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«Climategate»: com erros mas sem deturpações

 Ambiente
Os principais implicados no chamado "Climategate", sobre supostas manipula????es de dados relativos ao aquecimento da Terra, receberam o apoio de tr??s investigações que confirmam a sua honestidade
«Climategate»: com erros mas sem deturpações

Os principais implicados no chamado "Climategate", sobre supostas manipula????es de dados relativos ao aquecimento da Terra, receberam o apoio de tr??s investigações que confirmam a sua honestidade. O último relatório elaborado pelo Painel Intergovernamental de Mudan??as Clim??ticas (IPCC em ingl??s) oferece conclus??es bem fundamentadas. Os investigadores da Climate Research Unit (CRU) da Universidade de East Anglia (Gr??-Bretanha), uma das principais fontes e assessorias do IPCC, não usaram manipula????es. Um insigne colaborador norte-americano da CRU sobre quem também reca??ram suspeitas foi igualmente absolvido. Houve erros e falhas, mas de outra natureza.

 

Os factos que antecedem este caso encontram-se amplamente descritos nos artigos com ele relacionados. Aqui, basta recordar que a correspond??ncia electr??nica retirada da em Novembro passado e publicada na Internet deu lugar a suspeitas de que os investigadores tivessem manipulado ou ocultado dados desfavoráveis ?? tese de que a Terra aquece tendo a actividade humana por principal responsável. Segundo essas mensagens, os principais acusados eram Phil Jones, director da CRU, e Michael Mann, da Universidade Estatal da Pensilv??nia. Foi mais tarde posta em causa a validade do relatório elaborado em 2007 pelo IPCC, por terem sido detectados alguns erros.


Reclama-se maior transpar??ncia

 

O primeiro dos tr??s recentes veredictos refere-se a Michael Mann. A semana passada, uma comissão da sua Universidade concluiu que não havia actuado de modo incorrecto nas comunica????es com os seus colegas brit??nicos. Mann tinha sido investigado e absolvido em relação ?? questão de fundo: se tinha adulterado dados. A nova absolvi????o versa aspectos formais: saber se tinha causado danos ao prest??gio da ci??ncia.

 

Reprova que o IPCC "ponha em evid??ncia as repercuss??es negativas com maior peso nas mudanças clim??ticas". Pelo contr??rio, não tem na devida conta as "incertezas".

 

Posteriormente, uma investiga????o sobre os membros da CRU, publicada a 7 de Julho, declarou não haver indícios de dados manipulados, e que "o rigor e honestidade dos cientistas não oferece dúvidas". A comissão que levou a cabo a investiga????o, presidida por Muir Russell, também não encontra objec????es ?? assessoria que deram ao IPCC, nem fundamento para p??r em causa as conclus??es do relatório deste organismo, em parte baseadas em informações fornecidas pela CRU. Outras revis??es do trabalho da CRU, especialmente uma da Royal Society publicada em Abril, tinham chegado ?? mesma conclusão; mas esta foi mais completa. Depois dela, Phil Jones, que se tinha demitido para facilitar as investigações, foi imediatamente reconduzido no cargo.

 

Por sua vez, o último veredicto aponta algumas falhas na actua????o da CRU, principalmente falta de transpar??ncia, j?? assinalada em pesquisas anteriores e em parte reconhecida pelo próprio Jones. Com efeito, nem Jones nem outros membros da CRU quiseram atender os pedidos de dados em bruto a eles dirigidos por colegas cépticos. A comissão Russell critica a CRU por não ter assim cumprido com a lei da transpar??ncia, que obriga os organismos públicos ou financiados com fundos públicos. Por outro lado, qualifica de enganoso um gr??fico das temperaturas dos últimos s??culos, elaborado pela CRU em 1998 e inclu??do pelo IPCC no seu relatório de 2001.


O IPCC d?? demasiado ??nfase ao negativo

 

Tamb??m apareceu bem colocado o IPCC numa revis??o do seu relatório de 2007, feito pelo Planbureau voor de Leefomgeving (PBL) holand??s, organismo que faz assessoria ao governo em mat??ria de meio ambiente. O IPCC pronunciou-se ent??o com mais segurança que nas anteriores ocasi??es: disse que, perante as observa????es acumuladas e os estudos mais recentes, temos a certeza de estar a assistir a uma altera????o clim??tica, muito provavelmente devida ?? actividade humana.

 

O PBL considera que as conclus??es do relatório estão bem fundamentadas, tanto as gerais como as relativas ??s possíveis repercuss??es das altera????es clim??ticas em diferentes partes do mundo. Somente assinala alguns erros nos dados e pede mais matizes nas previs??es.

 

Os erros, ainda que garrafais, não afectam as principais conclus??es do relatório. Por exemplo, o relatório diagnosticava uma descida de 50-60 % na captura de anchovas na costa da ??frica ocidental; mas a fonte desta informação dizia de facto que tal quebra seria devida ?? frequ??ncia de ventos ciclínicos e de turbul??ncia na ??gua do mar, com efeitos calculados na pesca da anchova. O IPCC corrigiu este e outros erros.

 

O mais interessante ?? o que o PLB diz das previs??es do relatório para as diferentes partes do mundo. Reprova que o IPCC "destaque as repercuss??es negativas com maior peso nas mudanças clim??ticas, não tendo, pelo contr??rio, na devida conta as "incertezas" e as "consequências ben??ficas". Assim, o PBL recomenda que nos relatórios seguintes se dedique um capítulo a esses aspectos.

 

O IPCC não realiza investigações próprias. A missão que lhe foi atribuída pela ONU ?? a de examinar o que se vai averiguando sobre as mudanças clim??ticas para elaborar relatórios destinados aos governos, a fim de lhes fornecer os dados essenciais para tomarem decisões políticas. Nos seus relatórios oferece um resumo muito reduzido da abundante documenta????o a que tem acesso, com o risco consequente de simplificar demasiado. Tendo isto em mente, entende-se melhor o coment??rio de Maarten Hajer, director do PBL: as conclus??es do IPCC sublinham os perigos das mudanças clim??ticas porque "isso era o que os políticos queriam saber". Mas agora "os tempos mudaram", e a opinião pública pede mais pormenores (cfr. The Wall Street Journal, 6-07-2010).

 

Espera-se para Agosto próximo um novo parecer sobre o IPCC, parecer esse que est?? a ser elaborado pelo Inter Academy Council, a pedido do próprio IPCC e da secretaria-geral da ONU. Trata-se neste caso de rever o m??todo de trabalho do IPCC, para comprovar se tem deficiências que possam ocasionar erros.

 

Aceprensa