O g??nio e a heran??a de Charles Darwin
Charles Robert Darwin nasceu a 12 de Fevereiro de 1809 na cidade inglesa de Shrewsbury. Foi o quinto de seis irm??os. O pai, Robert Waring Darwin, e o av?? paterno, Erasmus Darwin, eram m??dicos de prest??gio e viviam numa situação económica desafogada.
O pai de Charles queria que ele seguisse a tradi????o familiar e fizesse medicina na famosa Universidade de Edimburgo. Darwin foi para l?? no final de 1825. Em breve reconheceu que não tinha nascido para ser m??dico. As aulas aborreciam-no, as opera????es (que ent??o se faziam sem anestesia) eram para ele insuport??veis e desistiu desta profiss??o. Contudo, não foi um tempo perdido, porque lhe deu oportunidade de conhecer o naturalista Edmond Grant (1793-1874), evolucionista seguidor de Lamarck (1744-1829) que lhe fez reavivar a sua paix??o pela natureza, introduzindo-o em várias sociedades cient??ficas de Edimburgo. Naquela altura o evolucionismo não o convencia.
Quando o pai soube que o filho não tinha voca????o para a medicina, decidiu que estudasse teologia em Cambridge a fim de ser um p??roco anglicano de aldeia. Darwin aceitou: teria um of??cio respeitável e tempo para se poder especializar como naturalista. Em Janeiro de 1828 ingressou no Christ's College de Cambridge, onde também não brilhou pelas suas notas. Terminou a licenciatura no princ??pio de 1831. Não deixa de ser paradoxal que Charles Darwin, o homem cujas teorias cient??ficas seriam utilizadas por alguns como base para fundamentar o ate??smo naturalista, tivesse como ??nico título acad??mico a licenciatura em teologia.
A bordo do "Beagle"
A passagem por Cambridge foi decisiva na vida de Darwin. A?? travou amizades que o marcariam profundamente, entre as quais se destaca a de John Stevens Henslow (1796-1861), pastor anglicano e professor de bot??nica. No fim de Agosto de 1831 este comunicou-lhe que a Real Marinha Brit??nica tinha decidido enviar um navio, o H.M.S. Beagle, ??s ??guas da Am??rica do Sul e ?? Terra do Fogo, com o objectivo de cartografar a costa e fazer medi????es necessárias ao aperfei??oamento das cartas mar??timas. A expedi????o seria comandada pelo capit??o Robert Fitz Roy, que procurava um cientista para recolher informações de carácter naturalista. Depois de vencer a inicial oposi????o do pai, Darwin encontrou-se com Fitz Roy em Londres, e como ganhou a sua simpatia, zarparam de Plymouth em direcção ao Brasil, a 27 de Dezembro de 1831.
Em S??o Salvador da Ba??a e no Rio de Janeiro, Darwin p??de apreciar a exuber??ncia da fauna e da flora tropical. Em Montevideu deparou-se com uma tentativa de revolução e teve de empunhar armas, embora não necessitasse de as utilizar. Na Argentina descobriu esqueletos fossilizados de animais pr??-hist??ricos gigantes na mesma zona em que existiam outros semelhantes mas de menor tamanho e que depois seriam utilizados como provas a favor da sua teoria da evolução.
A viajem de Darwin ?? volta do mundo durou quase cinco anos. Na Terra do Fogo viveu a experiência de um pequeno tsunami, e pelo seu comportamento heróico ganhou a admira????o do capit??o que, em agradecimento, deu o seu nome a um monte perto daquela praia. No Chile presenciou um terramoto espectacular, facto que, juntamente com a expedi????o aos Andes, o ajudou a compreender as transforma????es geológicas sofridas pelo relevo, e a integr??-las na sua teoria da evolução. Ao regressar passaria pelas Gal??pagos e por várias ilhas do Pac??fico (recolhendo dados que lhe permitiram elaborar uma acertada teoria da formação dos at??is de coral), Tahiti, Austr??lia, Nova Zel??ndia, ??frica do Sul, novamente Brasil, A??ores e Inglaterra, onde chegou a 2 de Outubro de 1836.
Inspira????o malthusiana
Como foi que Darwin concebeu a teoria da evolução? Durante a sua passagem pelas Gal??pagos recolheu tartarugas e tentilh??es sem anotar a ilha de proced??ncia, pensando que formavam grupos homog??neos; no come??o de 1837 as amostras foram estudadas em Londres por especialistas como o ornit??logo John Gole e o paleont??logo e anatomista Richard Owen, que lhe asseguraram que em cada grupo havia distintas espécies.
Em Mar??o desse mesmo ano come??ou a p??r por escrito as suas ideias sobre a transformação das espécies. Em Setembro de 1838 leu o livro do economista político Thomas Malthus Ensaio sobre o Princ??pio da Popula????o, publicado pela primeira vez em 1798. Malthus manifestava o convencimento que tinha de que a humanidade estava a aproximar-se de uma grande crise devido ao aumento da popula????o; no futuro não haveria recursos alimentares para todos e ent??o come??aria a luta pela sobreviv??ncia. O livro também falava de popula????es vegetais e animais, afirmando que todas as espécies tendem a procriar para al??m dos recursos disponíveis, de tal modo que s?? uma parte da descend??ncia pode sobreviver. Darwin acolheu estas ideias com entusiasmo uma vez que se enquadravam perfeitamente na vis??o da natureza que estava a nascer na sua mente.
A leitura de Charles Lyell, o ge??logo mais famoso da altura, e as suas próprias experiências da viagem no Beagle, tinham-lhe sugerido que no mundo dos seres vivos podia suceder o mesmo que na geologia: poderia haver mudanças graduais que se desenvolveriam ao longo de grandes per??odos de tempo. Os exemplares das Gal??pagos eram uma amostra da transformação das espécies por adapta????o ao meio e a leitura de Malthus tinha-lhe proporcionado a chave para explicar essa transformação: a selec????o natural seria o mecanismo que Darwin proporia como causa explicativa da evolução.
Assim, em 1839 j?? tinha ideias bem claras sobre as bases da sua teoria da evolução; no entanto, estava plenamente consciente da hostilidade com que seriam recebidas. Um passo em falso e a sua brilhante carreira como cientista poderia ir a pique. Em Junho de 1842 considerou que a sua teoria estava suficientemente elaborada para escrever um breve esbo??o para uso privado. Na primavera de 1844 o texto tinha crescido até se transformar em ensaio, onde, de forma totalmente deliberada, evitava qualquer refer??ncia ?? origem do homem e ?? ac????o do Criador. O livro podia ter sido publicado, mas ele não quis. Confiou-o ?? sua esposa Emma juntamente com uma carta em que lhe pedia que, no caso de falecer, fizesse todo o possível para o publicar, convencido de que o seu conteúdo seria um grande bem para a ci??ncia.
Uma espera cautelosa
Porque ?? que Darwin não publicou o seu ensaio em 1844? Nesse mesmo ano foi publicado um livro an??nimo (depois soube-se que o autor era Robert Chambers, um jornalista escoc??s interessado em questões cient??ficas) com o título: Vestiges of the Natural History of Creation, em que se fazia una apologia do evolucionismo. O seu conteúdo cient??fico era pouco consistente. A geologia e a zoologia de Vestiges decepcionaram profundamente Darwin. Mas o que mais o surpreendeu foi a virul??ncia com que esta obra foi atacada.
Em linhas gerais, as ideias expostas em Vestiges eram parecidas com as de Darwin, mas careciam de uma s??lida base emp??rica. Darwin passaria os quinze anos seguintes, entre outras coisas, a cultivar orqu??deas e criar pombas para encontrar mais provas a favor da sua teoria da transformação das espécies atrav??s da selec????o natural das varia????es aleat??rias surgidas nas modifica????es da descend??ncia.
Em Setembro de 1855, o jovem naturalista Alfred Russel Wallace publicou um artigo em que falava da transformação das espécies. Darwin não se inquietou. Apesar da insist??ncia dos amigos Lyell (ge??logo) e Hooker (bot??nico), continuava renitente em publicar um livro expondo as suas ideias. Tudo mudou a 18 de Junho de 1858. Nesse dia Darwin recebeu um breve manuscrito de Wallace (que ent??o estava a trabalhar na Indon??sia) acompanhado por uma carta. O manuscrito continha a exposição da teoria da evolução por selec????o natural. Tinha-lhe passado ?? frente! A questão solucionou-se com a publica????o conjunta de um artigo sobre o tema, depois do qual Darwin se p??s a escrever rapidamente um livro em que plasmou as suas ideias apresentando uma grande quantidade de dados a seu favor. Tinha nascido A Origem das Esp??cies, publicada em 1859.
Evolu????o e cria????o
A obra teve boa aceitação; mas também levantou uma forte polémica. Apesar de não falar na origem do homem, ningu??m esperava que ele fosse uma excep????o na natureza. Com efeito, segundo a teoria proposta por Darwin, os seres humanos também deveriam ser fruto da selec????o natural e não o resultado de uma cria????o divina. Neste sentido foi famosa a controvérsia entre o bispo anglicano Wilberforce e Thomas Henry Huxley (o bulldog de Darwin), em 1860.
Em 1871 Darwin publicou A Origem do Homem. Nele explicita a ideia de que a selec????o natural ?? a causa do aparecimento do homem, como o foi de todos os outros seres vivos, e afirma que os humanos não possuem um lugar especial na natureza e que as faculdades espirituais procedem da mat??ria por evolução gradual.
Paradoxalmente, este livro não causou tanta agita????o como o de 1859. A no????o de uma evolução no reino dos seres vivos tinha-se imposto. Embora Darwin acreditasse que tudo o que h?? em n??s tem uma origem biológica evolutiva, outros evolucionistas (alguns, como Henslow, Asa Gray ou Wallace, muito bons amigos seus) opinavam que a intelig??ncia humana correspondia a um acto criador de Deus, e não viam incompatibilidade entre a teoria da evolução e a exist??ncia de um Deus criador, facto que o próprio Darwin reconheceria explicitamente no final da revis??o da sexta edi????o de A Origem das Esp??cies, a última que fez em vida.
Carlos A. Marmelada
Carlos A. Marmelada ?? professor da Universitat Internacional de Catalunya, autor de mais de 180 artigos sobre evolução humana e do ensaio El origen del hombre. Cuestiones fronterizas (Palabra), fez gui??es para document??rios sobre a evolução e proferiu numerosas conferências sobre este tema. Actualmente tem no prelo uma biografia romanceada sobre Darwin (Charles Darwin. Una vida para la ciencia, Ed. Casals) e outros livros em prepara????o.

