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Mist??rio

O La??o Branco

 Drama
Das weisse Band
O La??o Branco

Este filme terr??vel ?? um relato muito duro e cruel, um g??nero de cinema até certo ponto parecido com o de Bergman do princ??pio dos anos 60 (Em Busca da Verdade e Luz de Inverno) mas sem as ??nsias de ternura que Moeller descreve magistralmente; um g??nero parecido com Gertrud de um Dreyer septuagen??rio, mas sem a sua imensa miseric??rdia.

 

O filme - que com justi??a ganhou a Palma de Ouro em Cannes e os prémios do Cinema Europeu nas categorias de filme, realizador e argumento - conta, num inquietante preto e branco, o quotidiano de uma povoa????o do norte da Alemanha, de um luteranismo extremamente sombrio, narrado retrospectivamente por um velho professor da escola prim??ria. Estamos em 1913 e aproxima-se a I Guerra Mundial. Os protagonistas são crianças - os filhos do pastor, do bar??o, do m??dico, dos rendeiros, da parteira - que se encontram no col??gio e no coro e que dependem do pastor. Come??am a acontecer coisas estranhas e terr??veis que, pouco a pouco, atingem caracter??sticas de um castigo ritual. O ambiente envenena-se, torna-se sinistro e irrespir??vel.

 

O La??o Branco insere-se na linha t??pica de Haneke, um g??nero de cinema devorado pelo doentio sentido da culpa própria e alheia, com uma qualidade formal impressionante (este ?? sem dúvida o seu melhor filme), conseguida com a ajuda da sua equipa técnica habitual e um grupo de actores sensacionais.

 

?? o cinema de um pag??o perplexo, que aos 67 anos parece seduzido pelo mistério do mal e pela violência em que se ensarilhou e que não parece disposto a abandonar. "O meu principal objectivo, comenta Haneke, era apresentar um grupo de crianças em que se incutem valores considerados absolutos e o modo como os interiorizam. Quando se considera um princ??pio ou um ideal como algo absoluto, quer seja político ou religioso, este torna-se desumano e leva ao terrorismo".

 

Inquieta-me esta abordagem de Haneke: parece, paradoxalmente, manipuladora, totalit??ria, integrista. Haneke ?? filho de uma Alemanha (de políticos, de ju??zes, de muitos militares, de centenas de milhares de cidad??os com direito a voto) em que uns indiv??duos sem qualquer religiosidade, os nazis, espezinharam os ideais absolutos que Haneke refere e consagraram o mais atroz positivismo jur??dico. As vítimas de Hitler foram fundamentalmente os judeus e os cristãos e, sem ir mais longe, a?? est?? o cinema para o demonstrar.

 

Mas Haneke apresenta-nos, quase sem matizes nem contrapontos, uma imagem de Deus e da religi??o que não ?? sen??o "um c??rculo m??gico fora do qual lan??amos tudo o que não concorda com os nossos segredos". ?? o deus-eco de que falava Bergson, o deus de uma religi??o fechada, criado completamente, ou quase, a partir da fun????o fabuladora, um deus de bolso, no fim de contas.

 

Haneke diz admirar Bresson, mas penso que não chegou a captar o sentido do cinema do realizador de Journal d'un Cur?? de Campagne: Haneke faz do ate??smo uma m??stica e diaboliza a religiosidade com um simplismo assombroso, compat??vel com uma encena????o t??o brilhante que chega a ser hipn??tica.

 

Alberto Fijo

 

*(X: sexo; D: diálogos grosseiros)