As contas das altera????es clim??ticas
No seu livro recente A frio1, o ???ecologista céptico???, como ?? conhecido pelo livro que lhe deu fama (ver Aceprensa 130/01), faz as contas e conclui que Quioto ?? uma m?? solução, porque custa demasiado para o pouco que conseguir??.
Lomborg não duvida que as altera????es clim??ticas sejam reais nem que se devam em boa parte ??s emiss??es de CO2 causadas pelo uso de combustíveis f??sseis. Quer que paremos a pensar quais são as melhores solu????es, calculando em cada caso os custos e os benef??cios.
Com este enquadramento, Lomborg vai contra a corrente dominante. ???Na actualidade ??? escreve no pref??cio ???, quem não apoiar as solu????es mais radicais para o aquecimento da Terra ?? considerado um desnaturado irresponsável, talvez um maldito t??tere do lobby petrol??fero???.
Messianismo clim??tico
A raz??o de tal maximalismo ?? que se chegou a atribuir ?? luta contra as altera????es clim??ticas o estatuto das causas mais nobres. Alguns comparam-na com a campanha abolicionista, ou com a resist??ncia a Hitler, como expressamente fez Al Gore no seu discurso no dia em que recebeu o prémio Nobel da Paz. E em consequência, quem discorda ?? comparado aos antigos esclavagistas, o pouco entusiasta ?? um cobarde Chamberlain e fazer reparos a Quioto vem a ser como assinar Munique e consentir a Anschluss.
Uma cita????o de Al Gore ilustra esta forma de ver o assunto: ???A crise clim??tica oferece-nos a ocasi??o de experimentar o que muito poucas gerações ao longo da história t??m tido o privil??gio de conhecer: uma missão geracional; a euforia de um premente empenho moral; uma causa comum e unificadora; a emo????o de estar obrigado pelas circunst??ncias a esquecer a mesquinhez e as rivalidades que tantas vezes afogam a incans??vel necessidade humana de transcend??ncia; a oportunidade de elevar-se ???Quando nos elevarmos, experimentaremos uma epifania ao descobrir que esta crise não tem absolutamente nada a ver com a política: ?? um empreendimento moral e espiritual??? (Uma Verdade Inconveniente, p. 13 no original).
???Amen???, apetece dizer. Pois efectivamente a campanha contra as altera????es clim??ticas est?? a tomar tons messi??nicos.
Quioto ou Armaged??o
Semelhante moralismo sup??e, por um lado, que o perigo ?? enorme: assim pois, não podemos poupar esfor??os; por outro lado, temos ao nosso alcance os meios para o evitar. Em concreto, podemos travar o aquecimento da Terra reduzindo as emiss??es de CO2 segundo o acordado no protocolo de Quioto. Se não o fazemos, vir??o as desgra??as t??o vivamente anunciados no livro e no filme de Gore, e a nossa gera????o, por não cumprir a sua missão planet??ria, ser?? culpada de milhões de mortes, incomensur??veis sofrimen-tos e uma devasta????o ecológica sem precedentes. Temos que escolher entre Quioto e Armaged??o.
Pelo contr??rio, Lomborg assinala que a questão não ?? t??o simples. Primeiro, não est?? claro que as consequências do aquecimento previs??vel venham a ser t??o catastr??ficas. Segundo, antes de tomar uma medida devem calcular-se os seus custos e os seus benef??cios. Pois, diz, sem dúvida não se trata de reduzir as emiss??es ???a qualquer preço???, mas sim de procurar o maior bem possível para os seres humanos e a melhor protecção da natureza com os meios disponíveis, que não são ilimitados.
Não se pode fazer tudo, as altera????es clim??ticas não são a única necessidade que reclama os nossos recursos: também temos que combater a sida, a mal??ria e outras epidemias; assegurar o fornecimento de ??gua pot??vel e saneamento em vastas zonas dos pa??ses em desenvolvimento, onde morrem uns milhões de pessoas por ano por não o ter; reduzir a pobreza extrema, que afecta talvez um sexto da popula????o mundial; escolarizar milhões de crianças???Chegou o momento de pegar na máquina de calcular, não v?? acontecer que Quioto ou outros planos contra as altera????es clim??ticas resultem contraproducentes por acarretar mais custos que benef??cios, ou por consumir recursos que seria mais urgente empregar noutras necessidades.
Visto com o devido realismo, o aquecimento da Terra ?? uma questão económica, pois implica a gestão de recursos limitados, e cai no ??mbito da política, que ?? a arte do possível.
N??meros e mais números
Para fazer os seus cálculos, Lomborg maneja grande quantidade de dados e preocupa-se de justificar com eles as suas afirma????es, como ?? habitual nele. O livro tem 1.116 notas, e a lista de publica????es consultadas ocupa mais de sessenta p??ginas.
Entre tantos números, alguns referem-se a ordens de grandeza dif??ceis de quantificar. H?? que ter em conta, por exemplo, quando Lomborg diz ??? ou melhor, as suas fontes ??? , que cumprir o Protocolo de Quioto teria um custo mundial de mais de 5 bili??es de dólares até 2100.
Mas temos de reconhecer que Lomborg usa as estimativas disponíveis, e que os seus dados não são piores que os de Gore e outros. Em muitos casos, são os mesmos, s?? que acrescenta outros que os contextualizam ou apoiam uma interpreta????o distinta.
O documento no seu contexto
??s vezes, Lomborg p??e objec????es a números puramente err??neos ou exagerados. Por exemplo, no document??rio com que ganhou o ??scar o ano passado, Gore diz que, se não reduzirmos as emiss??es de carbono, o nível dos mares subir?? 20 p??s (6,1 metros) até ao fim do s??culo. Com imagens impressionantes, mostra o que isso suporia: ficaria submerso Miami inteiro junto com grande parte da Florida, a Holanda desaparecia do mapa, no Bangladesh milhões de pessoas teriam de procurar outros lugares para viver.
Isso ?? infundado, explica Lomborg. A estimação m??dia do Grupo Intergovernamental sobre a Mudan??a Clim??tica (IPCC), da ONU, calcula que o nível subir?? 29 cm (hip??tese m??dia, entre uma descida de 18 cm e uma subida de 60 cm). A seguir, Lomborg fornece um dado que permite perce-ber a relev??ncia do anterior: 29 cm ??, mais ou menos, o que subiu o nível dos mares de 1860 até hoje, sem que tenhamos sofrido catástrofes.
O outro factor que Gore não tem em conta ?? que a humanidade não est?? inerme face ??s ondas. S?? cede terreno ao mar se o valor do que perderia fosse inferior ao custo do protegido, ou se não tiver meios de o conservar. Um trabalho citado por Lomborg calcula quantos habitantes de zonas costeiras ser??o afectados pela subida das ??guas em 2080, em fun????o de diferentes vari??veis: com ou sem altera????es clim??ticas, com as mesmas defesas actuais ou com defesas melhoradas, e segundo as quatro hip??teses de crescimento económico que usa o IPCC para calcular as consequências futuras das mudanças clim??ticas.
Se a humanidade não fizer nada, pelo simples crescimento demogr??fico aumentariam os danos ainda que não subissem as temperaturas, e aumentariam muito se se desse a subida prevista. Mas se se melhorarem as defesas contra as inunda????es, ainda que o clima aque??a muito, somente haver?? mais vítimas que agora na pior das hip??teses do desenvolvimento econ??mi-co, porque em tal caso as popula????es em risco não teriam os meios necessários para se proteger melhor.
Contra o aquecimento, desenvolvimento
O que se acaba de dizer vai em apoio de uma tese em que insiste Lomborg: para melhorar a sorte da humanidade necessitamos de mais recursos económicos; seria prejudicial combater as altera????es clim??ticas com medidas que travam o desenvolvimento.
Depois de fazer contas, Lomborg sustenta que o Protocolo de Quioto não ?? uma boa solução. Se se cumprisse, em 2100 o nível dos mares teria aumentado s?? 2 cm menos e a temperatura m??dia teria subido 2,42 graus em vez de 2,6. E t??o pequeno proveito ter-se-ia obtido a um custo elevad??ssimo. Quioto, ent??o, deixaria a humanidade com menos possibilidades de se defender contra as consequências negativas das altera????es clim??ticas e das demais mis??rias da vida.
Os mais prejudicados seriam, naturalmente, os pa??ses mais pobres. Como observa Lomborg, uma determinada subida do PIB, que para os habitantes de uma na????o industrializada significa s?? um aumento irrelevante da riqueza, para os de um pa??s em desenvolvimento pode ser uma melhoria crucial em alimenta????o, saneamento, cuidados m??dicos, escolariza????o das crianças??? e outros bens b??sicos que para os ricos são um dado adquirido.
Os benef??cios de Quioto estariam também mal repartidos, porque seriam muito demorados. Quando os problemas que vai causar o aquecimento da Terra se notarem efectivamente, por volta de 2100, a popula????o mundial ter?? mais recursos que agora. ?? costume dizer que os pa??ses desenvolvidos estão especialmente obrigados a reduzir as suas emiss??es de carbono porque as consequências do seu desperd??cio actual, ser??o piores para os pa??ses pobres, que hoje, pelo contr??rio, não desfrutam dessa abund??ncia. Mas, observa Lomborg, dessa maneira, ???tentamos ajudar as gerações de um futuro long??nquo, que ser??o muito mais ricas???, enquanto fazemos pouco pelos pobres de hoje.
Antes Doha que Quioto
Da?? as conclus??es do chamado Consenso de Copenhaga, os estudos promovidos por Lomborg sobre as prioridades da ajuda ao desenvolvimento. Pediu-se a destacadas comiss??es de economistas ??? entre os quais, quatro prémios Nobel ??? e a embaixadores na ONU que fizessem uma lista das principais necessidades da humanidade e pensassem por que ordem teriam de actuar, segundo a sua urg??ncia e as possibilidades reais de alivi??-las. Ambos os grupos chegaram a resultados muito parecidos.
?? cabe??a das listas figuram as ac????es de ???maior rendimento???: aquelas que fazem mais por remediar uma necessidade muito grave com menor custo relativo. Segundo estes critérios, a prioridade número 1 ?? a luta contra as doenças infecciosas que mais matam, come??ando pela sida e a mal??ria. Por exemplo, com os meios actualmente disponíveis poder-se-ia baixar para metade a taxa de infec????es de mal??ria e reduzir 72 % a mortalidade em crianças com menos de 5 anos, por um custo de 13.000 milhões de dólares.
Em segundo lugar, a m?? nutri????o, que contribui com mais de 2 milhões de mortes por ano e deixa sequelas em muitas pessoas, poder-se-ia reduzir para metade com 12.000 milhões de dólares bem gastos. A outra prioridade urgente ?? eliminar os subs??dios agr??colas dos pa??ses ricos, o que acarretaria um benef??cio de 2,4 bili??es de dólares anuais, a metade para o mundo em desenvolvimento: muito mais que o custo dos subs??dios.
No fundo de ambas as listas aparecem as medidas contra as altera????es cli-m??ticas: estabelecer um imposto elevado sobre as emiss??es de carbono (25 dólares ou mais por tonelada) e cumprir o protocolo de Quioto. Neste caso, o rendimento ?? negativo, segundo os modelos utilizados pelo Consenso: enquanto nas prioridades mais elevadas se obt??m de 10 a 40 dólares de benef??cios sociais por cada dólar investido, a redu????o de emiss??es custaria 180.000 milhões anuais e o seu retorno seria de 52.000 milhões.
Que outros problemas tenham prioridade não significa, para Lomborg, que não haja que fazer nada quanto ??s altera????es clim??ticas, mas sim que devemos procurar a interven????o justa: mais vale uma medida modesta, mas eficiente, que outra ambiciosa e de rendimento negativo, como o Protocolo de Quioto.
(1) Bjorn Lomborg. En frio. Guia del ecologista escéptico para el cambio clim??tico. Espasa. Madrid (2008). 252 p??gs. 19,90 ???. T. o: Cool lt. The Skeptical Environmentalist???s Guide to Global Warming. Tradu????o: Jes??s Fabregat.
Que se pode fazer
Lomborg prop??e duas solu????es em vez de Quioto. A primeira ?? aplicar ao carbono um imposto moderado, especificamente dirigido a compen-sar o preju??zo causado pelas ??kiss??es. Depois de rever os diferentes cálculos deste ano, Lomborg conclui que o imposto deveria estar entre 2 e 14 dólares por tonelada (muito menos que os 85 dólares que aponta o relatório Stens). Se se subir pouco a pouco desde o m??nimo até ao m??ximo durante o s??culo, pode esperar-se que as emiss??es baixem 5 % no princ??pio e até 10 % em 2100. Se assim sucedesse, resultaria melhor que Quioto, que prev?? uma redu????o de 0,4 % em 2010.
A segunda ideia ?? aumentar os investimentos em investiga????o e desenvolvimento das energias renov??veis e efici??ncia energ??tica, que estão no seu nível mais baixo dos últimos 25 anos. O melhor, diz Lomborg, seria que todos os pa??ses se comprometessem a gastar uma parte fixa do PIB, 0,05 % , e assim o Primeiro Mundo assumiria a maior parte dos custos. Novas formas, ainda não inventadas, de produzir energia com menos emiss??es de CO2 a custo competitivo reportariam benef??cios impossíveis de calcular. Em todo o caso, o gasto que prop??e Lomborg somaria actualmente uns 25.000 milhões de dólares anuais, muito menos que Quioto.
Rafael Serrano
(2) Bjorn Lomborg. En frio. Guia del ecologista escéptico para el cambio clim??tico. Espasa. Madrid (2008). 252 p??gs. 19,90 ???. T. o: Cool lt. The Skeptical Environmentalist???s Guide to Global Warming. Tradu????o: Jes??s Fabregat.

