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A guerra ??s gorduras trans

 Medicina
A Califórnia ?? o primeiro estado americano a pro??bi-las nos restaurantes para lutar contra a obesidade
A guerra ??s gorduras trans

O governador Arnold Schwarzenegger mostrou-se muito satisfeito por o seu Estado ser o primeiro a declarar guerra ??s gorduras trans. Na realidade, os efeitos dos ??cidos gordos insaturados sobre a popula????o californiana são alarmantes. Por exemplo, o sul de Los Angeles, a maior cidade da Califórnia, concentra a maior percentagem de restaurantes de comida rápida (45% face aos 16% da cidade) e o ??ndice mais elevado de obesidade infantil (cerca de 29%). Por isso, a c??mara municipal proibiu também no m??s passado e na mesma zona a abertura de novos estabelecimentos deste tipo, medida que poderia ser prolongada por mais um ano.

 

A Califórnia ?? o primeiro estado a proibir estas gorduras em restaurantes, mas segue o exemplo de outras cidades norte-americanas como Nova Iorque, Filad??lfia e Seattle. A questão converteu-se num dos interesses do governador-actor que no ano passado j?? proibiu o seu uso na prepara????o de comidas para escolas.

 

Schwarzenegger não ?? o ??nico a preocupar-se com o problema. Desde Mar??o de 2004, a ag??ncia reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (FDA) exige aos fabricantes de alimentos que todos os r??tulos nutricionais contenham informação sobre a presen??a de gorduras "trans" em qualquer produto, ?? semelhança do Canad??. Existe até um movimento popular contra como na campanha inglesa, Ban Trans Fats, que insta a popula????o a excluir estes l??pidos das despensas.

 

Na Europa, uma questão de r??tulos

 

O governo dinamarqu??s foi o primeiro da Europa a não aceitar os ??cidos gordos "trans" ao aprovar em 2004 uma lei que pro??bia a presen??a de mais de 2% deste l??pido em qualquer alimento. A Su????a também deu luz verde a uma medida similar, depois de publicado um estudo que demonstrava que mais de um ter??o de 120 produtos analisados continha uma percentagem excessiva de "trans". Na Isl??ndia e na Finl??ndia houve uma redu????o do consumo devido ?? decisão de muitos produtores de diminuir a presen??a destas gorduras nos seus artigos. No entanto, noutros pa??ses a questão não parece priorit??ria e, para alguns especialistas, torna-se necessária uma legisla????o a nível europeu que regule pelo menos a rotulagem. Mas ainda não h?? unanimidade.

 

O certo ?? que o tema ?? objecto de debate da Comissão Europeia que pretende desenvolver uma política favorável ?? diminui????o na ingestão de nutrientes que impliquem um risco para a sa??de cardiovascular, sobretudo das gorduras saturadas e trans.

 

Na Espanha, a estratégia NAOS do Minist??rio da Sa??de e Consumo para combater a obesidade procura reduzir a presen??a destas gorduras nos produtos alimentares, atrav??s de um conv??nio assinado por esta entidade com a indústria alimentar e as empresas de restaura????o, mas ainda não existe uma regula????o, ainda que exista uma normativa mais rigorosa da rotulagem nacional. Por exemplo, a maioria das margarinas j?? não se fabricam a partir destas gorduras, mas na realidade não existe nenhuma obriga????o de cumprimento deste compromisso.


O que são as gorduras trans?

 

S??o uma espécie de ??cido gordo insaturado que se encontra basicamente nos alimentos industrializados submetidos a um processo de hidrogena????o e que aumenta os níveis de lipoprote??nas de baixa densidade (LDL) no sangue e simultaneamente diminuem as lipoprote??nas de alta densidade (HDL, o que chamamos de "bom colesterol"), provocando um maior risco de doenças cardiovasculares.

 

As gorduras trans preocupantes são o resultado da manipulação industrial de certas gorduras vegetais mediante hidrogena????o, um processo que se implantou nos princ??pios do s??culo XX mas s?? se tornou popular nos anos 60 como substituto das gorduras saturadas animais que, em excesso, tinham um efeito nocivo para a sa??de. Desta forma, obt??m-se, de maneira simples e económica, ??leos muito úteis para a indústria alimentar que melhoram o sabor, a textura e a dura????o dos produtos.

 

Segundo os especialistas, estes ??cidos gordos parecem aumentar o risco de doenças cardiovasculares, assim como o cancro e a diabetes tipo II.

 

Em finais de Julho de 2006, a revista The New England Journal of Medicine conclu??a num estudo sobre o tema que estes l??pidos aumentam o nível de LDL, "o mau colesterol", diminuem a presen??a do HDL, "o bom", favorecem a aterosclerose e aumentam o risco cardiosvascular. "O consumo de gorduras saturadas implica um mal potencial consider??vel e, no entanto, nenhum benef??cio aparente", afirmam os autores do relatório.

 

A publica????o deste estudo provocou uma onda de reac????es. Quatro grandes supermercados brit??nicos comprometeram-se a retirar os ??cidos gordos "trans" dos seus produtos e, pouco depois, empresas como a Kellogg's, a Nestl?? ou a Cadbury Schweppes anunciaram a sua inten????o de reduzir ou retirar por completo estes l??pidos dos seus artigos.

 

Desinformação e confus??o

 

Sob a denomina????o de "gordura vegetal hidrogenada" que aparece nos r??tulos espanh??is escondem-se as gorduras "trans". Mas segundo especialistas como Raquel Bernacer, nutricionista da Unilever, empresa responsável de várias marcas alimentares, como Flora ou Knorr, isso não significa necessariamente que tenha ??cidos gordos prejudiciais, j?? que se se leva a cabo uma hidrogena????o completa das gorduras vegetais, estas tornam-se saturadas e não se produzem gorduras "trans". Assim sendo, s?? quando lemos "gorduras parcialmente hidrogenadas" devemos entender que cont??m gorduras trans.

 

Segundo a Funda????o Espanhola de Nutri????o (FEN) "?? muito complicado fazer entender ?? popula????o o que são exactamente as gorduras ???trans', como se produzem, e por que são prejudiciais, e sem criar um alarme geral. Al??m disso, a ingestão destas gorduras pela popula????o europeia ?? bastante menor que a de gorduras saturadas: entre 0,5% e 2% da dose di??ria nutricional, face a 10,5-18% de gorduras saturadas, segundo a Ag??ncia Europeia de Seguran??a Alimentar. O problema, com efeito, não est?? no consumo ocasional mas sim no abuso de produtos que contenham este tipo de gorduras".


Um problema "muito gordo"*

 

A questão est?? na quantidade. Segundo a sondagem nacional de sa??de (ENS) de 2006, 37,8% dos espanh??is maiores de 17 anos t??m excesso de peso e 15,6% são obesos. A obesidade infantil, fenómeno desconhecido nas nossas sociedades até h?? poucos anos, j?? ?? um grave problema de sa??de pública que est?? a obrigar os governos a tomarem medidas. A ENS de 2006 revela que 8,9% das crianças e adolescentes do pa??s vizinho são obesos. O problema da obesidade est?? em comer mais do que precisamos durante longos per??odos de tempo.

 

Dos pa??ses da Uni??o Europeia, a Espanha ?? dos que têm mais obesidade infantil, a par da It??lia, Malta e Gr??cia. E no pa??s vizinho, o número de crianças que sofre de excesso de peso ou obesidade ?? maior no sul (Andaluzia, M??rcia e Ilhas Can??rias), nas zonas rurais e entre a popula????o com um menor nível educativo e de rendimentos mais baixos.

 

Na Califórnia, a obesidade ?? também um problema infantil. Durante o m??s de Agosto, dois membros da Junta de Supervisores do Condado de Los Angeles lan??aram uma iniciativa que obrigaria cadeias de restaurantes a inscrever nos menus a quantidade de calorias, de gordura e de sal contida nos alimentos. A discuss??o continua em Sacramento e em Los Angeles, enquanto um estudo indica que o menu infantil dos restaurantes de comida rápida pode ter até mais de mil calorias, o equivalente ?? quantidade de calorias que uma criança de oito anos deve ingerir por dia.

 

No condado de Los Angeles, dois em cada tr??s adultos e cerca de 28% das crianças t??m excesso de peso, segundo dados do Departamento de Sa??de P??blica. Para Harold Goldstein, director do California Center for Public Health Advocacy (CCPHA), um dos principais problemas da epidemia da obesidade est?? no tipo e na quantidade de comida que se oferece nos restaurantes "rascas".

 

A reac????o destes estabelecimentos não se fez esperar. Daniel Conway, da Associa????o de Restaurantes da Califórnia, mostrou-se contr??rio ?? iniciativa por considerar que um governo local não deve "meter o nariz" quando j?? existe uma proposta a nível estatal que est?? a ser discutida.

 

Sobre a proposta estatal, Conway disse que as leis devem ser flex??veis para se ajustarem ??s diferentes categorias de restaurantes que existem na indústria. "H?? ocasi??es em que, como consumidores, queremos saber quantas calorias ingerimos e noutras n??o. A informação deveria estar disponível, mas não obrigar o consumidor a v??-la se não o desejar."


Cristina Abad Cadenas

 

* N.T.: O trocadilho ?? mais forte no original, pois em espanhol "un problema gordo" significa "um grande problema"