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A sida aumenta entre os ugandeses, que estão a descurar a preven????o

 Medicina

Mas, qual ?? a causa deste recrudescer da doença? M??dicos, organiza????es não governamentais e investigadores são un??nimes em afirmar que a generaliza????o dos tratamentos m??dicos entre a popula????o afectada desde 2005 levou os ugandeses a um excesso de confian??a e descuidar algumas medidas que outrora foram a chave do triunfo. David Kihumuro Apuuli, director da Uganda AIDS Commission, explica: "deix??mos de olhar para a preven????o para nos centrarmos no tratamento e no cuidado". O resultado ?? que come??ou a crescer o número de novas infec????es - umas 135.000 por ano - e a taxa de preval??ncia, quer dizer, a propor????o de pessoas que sofrem de uma doença em relação ao total das pessoas estudadas, se situa em 7 %, segundo dados recentes recolhidos pelo The Wall Street Journal.

 

A maior disponibilidade de anti-retrovirais fez com que se pensasse que o seu uso bastava como defesa contra a SIDA

 

A maior disponibilidade de anti-retrovirais nos últimos cinco anos, como consequência da ajuda internacional, significou uma vit??ria. Mas verifica-se agora que também actuaram como um potente inibidor, um trav??o ??s medidas de precau????o; desapareceu o medo ao cont??gio e ficaram temporariamente esquecidas as consequências negativas da doença. "A pessoa pensa que tomar anti-retrovirais equivale a curar-se do VIH", afirma Joseph Lubega, activista das campanhas contra a SIDA.

 

Quando a fidelidade falha

 

?? medida que aumenta o número de parceiros sexuais a taxa de infec????o volta a crescerEsta miragem, um efeito que os cientistas conhecem como "compensa????o de riscos", incide directamente na conduta sexual, e o número de parceiros sexuais dos ugandeses voltou a aumentar. Assim, enfraqueceu um dos tr??s pontos de apoio da famosa campanha de preven????o desenvolvida durante anos pelo Governo do Uganda, que propunha a abstin??ncia sexual até ao casamento (A), a posterior fidelidade (B) e o recurso aos preservativos em casos extremos (C), com uma simples fórmula, ABC, resumo das siglas dessas mesmas medidas em ingl??s.

 

A este propósito, Edward Green, director do Projecto de Investiga????o sobre a preven????o da SIDA e autor do livro Rethinking AIDS Prevention (2003), h?? j?? alguns anos que procura explicar que com este tipo de conduta sexual as estratégias para combater a SIDA não podem aplicar-se automaticamente aos pa??ses da ??frica sub-sahariana, porque não t??m as mesma efic??cia. Enquanto que na Am??rica e na Europa o início de uma relação sexual costuma significar a ruptura com a anterior, ?? frequente em vastas zonas de ??frica ?? manterem-se regularmente relações de longa dura????o com dois ou mais parceiros. O ??nico modo de sair desta teia de cont??gio de maneira eficaz e, portanto de travar o v??rus, ?? decidir viver uma relação fiel, coisa que se comprovou no Uganda durante o plano ABC.

 

Naqueles anos a fidelidade a um s?? parceiro subiu de 59 para 79 % entre os homens e de 77 para 91 % entre as mulheres, e a taxa de infec????o reduziu-se 4 % , mas agora est?? de novo a crescer.

 

Compensa????o de risco

 

O aumento do denominado cocktail de anti-retrovirais também contribuiu para o fenómeno da "compensa????o de risco" no uso dos preservativos, como explica ao Wall Street Journal Joseph Lubega, que tem armazenados no escritério da sua organiza????o dezenas de milhares de preservativos, que os ugandeses não requisitam. "J?? não se usam como dantes", afirma, porque se minimiza o perigo. O efeito inibidor não s?? ?? experimentado a nível pessoal mas também afecta as atitudes das ONGs, que repetem a mesma batalha ideológica que defrontam os congressistas americanos na hora de decidir que parte dos seus or??amentos se destinam a difundir a abstin??ncia e a fidelidade, e que parte vai para o uso do preservativo.

 

O debate acerca da efic??cia do preservativo em ??frica - para o qual Bento XVI contribuiu os esclarecimentos que fez - baseia-se em dados comprovados. A Organiza????o Mundial de Sa??de (OMS) considera que podem ser muito eficazes para prevenir a transmissão do VIH "se se usam de modo correcto e sistem??tico", mas em ??frica pouco mais de 5 % da popula????o procede desse modo, segundo afirma Norman Hearst, professor de Epidemiologia da Universidade da Califórnia.

 

O aumento do número de doentes de SIDA que afecta o Uganda e provavelmente se estende a outros pa??ses africanos, chega num momento complicado, em que as clínicas do pa??s come??am a sentir a falta de ajudas americanas, como consequência das restri????es or??amentais. Ap??s sete anos de funcionamento de um ambicioso programa de distribuição de f??rmacos, o aumento dos fundos americanos destinados a este fim - com os quais ?? financiada quase metade da ajuda mundial contra a SIDA - afrouxou de maneira alarmante, enquanto continua a aumentar o número de afectados que requerem medicamentos.


M. ??ngeles Burguera