmo-nos se estes "avan??os" significam apenas um progresso na detec????o e erradica????o dos descendentes com defeitos gen??ticos, mas não na sua cura. Uma vez mais o diagnóstico pr??-natal não tem uma inten????o terap??utica, mas de selec????o. Contudo, se se puderem detectar e eliminar os que são mais suscept??veis de padecer dessa doença, que interesse haver?? em investigar a sua possível cura?

 

E prosseguindo nesta linha, por que não seleccionar também os embri??es que tenham uma probabilidade de 50% de padecer da doença, ou somente de 20%? E se j?? não for um cancro mas diabetes?

 

Diagn??sticos gen??ticos incertos

 

Estar predisposto não ?? a mesma coisa que estar doente, e al??m disso o diagnóstico gen??tico pr??-implantat??rio, muito complexo e caro, nem sempre ?? seguro. ?? para o que advertem tr??s artigos no New England Journal of Medicine de 23-04-2009, que discutem a fiabilidade dos estudos empreendidos para descobrir as variantes do genoma causadoras de doenças.

 

As investigações a que se referem esses artigos comparam os genomas de popula????es s??s com os de outras afectadas por diversos males, para identificar os genes comuns ??s pessoas doentes. Com muito dinheiro e trabalho isso ?? posss??vel, mas não significa que descubram algo ??til para a medicina. A maioria das patologias de componente heredit??ria não obedecem a um s?? gene ou a dois, mas a uma combina????o de muitas muta????es.

 

Por exemplo, h?? mais de 200 tipos de cancro heredit??rio, e aqueles cuja origem se pode associar a genes espec??ficos são 40 e representam apenas 2%-3% dos casos de cancro, diz Miguel Urioste, que na Associa????o Espanhola de Gen??tica Humana preside ?? Comissão de Cancro Heredit??rio (El Pa??s, 23-04-2009).

 

Não h?? indícios de que possa aumentar de modo significativo a percentagem de transtornos provocados por causa gen??tica conhecida. Como dizem os artigos do NEJM, os estudos comparativos de genomas revelam variantes comuns a muitas doenças; mas em quase todos os casos esses traços cromoss??micos significam somente um pequeno acr??scimo do risco, pelo que a raiz gen??tica das patologias correspondentes continua a não ser clara.

 

Um dos artigos defende que, embora essas investigações expliquem pouco da origem das doenças, pelo menos revelam a via biológica pela qual aparecem e assim fornecem pistas para a procura de f??rmacos que a corrijam. Mas outro artigo replica que se os factores gen??ticos envolvidos numa doença são dezenas ou centenas, como se tem vindo a comprovar em muitos casos, essas pistas são in??teis, pois não se pode intervir sobre tantos processos bioqu??micos do organismo.

 

Flannery O'Connor não teria nascido

 

As possibilidades reais do diagnóstico gen??tico não justificam a selec????o de embri??es de modo a afastar a predisposição para doenças como o cancro heredit??rio da mama. Embora este seja um dos tipos de cancroque derivam de genes conhecidos -dois, concretamente-, t??-los nas c??lulas não constitui uma senten??a de morte, mas sim uma probabilidade de 50%-80% de padecer de cancro da mama numa idade relativamente precoce, por volta dos 40 anos. Este cancro representa mais ou menos 5% dos casos de tumores mam??rios, que por sua vez, v??m a constituir cerca de 10% de todos os casos de cancro. Em Espanha, são diagnosticados 160 000 casos de cancro por ano. Se agora fosse feito um diagnóstico gen??tico pr??-implantat??rio sempre que uma mulher com antecedentes familiares desse cancro quisesse ter descend??ncia, no m??ximo evitar-se-iam 800 casos anuais a partir de 2050, ?? custa da destrui????o a partir de hoje de centenas de embri??es por ano (20%-50% dos seleccionados) portadores dos genes em quest??o. Tais embri??es podem não desenvolver o cancro, juntando-se a muitos que não possuindo os genes de predisposição, ter??o sido, mas postos de lado in vitro por serem excedent??rios ou por outras raz??es.

 

Em alguns poucos casos, como p.ex, o que posssui a muta????o que provoca a polipose adenomatosa familiar, tem elevadas probabilidades de desenvolver cancro colorrectal antes dos 45 anos. Mas o facto de algu??m ter uma esperança m??dia de vida de 41 anos ser?? raz??o bastante para não deixar nascer essa pessoa? Flannery O'Connor morreu de l??pus, como seu pai, de quem o herdou; mas em 39 anos de vida deixou relatos memor??veis.

 

Al??m disso, a incerteza ?? insuprim??vel. Seleccionar um embri??o sem predisposição para uma doença que poderia aparecer anos mais tarde, não d?? um certificado para se ficar livre de outros riscos maiores não detectados pelo diagnóstico gen??tico.

 

Em todo o caso, o progresso da medicina consiste em descobrir novos tratamentos e cuidar melhor. A selec????o de embri??es tem de se atribuir mais a outra arte, pois pressup??e que h?? uma recusa de cuidado e de tratamento.


Rafael Serrano