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A clonagem passa a segundo plano

As c??lulas-m??e induzidas estão mais perto de poder curar

 Ética Médica e Científica
As c??lulas-m??e induzidas estão mais perto de poder curar

As c??lulas-m??e adultas são multipotentes: cada tipo pode dar lugar a c??lulas de determinados tecidos. Por sua vez, as c??lulas m??e embrion??rias são pluripotentes, pois podem diferenciar-se em c??lulas de qualquer tecido do organismo.

 

H?? dois anos, o cientista japon??s Shinya Yamanaka descobriu que se podem reprogramar c??lulas adultas convertendo-as em pluripotentes, e obter assim c??lulas m??e t??o vers??teis como as embrion??rias, mas sem empregar e destruir embri??es, e com o mesmo genoma do paciente, sem necessidade de clonagem (cfr. Aceprensa, 13-06-2007, Na vers??o impressa). As novas c??lulas m??e pluripotentes induzidas (iPS) combinam o melhor dos dois tipos até ent??o conhecidos.

 

Promessa e riscos

 

Encontrou-se um modo obter c??lulas m??e reprogramadas sem necessidade de enxertar genes nas c??lulas de origem, o que poderia torn??-las seguras e aptas para uso clínico.

 

Ora bem, o procedimento idealizado por Yamanaka implica riscos que impedem por agora o uso terap??utico das c??lulas iPS. As c??lulas reprogramam-se enxertando no seu ADN (o material que constitui o genoma) quatro genes, descobertos pelo investigador japon??s, que as convertem em pluripotentes; para os introduzir usam-se retrov??rus. As iPS ficam contaminadas pelo ADN v??rico, o que as torna perigosas. Em particular, tendem -tal como as embrion??rias- a dividir-se de modo descontrolado: dito de outro modo, a gerar tumores.

 

Por isso se come??ou a procurar outros m??todos de reprogramar que evitassem a contamina????o gen??tica. Investigadores do Canad?? e da Gr??-Bretanha conseguiram enxertar os genes necessários sem utilizar v??rus: o vector era uma cassette (fragmento de ADN) com um gene adicional para provocar a inser????o (cfr. Aceprensa, 2-03-09). O passo seguinte, retirar das iPS a cassette para que nelas não ficasse ADN estranho, s?? se conseguiu, por??m, em c??lulas de ratos, não em c??lulas humanas.

 

"Estudar doenças heredit??rias com c??lulas obtidas por reprograma????o ?? muito mais simples e rápido que obter c??lulas embrion??rias humanas por clonagem" (Ian Wilmut)

 

Depois disto, ensaiou-se um m??todo com o qual se eliminam quase por completo os restos de ADN v??rico. Mais recentemente houve uma conquista ainda mais importante: encontrou-se uma maneira de reprogramar c??lulas sem empregar genes -nem v??rus para introduzir nelas- , o que poderia tornar as iPS totalmenteseguras. Tamb??m se conseguiu obter directamente c??lulas de um tipo a partir de outras distintas, sem as converter primeiro em c??lulas m??e, e empregaram-se com ??xito c??lulas iPS depois de nelas corrigir o defeito gen??tico que causa a anemia de Fanconi. Todos estes avan??os se podem ver com mais pormenor na segunda parte do artigo.

 

As adultas continuam ?? frente

 

Tais resultados são muito promissores, mas todos foram obtidos somente em experiências com animais de laborat??rio. Isto lembra-nos o que ??s vezes se diz por gra??a: que para quase todas as nossas doenças haveria rem??dio se f??ssemos ratos. Na verdade, os modelos animais são necessários para ensaiar terapias, mas muitos ??xitos neles alcançados nunca chegam a funcionar nos seres humanos.

 

Em medicina regenerativa, as c??lulas-m??e adultas continuam a ser as ??nicas com utilidade m??dica. Embora ainda não tenha decorrido tempo suficiente para garantir a segurança da efic??cia a longo prazo das terapias aplicadas, com estas c??lulas conseguiu-se reparar diferentes tecidos (card??aco, muscular, de c??rnea...). Est??o a decorrer numerosos ensaios clínicos, dos quais mal se fala fora dos meios cient??ficos, porque j?? constituem mais rotina do que novidade.

 

Um indício quantitativo da investiga????o em c??lulas m??e adultas pode ser obtido no portal ClinicalTrials.gov, um registo de ensaios clínicos mantido pelos National Institutes of Health (Estados Unidos), em que se inscrevem experiências de todo o mundo, não s?? as financiados pelos NIH. A 17-06-2009 inclu??a 74.541 ensaios em 167 pa??ses. Os relativos a c??lulas m??e eram 2.446, quase todos com c??lulas de diferentes tipos; com sangue do cord??o umbilical, a busca do site d?? 144 ensaios, e com c??lulas embrion??rias humanas, s?? 7.

 

Um exemplo recente, com resultado feliz, de utiliza????o de c??lulas m??e adultas foi dado a conhecer recentemente pelo Hospital Vall d'Hebron (Barcelona). Em Fevereiro passado, foram a?? intervencionadas duas crianças com o s??ndroma de Parry-Romberg, que causa uma grave deformação do rosto e que pode chegar a afectar o sistema nervoso até provocar convuls??es ou afectar a sensibilidade e a fala.

 

Os m??dicos do Hospital Vall d'Hebron extra??ram c??lulas m??e do tecido adiposo dos próprios pacientes e implantaram-nas na parte doente. As c??lulas come??aram a actuar preenchendo as zonas atrofiadas, aumentando a vasculariza????o e libertando hormonas e factores de crescimento que prolongam o processo reparador. Ao fim de tr??s meses, as crianças recuperaram em grande parte o aspecto normal. O resultado ?? muito melhor -e o processo mais simples- que com a terapia comum até agora: cirurgia pl??stica com implantes de materiais biológicos1.


A clonagem fica para tr??s, diz o pioneiro Wilmut

 

Ora bem, as c??lulas- m??e adultas nunca ser??o pluripotentes: não se poder??o diferenciar mais do que num cat??logo limitado de c??lulas som??ticas. As iPS prometem total plasticidade, como as embrion??rias, e manej??-las ?? fact??vel, ao contr??rio daquelas. Por isso, Ian Wilmut, o criador da ovelha Dolly, quando se publicou a descoberta de Yamanaka anunciou que abandonava a investiga????o em clonagem e c??lulas embrion??rias (cfr. Aceprensa, 28-11-2007, na vers??o impressa). Numa entrevista para o portal G??ne-??tique, da Fondation J??r??me Lejeune, explica a sua decisão e a situação actual dos trabalhos com c??lulas iPS2."A técnica da clonagem j?? não ?? actual", diz o pioneiro da clonagem de mam??feros. "Antes da descoberta das c??lulas iPS, procur??vamos fazer derivar c??lulas-m??e a partir de embri??es produzidos transferindo um n??cleo celular de um doente com uma doença heredit??ria. At?? hoje ningu??m o conseguiu, mas a des-diferencia????o de c??lulas som??ticas de rato (m??todo do Prof. Yamanaka) demonstrou que se pode alcançar o mesmo objectivo usando directamente c??lulas som??ticas dos doentes".

 

As c??lulas iPS, acrescenta Wilmut, são melhores do ponto de vista terap??utico: t??m o mesmo genoma do paciente, permitem fazer modelos experimentais para estudar patologias, e, portanto, facilitam desenvolver com mais rapidez medicamentos contra elas. Por outro lado, "como comprovei com a ovelha Dolly, clonar exige um tempo consider??vel até obter c??lulas m??e. Al??m disso, esta técnica implica necessariamente submeter a mulher a estimula????o ov??rica, mediante um tratamento hormonal intensivo e penoso, para produzir grande número de ov??citos e no final não obter mais do que alguns embri??es clínicos" Por isso, conclui Wilmut: "Se a ci??ncia oferece vias mais rápidas, interessantes e eficazes, creio que ?? melhor segui-las".

 

Não ?? necessário utilizar embri??es humanos

 

Em defesa da investiga????o com embri??es humanos, alguns dizem que sem ela não se teria podido chegar ?? descoberta de Yamanaka, e por isso se deve continu??-la, porque pelo menos pode voltar a abrir novas vias. Wilmut não est?? de acordo: "A des-diferencia????o de c??lulas som??ticas não precisou do uso de embri??es humanos, porque, do ponto de vista técnico, não era necessário. As primeiras c??lulas iPS foram produzidas e identificadas a partir de estudos com embri??es de rato".

 

Wilmut sublinha, al??m disso: "H?? quem ainda se não tenha dado conta de que estudar doenças heredit??rias com c??lulas obtidas por reprograma????o celular ?? muito mais simples e rápido do que obter c??lulas embrion??rias humanas atrav??s de clonagem". Actualmente essa ?? a técnica "mais eficaz", sobretudo para investigar patologias heredit??rias.

 

Se se trata de desenvolver medicamentos, também as c??lulas iPS são mais úteis do que as embrion??rias. Com efeito, "se se tomam as c??lulas reprogramadas de um doente com uma enfermidade heredit??ria que se pretende estudar, a vantagem ?? que essas c??lulas j?? possuem as caracter??sticas de uma pessoa afectada. Não ?? necessário introduzir um erro gen??tico". E isto ?? decisivo no caso de muitas patologias cong??nitas das quais não se conhece a causa molecular.

 

De todas as formas, acrescenta, h?? investigações com c??lulas embrion??rias humanas com as quais se pretende compreender melhor como proliferam e como se pode cultiv??-las, porque as c??lulas iPS t??m caracter??sticas parecidas.

 

As c??lulas iPS apresentar??o todas as suas grandes possibilidades, diz Wilmut, quando se tiver encontrado uma técnica de reprograma????o sem efeitos secundários, que não utilize v??rus nem pl??smidos (fragmentos de ADN capazes de replicar-se e transcrever-se), como em algumas experiências abaixo descritas. Ent??o poder-se-?? oferecer terapias personalizadas, segundo as necessidades de cada paciente. Não porque se criem bancos com c??lulas iPS para cada um, coisa que Wilmut não considera fact??vel por raz??es económicas. Poderia, no entanto, haver um registo de linhas celulares correspondentes a diferentes patologias, das quais partir para realizar trabalhos adaptados a cada doente.


Aceprensa

 

Notas

 

1. Boletim Vall d'Hebron informa, 12-06-2009

 

2. "Les recherches sur l??embryon et le clonage sont-elles encore n??cessaires apr??s la d??couverte des c??lules iPS?", Intervew du professeur Ian Wilmut, G??ne-??tique, Tribune mensuelle, Mai 2009.