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A bact??ria concebida por um computador

 Ética Médica e Científica
Embora o feito de Craig Venter em criar um microorganismo sint??tico seja impressionante, não ??, de todo, tremendo
A bact??ria concebida por um computador
Foi, sem sombra de dúvida, um feito impressionante da tecnologia. Tal como foi reportado na revista Science, os investigadores do J. Craig Venter Institute reuniram cuidadosamente o genoma de uma espécie de bact??ria e inseriram-no numa outra c??lula. A c??lula criada come??ou a funcionar, dividindo-se e crescendo como uma c??lula natural.

O organismo sint??tico Mycoplasma mycoides JCVI-syn 1.0 - tal como Venter o baptizou - ?? mais um passo para a cria????o de formas de vida feitas sob medida para a indústria. Agora que os seus cientistas podem "escrever repetidamente o software da vida", Venter espera criar novos produtos biológicos úteis ?? sintetiza????o de combustíveis, limpeza da ??gua, descoberta de novas vacinas e medicamentos e assim por diante. Venter espera que os microorganismos sint??ticos sejam capazes de produzir biocombustíveis a partir de algas, por exemplo, permitindo-nos acabar com a nossa depend??ncia dos combustíveis f??sseis. A nível comercial, a biologia sint??tica poderia ser a próxima grande inven????o depois das tecnologias de informação e da Internet.

O próximo objectivo da empresa ?? criar um chassis celular b??sico apenas com a maquinaria biológica essencial ?? vida independente. A ideia ser?? reduzir as esferas de ADN n??o-essenciais do genoma sint??tico, até que esteja o mais reduzido possível para sustentar vida. O resultado ser?? "uma nova vis??o das c??lulas como máquinas normais compostas por partes biológicas com fun????es conhecidas".

As novas vis??es deixam sempre os nervos em franja. Lembra-se dos Raelianos? Est??o nas nuvens com o feito de Venter. Esta estranha seita, que acredita que a vida na Terra foi criada por cientistas extraterrestes, apostou seriamente - se bem que, em v??o - na clonagem de um ser humano. O porta-voz declarou que "a cria????o da primeira c??lula controlada por um genoma sint??tico... mostra ao mundo todo que a vida não ?? o dom misterioso de um deus hipot??tico".

Isto foi estranho, mas até mesmo alguns respeit??veis bioeticistas interpretaram a ambiciosa vis??o de Venter como um momento "Deus est?? morto". Julian Savulescu, da Universidade de Oxford, declarou entusiasticamente que Venter se estava a tornar "um deus, criando vida artificial que nunca poderia ter existido naturalmente, criando vida a partir do solo, usando meros blocos de construção". Por seu turno, Arthur Caplan, o bioeticista mais conhecido dos E.U.A., equiparou-o a Darwin e a Cop??rnico. Segundo o mesmo, "a realiza????o de Venter parece extinguir o argumento de que a vida exige uma for??a ou pot??ncia especiais para existir", sendo que, na sua opinião, "isso faz com que esta seja uma das conquistas cient??ficas mais importantes na história da humanidade".

A s??rio?


Um estudo levado a cabo pela imprensa d?? a impress??o de que h?? mais leigos do que cientistas a atirar foguetes: quanto mais próximo se est?? da bancada do laborat??rio, mais cépticos são os coment??rios. Apesar de Venter ser um excelente cientista que compartilhou os louros da descoberta da primeira sequência do genoma humano, os colegas descrevem-no como um astuto gabarola e empres??rio brilhante que gosta de rotular conquistas fundamentadas como descobertas hist??ricas. Desta vez, um dos seus truques para os media consistia em inserir "marcas de ??gua" no genoma, com os nomes dos membros da equipa, cita????es favoritas e uma URL codificada no ADN.

Portanto, de acordo com muitos bi??logos, foi um grande feito tecnológico, mas não um avan??o cient??fico para a ??poca. George Church, da Universidade de Harvard, afirmou ?? revista Nature que "a micobact??ria semi-sint??tica não ?? alterada a partir do estado selvagem, seja em que aspecto for. Imprimir uma c??pia de um texto antigo não ?? a mesma coisa que compreender a l??ngua". Fussenegger Martin, da ETH Zurich, na Su????a, vai mais longe, ao afirmar que "desde o seu aparecimento no planeta, a humanidade raramente criou algo de novo. Em vez disso, as pessoas recorrem a materiais que j?? existem e produzem dispositivos cada vez mais complexos. Esta nova tecnologia vai simplesmente aumentar a velocidade com que os novos organismos podem ser gerados".

David McConnell, um geneticista irland??s do Trinity College de Dublin foi contundente: os m??todos de Venter são complexos, mas não muito interessantes: "?? uma tolice cient??fica. Não existem novas questões ??ticas... Em termos cient??ficos não aprendemos nada de novo".

E quanto ??s questões ??ticas? Venter sabia que seus planos ambiciosos seriam controversos e, por esse motivo, h?? anos que tem vindo a preparar uma aterragem suave para seus projetos de altos voos. No ano passado chegou um relatório - financiado pelo próprio Venter - do Hastings Center, em Nova Iorque, que previa dois potenciais tipos de dano emergentes da biologia sint??tica.

Primeiro, existem os danos f??sicos do erro e do terrorismo biológicos. Os ambientalistas temem que novos v??rus possam escapar dos laborat??rios e destruir ecologias. Os especialistas em segurança temem que os terroristas possam criar micr??bios com o intuito de propagar doenças letais. Por??m, de certa forma, estes riscos são facilmente controlados, gra??as ?? abund??ncia de experiências sobre como controlar e regular tecnologias perigosas.

A empresa de Venter afirma que j?? foram tomadas medidas de segurança: os microrganismos ser??o projetados de modo a que não possam sobreviver fora do laborat??rio ou em outros ambientes de produção e se, porventura, algum deles escapar, ser??o activados os "genes suicidas".

Ainda assim, h?? margem para um feroz debate para decidir se ?? necessário regulamenta????o governamental ou se basta apenas um c??digo volunt??rio de ética sobre biologia sint??tica.

Por outro lado, ser?? menos f??cil lidar com os danos n??o-f??sicos, decorrentes da sua vangl??ria de que est?? a criar vida - os medos das tecnologias de Frankenstein, desordenando a ordem natural e cientistas a "brincar de Deus". H?? cientistas e bioeticistas que desvalorizam tais questões e as definem como preconceitos religiosos at??vicos ou histeria irracional. Todavia, o Hastings Center discorda: "muitos cr??ticos preocuparam-se com o facto de esta segunda classe de danos n??o-f??sicos ser racional e não professam qualquer religi??o".

Ali??s, dois bioeticistas alem??es indicaram h?? uns anos, na revista Nature Biotechnology que, se come??armos a criar formas de vida inferiores e a encar??-las como simples blocos de construção ou "artefatos", ent??o "poderemos, num futuro (muito) long??nquo caminhar para um enfraquecimento do respeito da sociedade por formas superiores de vida". Existe um s??rio perigo de que o nosso respeito duramente conquistado pela vida animal e até mesmo pela vida humana acabe por ser comprometido.

Rea????es como a de Savulescu e a de Caplan, j?? para não falar da dos raelianos, sugerem que alguns cientistas e bioeticistas acham, efectivamente, que a construção de um genoma artificial ?? epocal - precisamente porque confirma a sua convic????o de que todas as formas de vida, e não apenas a Mycoplasma mycoides, são apenas "complexos dispositivos qu??micos" e de que não h?? qualquer diferença significativa entre os seres animados e inanimados. O an??ncio de Venter pode, ou n??o, ser a salva de abertura de uma revolução cient??fica. Isso certamente abre um novo capítulo no drama de saber se o homem ?? o senhor ou o servo da tecnologia.

Michael Cook

editor do MercatorNet

Tradu????o de Isabel Costa