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A SIDA em ??frica: os factos que d??o cabo dos mitos

 Medicina
A SIDA em ??frica: os factos que d??o cabo dos mitos

O recente coment??rio de Bento XVI sobre a crise da SIDA em ??frica - ??trata-se de um flagelo que não pode ser resolvido atrav??s da distribuição de preservativos; pelo contr??rio, dessa maneira arriscamo-nos a fazer aumentar o problema?? - provocou em todo o mundo um sururu totalmente desproporcionado com a dimens??o da frase.

 

??O Papa tem de ser demitido!??, escrevia um colunista católico no Washington Post. Este Papa ?? ??uma trag??dia??, declarou um funcion??rio do Vaticano ao London Telegraph. E estas flores foram dos amigos. As observa????es dos inimigos foram mais fogosas: ??Penosamente enganado!??, protestava o New York Times. ??Não h?? qualquer prova de que o uso do preservativo esteja a contribuir para a propaga????o da epidemia; e h?? várias provas de que o preservativo, embora não seja uma panaceia, pode ser ??til em muitas circunst??ncias.??

 

Não h?? qualquer prova? T??m a certeza de que não h?? mesmo nenhuma prova? Não haver?? sequer uma pontinha de sugestão nesse sentido? Ter?? o Respeit??vel Senhor do Jornalismo, ter??o os milhares de políticos e jornalistas que fizeram chover insultos sobre o Papa consultado os especialistas da SIDA? Aparentemente, não o fizeram. Porque, se o tivessem feito, saberiam que são muitos os estrategos da SIDA em ??frica que têm hoje s??rias dúvidas quanto ?? obsess??o com os preservativos.

 

Na verdade, o Dr Edward C. Green, especialista de Harvard na preven????o da SIDA, declarou ?? MercatorNet com todas as letras: ??O Papa tem raz??o??. O Dr Green não ?? nenhum peso pluma no domínio da investiga????o da SIDA. ?? autor de cinco livros sobre o tema, bem como de mais de 250 artigos publicados em revistas com avalia????o an??nima - e, acrescentou o próprio, ?? agn??stico, não ?? católico.

 

A explica????o segundo a qual o problema da epidemia global do VIH/SIDA reside no reduzido número de preservativos distribu??dos não ?? uma explica????o ??com base em provas rigorosas, mas com base em ideologias, em estere??tipos e em pressupostos falsos??, escrevia o Dr. Green num artigo que publicou o ano passado na revista First Things. Acontece que os mitos matam: os mitos ??resultam em esfor??os que s??o, na melhor das hip??teses, ineficazes, na pior das hip??teses prejudiciais, enquanto a epidemia da SIDA continua a espalhar-se, ceifando vidas humanas a uma velocidade arrasadora??.

 

Especialistas com dúvidas

 

O Dr. Green não ?? uma voz isolada. Opini??es semelhantes ??s suas t??m sido publicadas nas principais revistas cient??ficas de todo o mundo. Por exemplo, num artigo publicado na Lancet, James Shelton, membro da Ag??ncia Americana para o Desenvolvimento Internacional, afirma claramente que um dos dez mitos prejudiciais no combate ?? SIDA ?? o mito de que os preservativos salvam vidas: ??S?? por si, os preservativos t??m um impacte limitado numa situação de epidemia generalizada [como aquela que se vive em ??frica]??, escreve Shelton.

 

J?? em 2004, um artigo publicado em Studies in Family Planning concedia que ??ainda não emergiu nenhum exemplo claro de um pa??s que tenha feito reverter um estado de epidemia generalizada principalmente com base na promo????o do uso de preservativos??. Na verdade, a preval??ncia de VIH/SIDA pode mesmo aumentar quando aumenta a distribuição de preservativos. Nos Camar??es, por exemplo, o pa??s para onde o Papa se dirigia quando fez aquelas observa????es, entre 1992 e 2001, as vendas de preservativos aumentaram de 6 para 15 milhões - ao mesmo tempo que a preval??ncia do VIH triplicava, passando de 3 para 9%.

 

Os cr??ticos de Bento afirmam descontraidamente que a solução consiste em mais preservativos porque presumem a SIDA no Soweto ?? o mesmo que a SIDA em S??o Francisco. Acontece que não ??. No Ocidente, a SIDA est?? limitada a grupos de alto risco, como os trabalhadores do sexo, os homossexuais e as pessoas que se drogam por via de injec????o. E os estudos mostram efectivamente que, dentro destes grupos, os preservativos s??o, até certo ponto, eficazes. Em ??frica, por??m, a SIDA ?? uma epidemia generalizada e heterossexual, que afecta as pessoas comuns.

 

H?? anos que os investigadores tentavam desesperadamente compreender por que era que a SIDA tinha em ??frica este efeito t??o devastador. A ??frica subsariana ?? a regi??o mais afectada do mundo, com 67% de portadores vivos do VIH e 72% de mortes por SIDA em 2007 . Neste momento, a resposta ?? clara como ??gua. A raz??o ?? a pr??tica generalizada dos ??m??ltiplos relacionamentos simult??neos de base sexual??.

 

M??ltiplos parceiros

 

O que quer isto dizer? Em ??frica, não ?? invulgar um indiv??duo ter simultaneamente mais do que um parceiro sexual de longo prazo. No Ocidente, os termos a aplicar para designar estas pessoas seriam ??amante?? ou ??namorado??; trata-se de relações que são mais do que simples engates, que se baseiam, até certo ponto, na intimidade, na confian??a e na amizade. Nestas circunst??ncias, ?? muito dif??cil conseguir que os homens recorram ao preservativo de forma consistente. A concomit??ncia, como lhe chamam os especialistas, ?? uma receita fatal.

 

?? este o tema de The Invisible Cure: Africa, the West, and the Fight Against AIDS, um livro muito elogiado, publicado em 2007 por Helen Epstein, jornalista de medicina (que foi, ali??s, calorosamente recenseado no New York Times). Durante muito tempo, Epstein atribuiu a epidemia ao sexo comercial, ?? pobreza, ?? discrimina????o contra as mulheres e ?? baixa taxa de utiliza????o de preservativos. Quando, por??m, come??ou a observar que os níveis de VIH aumentavam apesar do aumento do uso de preservativos, compreendeu que a chave do problema ?? a concomit??ncia. Para a autora, estes m??ltiplos relacionamentos simult??neos de base sexual são ??super auto-estradas de infec????es??; as relações sexuais ocasionais operam, por assim dizer, ??nas bermas??.

 

??S?? por si, os preservativos não det??m os v??rus, porque grande parte das transmiss??es t??m lugar em relacionamentos de longo prazo, nos quais raramente se usam preservativos??, explicava Helen Epstein a um jornalista o ano passado. ??Por isso, ?? crucial proceder a uma altera????o colectiva das normas sexuais, em especial ?? redu????o do número de parceiros??.

 

Acontece mesmo que os preservativos podem tornar-se pior do que ineficazes numa situação de epidemia generalizada. O Dr. Green explicava ?? MercatorNet que ??eles podem até exacerbar os níveis de infec????o por VIH, devido a um fenómeno designado por compensa????o de riscos, ou desinibi????o comportamental: as pessoas correm mais riscos sexuais porque se sentem mais seguras do que têm raz??es para se sentir pelo facto de usarem o preservativo.??

 

Solu????es eficazes

 

Se encher ??frica de preservativos não far?? parar a epidemia, qual ?? a maneira de a fazer parar? De acordo com um acordo recentemente publicado na Science por investigadores da University of California at Berkeley, de Harvard, da University of California at San Francisco, e do Departamento de Sa??de P??blica de S??o Francisco, s?? h?? duas medidas realmente eficazes: a circuncis??o masculina e a redu????o dos relacionamentos m??ltiplos.

 

A circuncis??o masculina faz reduzir significativamente o risco de infec????o heterossexual do VIH, de tal maneira que tem mesmo sido designada por ??vacina cir??rgica??. Este facto poder?? explicar por que motivo a incid??ncia do VIH na ??frica Ocidental ?? relativamente reduzida. A ONU est?? a promover vigorosamente esta pr??tica no sul de ??frica. Mas trata-se de um desafio gigantesco: cerca de 2,5 milhões de circuncis??es até 2010. Pois boa sorte!

 

A outra estratégia eficaz, dizem os especialistas, ?? ??a redu????o do número de parceiros??. Mas isso ?? - oh surpresa! - aquilo que o Papa recomenda. No Uganda, a preval??ncia do VIH diminuiu de forma dr??stica na sequência de uma campanha intitulada ??Fim aos complementos??, levada a cabo na década de 1990. Um recente decl??nio na taxa de VIH no Quénia parece dever-se ?? redu????o de parceiros e ?? fidelidade matrimonial. Al??m disso, e apesar do cepticismo dos ocidentais, ?? possível alterar os comportamentos sexuais. Uma campanha levada a cabo na Suazil??ndia em 2006 acerca dos perigos dos ??amantes secretos?? resultou na redu????o do número de parceiros.

 

Se as ferramentas utilizadas na preven????o do VIH ??fracassaram rotundamente na redu????o da transmissão do VIH??, conforme afirmam o Dr. Green e outros investigadores no último número de Studies in Family Planning , qual ?? a percentagem dos gastos que ?? dedicada ??s medidas que efectivamente resultam? Uma percentagem muito pequena, queixam-se os autores do artigo publicado na Science. A maior fatia dos 3,2 bili??es de dólares americanos do or??amento da UNAIDS não foi dedicada a interven????es ??com base em provas rigorosas??. S?? 20% desse or??amento foram aplicados no combate ?? epidemia generalizada, em ??frica e noutros pontos do globo, embora estas pessoas constituam 2/3 do número total de pessoas infectadas com o VIH. S?? 5% são aplicados na circuncis??o masculina - e a percentagem aplicada na mudança de comportamentos sexuais ?? quase nula.

 

Um editorial do Seattle Times ridicularizava o Papa Bento XVI, afirmando que ele vivia num ??universo alternativo?? . Acontece que não foi o Papa que se instalou nesse universo. Foram os cr??ticos do Papa. Como escrevia o Dr. Green no ano passado, ??as Igrejas cristãs - a bem dizer, a maior parte das comunidades de base religiosa - t??m uma vantagem na promo????o dos tipos de altera????o comportamental necessários ao combate ?? SIDA; essa vantagem reside no facto de os referidos comportamentos serem conformes com os seus ensinamentos morais e ??ticos e com as suas escrituras. Aquilo que as Igrejas j?? t??m tendência para fazer ?? afinal aquilo que melhor resulta no combate ?? SIDA??.

 

Michael Cook, editor de MercatorNet

 

Reproduzido com autoriza????o de www.mercatornet.com