?? preciso acompanhar o doente terminal e ajud??-lo a aceitar a morte
Uma das especialistas convidadas pelo congresso foi a m??dica Paulina Taboada, internista especializada em medicina paliativa, professora da Pontifícia Universidade Católica do Chile e directora do Centro de Bio??tica da mesma universidade. Na sua exposição defendeu que uma excessiva ??nfase do princ??pio da autonomia do paciente, na tomada de decisões sobre o seu tratamento, conduz a um d??ficit da proximidade e da responsabilidade do m??dico.
Contraria assim uma tendência m??dica muito divulgada, sobretudo no ??mbito anglo-sax??nico, que defende, segundo palavras de Paulina Taboada, ???a capacidade de decidir do paciente e a sua total responsabilidade: o que ele decidir ??, definitivamente, o que se deve fazer???. A m??dica apontou como correcto que ???a responsabilidade última com respeito ?? sa??de e ?? própria vida pertence a cada um, mas para tomar uma decisão responsável em relação aos tratamentos m??dicos ?? necessária informação, e esta habitualmente ?? dada pelo pessoal m??dico???; portanto, conclui que ???para que o paciente possa assumir bem esta responsabilidade necessita que a equipa de sa??de lhe d?? uma informação compreens??vel, completa, adequada ?? sua situação e que, de alguma forma, também inclua um ju??zo moral???.
Di??logo m??dico-paciente
A alternativa proposta pela Dra. Taboada baseia-se no diálogo entre m??dico e paciente para chegar a uma decisão comum sobre o tratamento adequado. Segundo a sua opinião, ???deixar o paciente sozinho na tomada de decisões, dando-lhe unicamente informação ??? por exemplo, estat??sticas ???, e a seguir esperar que opte pelo que quiser, ?? uma forma de abandono do paciente, e uma forma de individualismo???.
Durante a sua interven????o, apresentou também argumentos interessantes relativos ao contexto social que rodeia o paciente, sobretudo nas etapas terminais da doença: ???Quando algu??m sofre são afectadas todas as dimen-s??es e experimenta-se uma certa solidão; h?? algo de incomunic??vel; (???) mas quando uma pessoa se aproxima do final da vida isto multiplica-se, porque aos sofrimentos f??sicos ??? dor, debilidade, n??useas, perda de ima-gem no aspecto corporal ???- junta-se a dor espiritual do aproximar-se do fim da vida e de não saber o que vem depois, como ser?? este fim, se haver?? dor, se estar?? acompanhado ou s?????.
A partir da sua experiência com doentes terminais atrav??s da medicina paliativa, a m??dica sublinhou a import??ncia de ???aprender a ouvir???; e disse que isto ???sup??e também captar os sinais corporais, não s?? as palavras???, pois ???em numerosas ocasi??es os pacientes expressam muito do que estão a viver atrav??s de gestos, desde a posi????o na cama aos gestos das m??os, da cara???.
Paulina Taboada tratou de definir nos justos termos alguns conceitos essenciais no que se refere aos ju??zos ??ticos em relação aos tratamentos, como a distin????o entre meios ordin??rios e extraordin??rios, que nem sempre ?? bem compreendida na comunidade m??dica. Na sua opinião, ???a mentalidade m??dica est?? formada por um pensamento cient??fico-técnico que gosta de respostas concretas e rápidas???; e, contudo, ???para poder responder até onde chegam os tratamentos m??dicos h?? que dar uma opinião ??tica, um ju??zo prudente, que ?? complexo, que necessita de calma e de ter em conta muitos elementos???. Entre esses elementos de ju??zo, a Dra. Taboada referiu-se ?? ???utilidade m??dica do tratamento, quer dizer, a evid??ncia cient??fica que existe de que esse tratamento pode ajudar a esse paciente concreto???.
Tamb??m mencionou como factor a ter em conta na decisão ???as complica????es destes tratamentos, j?? que todos t??m associado algum efeito adverso???. Por último, h?? que ter em conta ???se esse tratamento est?? disponível no lugar em quest??o???. Nesse sentido reconheceu que se trata de ???uma questão complexa em pa??ses pobres, porque nas capitais pode existir e nas localidades mais distantes, n??o???.
Fazer as pazes com a morte
O presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Mons. Elio Sgreccia, encerrou o Congresso com uma conferência em que abordou o delicado momento da comunicação ao paciente do carácter incur??vel da sua doença. Ao tratar dos obst??culos que dificultam ?? sociedade e ao indiv??duo enfrentar-se com a verdade da morte, referiu-se ?? ???seculariza????o da cultura e da sociedade???, ?? ???experiência do bem-estar??? e ao ???aumento da esperança m??dia de vida??? nos pa??ses desenvolvidos. Sob o ponto de vista m??dico, como interlocutor importante do diálogo, referiu-se a um obst??culo importante, ao dizer que com os avan??os clínicos, a morte deixa ???de ser considerada como um acontecimento natural mesmo no ??mbito da medicina, para ser tida como fracasso, limita????o, falta de ??xito???.
A proposta de Sgreccia apoiou-se numa frase: ???com a morte ??? disse ??? temos que fazer as pazes em vida???. Com isto, o presidente da Academia sublinhou que a desorienta????o ao encarar a parte final da vida procede de ???n??o ter em n??s mesmos um conceito de morte que esteja aberto ?? esperança, ao positivo, e, portanto sustentado pelo amor???.
Com este objectivo, sugeriu aos m??dicos que constru??ssem este dif??cil di??-logo sobre o que chamou a verdade global, quer dizer, ???a do valor que têm esses dias, a da esperança que temos em frente, a do momento do encontro com Deus, especialmente se o paciente est?? aberto ?? f??; sen??o, h?? um traba-lho a fazer para orientar, se possível, positivamente, até ao acto final da vida???. Para Sgreccia, nesse momento da morte próxima, deve falar-se não s?? de uma ???verdade clínica???, mas também de ???uma verdade global???.

