Acompanhar o doente e deixar morrer
Marie de Hennezel, conhecida perita no tratamento de doentes terminais, comenta no Le Monde (21-03-2008) que no seu serviço foram atendidas situações limite como essa, que podem ser aplicadas com a lei vigente em Fran??a desde 2005.
Marie Hennezel, psicóloga numa equipa de cuidados paliativos, confessa que no seu serviço atenderam pessoas que sofriam uma degenera????o profunda do rosto, em consequência de cancros, com altera????es t??o deformadoras como as que sofria Chantal S??bire. ???Pessoas que, na sua maior parte, exprimiam o seu desejo de morrer???.
???Experimentamos ent??o o sentimento de que pode ser mais humano aceitar o desejo de morrer de quem não pode mais???. ???Contudo, não pod??amos dar a morte deliberadamente aos nossos pacientes. E não s?? porque não era legal. Porque a nossa missão era ser o mais criativo possível para encontrar solução para as piores situações???.
???Adormec??amos o doente, gra??as a uma anestesia controlada, e anim??vamos os seus entes queridos a acompanh??-lo numa vig??lia cheia de delicadeza. (???) Pois, ainda que não esteja cientificamente provado, muitos exemplos nos t??m convencido que, inclusivamente em coma, a pessoa percebe o afecto dos que o rodeiam, os seus gestos de ternura e as palavras de adeus murmuradas ao ouvido???.
Segundo a experiência de Hennezel, ???esta vig??lia atenta poderia durar alguns dias, mas nunca muito tempo, pois sabe-se que as palavras de amor ditas ao moribundo ajudam-no a partir???. ???Nunca as famílias acharam in??til ou absurdo este tempo. Revezavam-se ?? cabeceira do doente terminal neste último ritual de doa????o que d?? sentido aos momentos finais???.
A psicóloga francesa afirma que este ???deixar morrer??? ?? muito distinto da eutan??sia. ???Ainda que no fim chegue a morte, trata-se de acompanhar e deixar morrer. Alguns acham hip??crita esta resposta. Mas creio que não compreenderam que ao actuar assim permit??amos a uma pessoa que est?? no fim dos seus sofrimentos partir docemente, e não violenta e brutalmente, como acontece quando se injecta ou administra uma po????o mortal. O reconhecimento e a gratid??o dos familiares que tinham dedicado o tempo a acompanh??-la eram a melhor prova disso???.

