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Biografia

S??raphine

 Drama
S??raphine

Consciencializei imediatamente que a encena????o devia ser s??bria e rigorosa, e que S??raphine devia estar em primeiro plano para que o espectador pudesse caminhar tranquilamente ao seu lado. Ali??s o meu trabalho ?? precisamente p??r-me 'ao serviço' das personagens. Neste caso nem sempre foi f??cil. Para o conseguir, tive de procurar colaboradores de talento".

 

S??o palavras do realizador e guionista deste filme, que ganhou com justi??a 7 C??sares do cinema franc??s (filme, argumento, actriz, fotografia, m??sica, direcção art??stica e guarda-roupa) e entre os quais não figura, de modo desconcertante, o nome do realizador.

 

Em 1912, S??raphine Louis, com 48 anos, ?? empregada de limpeza em Senlis, uma pequena cidade na Picardia, a 50 km ao norte de Paris. Tem uma vida muito s??bria. De noite passa horas a pintar. Aprendeu o pouco que sabe de pintura quando tinha 15 anos e fazia limpezas num internato de raparigas, onde se davam aulas de desenho e que ela observava. Mais tarde trabalha 20 anos num convento, onde cultiva uma relação pessoal com Deus, cheia de ternura. Pinta porque o seu anjo da guarda lhe diz que o fa??a.

 

Quando lhe confiam a limpeza do andar de Wilhem Udhe, um alem??o que negociava em obras de arte, surge um encontro casual entre o coleccionador e um pequeno quadro da pintora.

 

Provost e a sua equipa aproximam-se da personagem de S??raphine sem preconceitos, libertando o filme da ??nfase criterioso e do olhar cr??tico, de alto para baixo, t??o próprio da displic??ncia de falsa intelectualidade. Ambas as atitudes se agradecem. S??raphine ?? uma mulher muito simples e o filme também: foge da grandiloqu??ncia e daquele tipo de encena????es sentimentalistas t??o frequentes em histórias deste tipo.

 

A vida de S??raphine apresenta-se muito ligada a pequenos detalhes, muitos deles pouco refinados. A sua relação com o comerciante, um homossexual agn??stico e com tendência para a egolatria, tem o peso que deve ter, nem mais nem menos. O contr??rio (dar mais peso a essa relação) seria uma tenta????o f??cil, mas o filme não seria t??o interessante.

 

A encena????o ?? de grande beleza. A fotografia absorve intencionalmente o brilho das cores, que se reservam para os quadros de S??raphine e para a natureza, criada por Deus, e de que ela se embebe, em grandes tragos. No campo musical destaca-se o recurso de grande beleza ao c??ntico lit??rgico, que S??raphine entoa enquanto est?? a pintar no seu quarto.

 

?? evidente que o tr??gico remate final do filme não tem o equil??brio e o ajustado tempo dos dois primeiros actos, raz??o pela qual se acusou o argumento de uma certa indefini????o, que não chega a encontrar o modo adequado de exprimir a relação entre a pintora e o negociante, até ?? morte de S??raphine em 1942.

 

Por outro lado, embora se tenha evitado fazer uma caricatura, sente-se a falta de uma aproxima????o mais incisiva da alma da pintora. Neste sentido, ?? interessante pensar o que teria feito Robert Bresson com esta história.

 

Yolande Moreau, uma belga de 56 anos, j?? ganhou o C??sar para a actriz em 2004 com Quand la mer monte..., em que ela escreveu o argumento e dirigiu o filme com Gilles Porte.

 

Aqui est?? excelente numa interpreta????o coerente com relato desapaixonado de Provost, numa fita not??vel que procura abordar o mistério da arte, a relação entre a beleza e o seu art??fice, a presen??a do sofrimento e da dor no acto e na actividade criadoras, de um modo invulgar, com sensibilidade, respeito e subtileza.

 

Alberto Fijo