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Eutan??sia

O Direito de Resistir com Dignidade

 Vida Humana
Pela actualidade do tema, reeditamos um artigo publicado na vers??o impressa de Aceprensa em Janeiro de 2007

O caso mais recente, amplamente noticiado por El Pais nos últimos dias, ?? o de Madeleine Z., 69 anos, doente de esclerose lateral amiotr??fica (ELA), que se suicidou a 12 de Janeiro, assistida por dois volunt??rios da associa????o pr??-eutan??sia ???O direito de morrer com dignidade???.

 

A explora????o jornal??stica do caso seguiu o padr??o habitual, visto que a doente j?? estava em contacto com o jornal: notícia, relato da decisão numa reportagem, entrevista, biografia de Madeleine Z., editorial, ronda de perguntas aos partidos políticos e reprimenda ao governo por não tomar a iniciativa de despenalizar a eutan??sia, para assim corresponder a uma exigência social, tida por maiorit??ria.

 

Tamb??m a própria Madeleine garantia que se preparava para fazer aquilo que outros doentes incur??veis desejam p??r em pr??tica. ???H?? muita gente como eu, mas as pessoas não se atrevem a faz??-lo.??? Não se atrevem? Pelo contr??rio, h?? muitos outros que se atrevem a tentar viver dignamente, dentro das suas limita????es.

 

??, pois, significativa a carta que Em??lio Ferreres, presidente da Associa????o Valenciana de Esclerose Lateral Amiotr??fica, enviou ao referido di??rio tr??s dias depois do aproveitamento medi??tico da morte de Madeleine. Ningu??m mais indicado do que outro doente de ELA para dar a sua opinião sobre o caso. ???Estou farto de os her??is serem sempre aqueles que p??em fim ?? vida, e não aqueles que, como eu e muitos outros, se levantam todos os dias e se confrontam com a adversidade que ?? ter esta doença. Sofro do mesmo problema (ELA) que Madeleine, sou jovem, tenho filhos pequenos, tenho ambos os bra??os afectados, e todos os dias me apercebo de que vou perdendo a capacidade de fazer coisas t??o b??sicas como apertar um bot??o ou pegar numa colher.

 

???Contudo, em vez de somar as dores para concluir que a sua vida de doente incur??vel ?? insuport??vel, ???procurei???, afirma, ???rem??dio nas pequenas coisas que continuo a ser capaz de fazer, como receber um beijo dos meus filhos antes de irem para a cama, sentir o perfume da minha mulher, e tantas outras coisas que sei que a doença nunca poder?? tirar-me".

 

???Custa-me???, conclui Ferreres ???que uma incapacidade grave seja ampliada e relacionada com a perda da dignidade para viver. Nesse caso, de que me vale a minha luta de todos os dias? Serei indigno? Ser??o indignos aqueles que decidem viver? Em minha opinião, ?? dever dos meios de informação, para al??m de informar o público de casos lament??veis como o de Madeleine, mostrar igualmente a tenacidade e a esperança de milhares de pessoas com uma depend??ncia grave.???

 

Quando, em 1998, Ram??n Sampedro ??? o tetraplógico que foi, durante anos, o caso emblem??tico do movimento a favor da eutan??sia ??? se suicidou, também se ouviu a voz das associa????es de Doentes Medulares e Grandes Inv??lidos, que publicaram um comunicado em que manifestavam o seu respeito pelas convic????es de Sampedro, mas esclareciam que ???na sua grande maioria, os inv??lidos, não s?? não partilham dessas convic????es, como demonstram uma atitude totalmente contr??ria ao seu pensamento???; a saber, uma atitude ???a favor da vida e da normaliza????o s??cio-familiar das comunidades???.

 

Aos que tinham transformado em bandeira as ideias de Sampedro sobre a morte digna, afirmava o comunicado que ???trata-se de opini??es muito particulares, que de modo nenhum reflectem as percep????es, os sentimentos, as intenções e mesmo os objectivos globais da nossa comunidade.

 

???Nas declara????es de Madeleine, que não sofria de invalidez total, nem nada que se parecesse, detectava-se o desagrado por estar dependente da ajuda de terceiros, que identificava como uma perda da dignidade. Mas, se precisar da ajuda de outros ?? indigno, com que objectivo acaba de ser aprovada uma Lei da Depend??ncia, que confere a qualquer pessoa que não tenha a capacidade de se valer a si mesma o direito a receber assist??ncia pública?

 

Esta lei, aprovada com um ins??lito consenso, ??, ela sim, uma resposta a uma necessidade social, que facilitar?? a vida aos incapacitados e ??s pessoas que deles cuidam. Exige, evidentemente, por parte de todos, um esfor??o mais solid??rio do que o esfor??o necessário para ajudar uma pessoa cansada da vida a suicidar-se.