O Darwinismo depois de Darwin
Hugo de Vries prop??s uma nova teoria da evolução, conhecida por mutacionismo, que consiste basicamente em eliminar a selec????o natural como principal processo da evolução. O mutacionismo proposto por de Vries não foi aceite por muitos naturalistas contempor??neos nem pelos chamados biometristas. Segundo estes, a selec????o natural ?? a causa principal da evolução, atrav??s dos efeitos cumulativos de pequenas mas cont??nuas varia????es. Durante as primeiras décadas do s??culo XX, mutacionistas e biometristas envolveram-se em azeda polémica, que se centrava na questão de saber se as espécies surgiram de forma repentina devido a muta????es de grande efeito (qualitativas), ou de modo gradual, por acumula????o de pequenas varia????es (quantitativas).
S?? na década de 30 se viria a elaborar uma teoria da evolução que integrava a contribui????o essencial de Darwin, a selec????o natural como motor da evolução, com a rec??m-descoberta heran??a mendeliana. Os cientistas mais conhecidos que levaram a cabo a teoria sint??tica da evolução foram Theodosius Dobzhansky, George G. Simpson e Ernst Mayr. Na teoria sint??tica, também conhecida por neodarwinismo, a inter-relação entre a muta????o, a recombina????o gen??tica do ADN, a deriva gen??tica, a migração e a selec????o natural constitu??am os factores que teriam dado origem ??s muta????es evolutivas nos seres vivos.
Gradualmente ou por saltos?
Mas a teoria sint??tica teria que fazer frente a algumas cr??ticas. Por um lado, alguns matem??ticos dos anos 60 objectavam não ter havido tempo suficiente para a evolução se ter produzido de acordo com os mecanismos descritos por Darwin. Por outro, o registo f??ssil apresentava descontinuidades que não podiam ser explicadas pelo gradualismo.
Foi ent??o que John Elredge e Stephen Jay Gould propuseram a teoria do equil??brio pontuado. Segundo estes autores, a evolução caracteriza-se por longos per??odos est??veis de tempo, estases, que alternaram com breves lapsos (poucos mil??nios) durante os quais as muta????es se teriam produzido de forma abrupta. Em sua opinião, isto combinava melhor com o registo f??ssil. Este debate entre gradualismo darwinista e saltacionismo de Gould e Eldredge continua vivo.
A verdade ?? que, 150 anos depois de ter sido proposta, a teoria de Darwin se converteu num grande pilar das ci??ncias da vida. Actualmente, e tal como dizia Theodosius Dobzhansky, nada tem sentido na biologia se não for visto ?? luz da teoria da evolução; e isto poderia estender-se ??s ci??ncias biom??dicas. A evolução ?? hoje em dia um facto aceite pela imensa maioria dos cientistas. A questão que se coloca ?? se a selec????o natural darwiniana tem no processo evolutivo a import??ncia que o naturalista ingl??s supunha.
H?? quem não concorde com o papel t??o determinante atribuído ?? selec????o natural no processo evolutivo. H?? por isso quem requeira uma nova teoria da evolução, uma nova s??ntese, que v?? al??m da que os neodarwinistas propuseram. Outros alegam que a bioqu??mica apresenta ao darwinismo desafios insuper??veis e advogam a exist??ncia de um des??gnio inteligente na natureza, que conseguir??amos descrever por m??todos cient??ficos, proposta essa que est?? a provocar acalorados debates.
A ideia de que a vida se desenvolveu ao longo do tempo por um processo evolutivo ?? uma conquista da ci??ncia que j?? não admite retrocesso, como acontece com o Big Bang em cosmologia e o heliocentrismo em astronomia. O m??rito de Darwin consistiu em ser o principal art??fice de que esta ideia se impusesse com tanta for??a.
De qualquer modo, a teoria da evolução continua a ter que resolver grandes desafios. Ainda não sabemos o que originou a vida, nem como se passou da c??lula procariota ?? eucariota. A origem dos reinos continua no campo das hip??teses, e a afirma????o de que se desenvolveram a partir de determinadas formas de vida primitiva não passa de uma suposi????o mais ou menos coerente. O mesmo acontece com o nível seguinte, o dos filos. As origens destes agrupamentos b??sicos de organiza????o da vida são obscuros, e não estão garantidos por um registo f??ssil tal como o entende o gradualismo.

